Mesmo após perder o bebê, mãe segue recebendo anúncios sobre maternidade

Gillian Brockell continuou a ter as suas redes sociais inundadas por anúncios relacionadas a maternidade e criação de filhos mesmo após ter perdido o filho ainda no útero.

Por BBC Brasil

A mãe de um bebê natimorto está cobrando que redes sociais repensem a forma como mapeiam o perfil e preferências dos usuários na distribuição de propagandas.

A jornalista Gillian Brockell continuou a ter a sua internet inundada por anúncios de itens relacionados a bebês e maternidade após descobrir que seu filho havia morrido no útero.

Ela, então, escreveu para Facebook, Instagram, Twitter e Experion dizendo que, se eles foram espertos o suficiente para saber da gravidez, deveriam ter notado, também, que o seu bebê morreu.

Outros usuários relataram experiências semelhantes. Facebook e Twitter reconheceram que poderiam melhorar suas práticas.

'Coração partido'

Brockell, que mora em Washington DC, nos EUA, postou uma mensagem no Twitter no mês passado compartilhando a informação de que seu filho morreu no útero.

"Estamos de coração partido em compartilhar com vocês que nosso bebê, Sohan Singh Gulshan, vai nascer morto. Algo de errado aconteceu há algumas semanas, ele parou de crescer e morreu entre terça e quarta", escreveu.

"Ainda estou no hospital, no processo de parto. Os médicos têm uma ideia do que pode ter acontecido e estão confiantes de que poderemos tentar (engravidar) de novo no futuro. Mas, no momento, estamos devastados."

A jornalista sugeriu que empresas de internet deveriam ter percebido, por esse post e pela redução das atividades dela nas redes sociais, que o final da gestação não tinha sido feliz.

Em vez disso, os anúncios segmentados que apareciam nos feeds de notícia das redes sociais de Brockell continuavam a tomar por base as postagens que ela havia feito no início da gravidez.

"Vocês não perceberam os meus três dias de silêncio, o que é incomum para alguém ativa como eu nas redes sociais?", questionou.

"E a minha postagem com palavras-chave como 'coração partido', 'problema' e 'nasceu morto', além dos 200 emojis chorando dos meus amigos? Não era algo que vocês poderiam rastrear?"

Ela acrescentou que foi mal interpretada quando tentou desencorajar as empresas a alimentarem a timeline com promoções relacionadas a gravidez.

"Quando a gente clica em 'não quero ver esse anúncio' e ainda responde à aba de 'por que?', clicando em 'não é mais relevante para mim', sabe o que o seu algoritmo passa a fazer?"

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"Ele entende que você teve o bebê, que o resultado foi feliz, e começa a te inundar de anúncios sobre os melhores sutiãs para amamentação, truques sobre como fazer o bebê dormir a noite inteira e qual carrinho comprar para o seu filho", criticou.

Brockell contou ainda que recebeu propagandas da empresa Experian sugerindo que ela registrasse o bebê no aplicativo financeiro, para já começar a calcular os melhores investimentos e racionalizar gastos relacionados à criança.

"(Recebi) um e-mail spam me encorajando a 'terminar de registrar' o meu bebê – e eu nem tinha começado -, para traçar os créditos dele ao longo da vida que ele nunca terá."

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A resposta das empresas

O chefe do setor de propaganda do Facebook, Rob Goldman, foi o primeiro executivo a responder às reclamações de Brockell.

Ele se desculpou pela experiência que ela teve, mas notou que a plataforma possui uma opção para que o usuário bloqueie anúncios sobre assuntos que possam ser dolorosos, inclusive maternidade e gestação.

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"(Esse sistema) ainda precisa de aprimoramento, mas, por favor, saiba que estamos trabalhando nisso", afirmou.

Brockell agradeceu a Goldman pela resposta rápida, mas disse que a solução proposta não era a ideal.

"Obrigada por responder. Desde que eu postei isso, alguém me mostrou como faço para desligar os anúncios de maternidade e gravidez. Eu tentei encontrar esse ícone uns dias atrás, mas é tudo muito confuso quando você está sofrendo, de luto. Por isso, eu estava sugerindo que palavras-chave como 'natimorto' deveriam ensejar uma interrupção automática desses anúncios", sugeriu.

Ela, depois, acrescentou que, mesmo após adotar as medidas de bloqueio de temas na sua conta do Facebook, continuou a receber anúncios sugerindo que considerasse adoção, o que era inadequado considerando as circunstâncias.

Outros usuários também relataram que a opção do Facebook "ocultar tópicos de anúncios" nem sempre corresponde aos efeitos desejados.

No mês passado, uma britânica que também deve um bebê natimorto escreveu uma carta aberta à rede social, após ocultar anúncios relacionados à criação de filhos, bem como qualquer coisa ligada a bebês, família e casa.

Ela diz que continuou a receber publicidade de produtos para crianças. "O seus anúncios estão me perseguindo com lembranças do que eu perdi", escreveu. O Facebook disse à BBC News que isso foi causado por um problema no sistema, que já foi consertado.

O Twitter também emitiu uma nota. "Nós não conseguimos nem imaginar o sofrimento daqueles que passaram por uma perda assim", disse. "Nós trabalhamos continuamente em melhorar nosso produtos de publicidade, para garantir que sejam apropriados às pessoas que usam nossos serviços."

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