Cultuados por designers, caminhos subterrâneos de Chicago viram atração turística

Sob parques urbanos e arranha-céus vertiginosos da metrópole americana existe um 'bairro' subterrâneo que está entrando na moda

Por BBC Brasil
Cultuados por designers, caminhos subterrâneos de Chicago viram atração turística

Os únicos sons vinham de uma fresta de luz no teto e do eco lento e misterioso de passos distantes.

Aromas de café, gordura e cloro se misturavam em minhas narinas enquanto eu empurrava portas pesadas, virando a curva de um longo corredor cor de magnólia.

À minha direita estava a entrada do térreo da loja de departamento Macy's e sua praça de alimentação com poucos clientes dentro. Do lado oposto havia uma vitrine diferente, uma fileira de 22 vitrais retangulares no estilo vitoriano americano iluminados com um brilho forte em contraste com uma parede preta.

Eu estava explorando o bairro mais esquisito de Chicago, o Pedway – que à primeira vista não parece um candidato à renovação e muito menos uma inspiração para designers.

99078795cc8e51ca91064103ba5bbe92cbf6ab17-555ed811c0183b62b263b0c1dbd97ca9.jpg O Pedway se expande por oito quilômetros (Foto: UrbanImages/Alamy) / BBC

Expandindo-se por 8 km sob 40 quadras do The Loop (o bairro financeiro de Chicago), essa rede de túneis conectam alguns dos mais famosos prédios dessa que é a terceira maior cidade dos EUA, incluindo a loja Macy's, a Prefeitura e o Centro Cultural de Chicago.

A construção começou em 1951 para oferecer uma passagem subterrânea segura e à prova d'água entre os prédios, e a mistura de corredores foi continuada desde então. Cada seção do bairro tem um dono independente e é mantida pelo prédio correspondente acima. Ou seja, cada parte tem luzes e temperaturas de ar diferentes.

"A maioria das pessoas não entende", diz Margaret Hicks, que faz tours pelo Pedway com sua empresa, a Chicago Elevated. "Mas eu simplesmente amo esse bairro."

A exposição de vitrais vitorianos foi instalada em dezembro de 2013 como um projeto conjunto entre a Macy's e o Museu de Vitrais Smith de Chicago. Foi algo incomum na época e ainda parece incompatível com esse trecho vazio de subsolo.

As pessoas que usam o Pedway normalmente o fazem para escapar de verões escaldantes e invernos rigorosos, caminhando por ali durante seu trajeto diário ou durante a hora do almoço.

A parte mais agitada do bairro fica na Estação Millennium, uma conexão de metrô com um teto fluorescente ondulante e um chão pintado como uma pista de corrida. Cenas do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas foram gravadas aqui.

Mas Hicks reconhece que a maioria das pessoas que passam pela estação não percebe que elas estão em Pedway ou sequer sabem que Pedway existe. Ele não é considerado um lugar para se permanecer, para parar, para cheirar as flores – ou admirar as flores desenhadas em pequenos triângulos de vidro.

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Esses vitrais incluem um vaso com flores extravasando dele, um melro voando em um céu de retalhos de cinzas e azuis e uma coruja no meio de uma tela floral. Muitos foram feitos por artistas desconhecidos, mas um deles – a Teia de Aranha – foi criado pelo renomado artista de vitrais Louis Comfort Tiffany, cujo pai fundou a famosa joalheria Tiffany & Co. Essa janela tem detalhes de pétalas em um azul etéreo.

"É estranho, não é?", diz Hicks, enquanto olhávamos para a tela. "Quer dizer, não há nada mais aqui embaixo".

Mas isso está mudando conforme outros estão descobrindo o que Hicks sabe há anos: que a esquisitice de Pedway é estranhamente atraente.

A Segunda Bienal de Arquitetura de Chicago, que acontece entre setembro de 2017 e janeiro de 2018, viu potencial nesses corredores.

Entre os pilares de entrada do Centro Cultural de Chicago – o prédio principal da Bienal – tubos de neon brilhavam por trás de um painel de vidro. Inspirados pela iluminação fluorescente de Pedway, essa instalação dá pistas sobre esse misterioso mundo subterrâneo.

As arquitetas por trás desse trabalho, Fiona Connor e Erin Besler, esmiuçaram os túneis, examinaram fissuras e esquinas nos mínimos detalhes e se inspiraram na iluminação, nas texturas e na paleta de cores de branco e cinza do bairro.

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Dentro do centro, atrás da vitrine onde fica a instalação em neon, um elevador mergulha na seção do Pedway construída em 1989.

Na chegada, os visitantes podem se perguntar se apertaram o botão certo. Ao sair dali, eles são recepcionados por uma imagem espelhada do que está acima – Connor e Besler replicaram uma das entradas do Centro Cultural de Belas Artes.

Ao criar dois mundos, um de ponta cabeça para o outro, esse trecho e a instalação de luzes sob o chão chamadas de "Porta da Frente" expõe sua conexão e sua distância ao mesmo tempo.

"O projeto conecta usuários que não conhecem o Pedway com a experiência da Bienal ao reconhecer a presença de um grande espaço cívico nesses corredores que estão de certa forma abandonados", diz Todd Palmer, diretor-executivo da Bienal.

"O que não é reconhecido é visto de uma maneira renovada, em consonância com o tema da Bienal 'Crie uma Nova História"".

A ONG Environmental Law & Policy Center (ELPC) arrecadou U$ 125 mil (R$ 405 mil) para transformar o Pedway em uma atração turística e está em busca de mais investimento de negócios locais, grupos turísticos e donos de prédios ligados aos túneis.

Entre os planos, está uma feira de comidas e uma biblioteca subterrânea com um café e lugares confortáveis para ler livros. Galerias de arte serão ligadas aos túneis para que os vitrais pareçam menos anormais.

O elemento de design mais ambicioso ficará embaixo do Parque Millennium: trata-se de um cubo de vidro pontiagudo com um elevador para transportar as pessoas para o subsolo.

Sem dúvidas é um passo adiante dos pontos de entrada atuais, escondidos atrás de esquinas escuras e com escadas rolantes que parecem levá-lo a um abismo.

"O Pedway pode passar de um patrimônio subutilizado para uma parte mais vibrante do centro de Chicago, melhor utilizada por moradores e visitantes", disse o diretor-executivo da ELPC, Howard Learner. "Agora trabalhamos para descobrir os melhores caminhos para transformar essa visão do Pedway em realidade."

Hicks é cético quanto a essa mudança toda. Apelidada de "senhora Pedway", ela conhece todos em seu lugar preferido.

Há os seguranças, os engraxates e Bill, um guitarrista que toca folk no Pedway há muitos anos.

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Hicks até morou lá durante uma semana, dormindo no hotel Fairmont – que tem acesso ao Pedway – fazendo amigos na Starbucks (há três lá embaixo) e usando entradas de porões para ver filmes, usar academias e jantar em restaurantes. Tudo sem ver a luz do dia.

"Eu realmente acho que o Pedway é um dos bairros de Chicago. Eu não quero vê-lo gentrificado", diz Hicks. "Proteja o que é estranho, sabe? Obviamente, há espaço para melhorias no Pedway – eu não quero que as pessoas fiquem perdidas e confusas ali. Mas o que eu amo nele é a sua esquisitice".

Esquisitices

As duas outras pessoas presentes no meu tour, uma chicaguense e sua mãe, que a visitava de outra cidade, não conheciam o Pedway.

"Eu nunca soube que isso existia", disse a filha. "Quando eu ouvi falar do tour, tive que vir. É tão estranho".

Hicks está acostumada com isso. "A maioria dos locais não conhecem o Pedway", disse. "Eles não o entendem".

Nós deixamos o local através da rede de corredores, subindo escadas e passando por várias portas.

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Ao dobrar uma esquina, o fotógrafo Ed estava sentado jogado no chão, olhando para a parede com olhos vidrados. Ele nos observou passando. E então ele se jogou para trás novamente ao perceber que éramos parte de um tour e não um casal feliz.

Todos os dias, Ed fica de olho nas portas da instância judicial que celebra casamentos, cuja entrada fica no Pedway atrás da Prefeitura, à espera de recém-casados que talvez o paguem para tirar alguns retratos. Uma foto montada de um casal feliz fica aos seus pés do lado de um monte de balões e um buquê de flores, material para uma sessão de fotos em potencial.

Em alguns dias, os corredores estão repletos de casais bem vestidos. Mas naquele dia o negócio estava pouco movimentado. Quando perguntei quanto tempo Ed fica ali esperando até desistir, Hicks encolheu os ombros e sussurrou: "eu nunca o vi à luz do dia".

Ao dobrarmos uma nova esquina, ela acrescentou: "eu adoraria ver mais pessoas aqui no Pedway, porque eu quero que ele cresça. Eu quero que fique maior e maior".

Se ele realmente se tornar um dos pontos imperdíveis de Chicago, Hicks provavelmente estará por ali como sempre – guiando tours, conhecendo os novos locais e sentindo falta dos "bons e velhos tempos" quando a única empolgação vinha de um casal recém-casado que comemorava pelos corredores desertos.

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