Um crônico Caio Fernando Abreu

Por Rubem Penz

Quando “Pequenas Epifanias” (Sulina, 1996) caiu em minhas mãos, folheá-lo foi como o lento abrir de um portal. Até aquele momento sabia tão somente do Caio Fernando Abreu contista, romancista e dramaturgo. Mas, confesso, não era seu leitor habitual. Foi o fascínio pelo gênero o primeiro impulso para dentro do livro e, poucas páginas depois, já estava hipnotizado pela intensidade de sua prosa. Era como se eu estivesse refém ao telefone em uma de suas longas conversas madrugadas a dentro, falando sobre a vida, a morte e tudo mais, entre delirantes extremos e entremeios sutis. Pois este rapaz nascido em Santiago, multipremiado, editado em diversos países e expoente da literatura contemporânea brasileira estaria completando 70 anos amanhã, em 12 de setembro.

Foi de Gil França Veloso a harmoniosa seleção das epifanias, publicadas originalmente em “O Estado de S.Paulo” entre 1986 e 1995. Precioso conjunto de textos que compõe alguns de seus traços mais marcantes como, por exemplo, a constante sensação de ser estrangeiro em qualquer lugar, fosse no Rio, São Paulo, Londres ou Porto Alegre. De acordo com o editor do “Caderno 2” à época, Antônio Gonçalves Filho, Caio vinha “disposto a fazer da crônica uma narrativa explicitamente autobiográfica e escandalosamente literária”. Vem desta nudez explícita e escandalosa meu arrebatamento: quanto destemor pode estar contido em uma lauda, lauda e pouco? Encantava-me aprender com ele a lição de coragem. Na linhagem de Clarice Lispector, um autor de paisagens internas.

Pensando sobre quão jovem ele nos deixou, em 1996 aos 47, é impossível mensurar sua falta. Depois de ter sofrido as agruras dos difíceis anos 1970, partiu aos primeiros raios da democracia na qual, ele e muitos, eu inclusive, depositava tanta esperança. Olhando em volta, principalmente nos acontecimentos mais recentes, é crível projetá-lo ainda mais profundamente melancólico, mais ainda exilado dentro de si. Consolo possível encontramos em reviver sua obra, atual e eterna. Ler Caio Fernando Abreu é humanitária resistência. Escrever a seu espelho, honroso tributo.

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Mais do que esta crônica, dedicamos livro inteiro em homenagem a Caio Fernando Abreu. Nesta quinta-feira,, a partir das 19h30 no Apolinário (rua José do Patrocínio, 527), ocorre a noite de autógrafos de “Caio em mim” (Buqui, 2018), antologia da Master Class Santa Sede. Comigo, somamos 15 cronistas apresentando 75 textos inéditos inspirados na forma sui generis de Caio F. dialogar com seus leitores. Está lindo. Todos convidados!

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