Por que as pessoas gastam demais nas férias?

Especialistas explicam como 'estouros' no orçamento envolvem ações inconscientes, mas que podem ser evitadas com um pouco de psicologia e bom senso.

Por BBC Brasil
Por que as pessoas gastam demais nas férias?

Esta Shah tem um hábito: ela sempre planeja alguma atividade divertida para o dia seguinte ao fim de suas férias. Não se trata de uma forma para lidar com a depressão de voltar ao trabalho, mas sim um truque para evitar gastar demais. Saber que a diversão vai continuar quando você volta para casa "evita gastos desnecessários nos últimos dias de férias", explica Shah, que dá aulas de marketing na Universidade de Cincinnati (EUA).

A tática, segundo a professora, faz com que ela não "persiga" a felicidade durante as férias, pois sabe que haverá mais diversão mesmo depois da volta para casa. Permite que gaste de forma mais racional e não se comprometa com gastos desnecessários.

Ponto cego coletivo

Muitas pessoas voltam das férias com contas de cartão de crédito mais altas do que esperavam. Nos EUA, por exemplo, os excessos nos gastos têm grande impacto no orçamento familiar: 74% dos americanos admitem terem contraído dividas de mais de US$ 1,1 mil na volta das férias, de acordo com uma enquete do site de finanças pessoais Learnvest.

No Reino Unido, uma pesquisa da Associação de Agentes de Viagens Britânicos determinou que a média individual de gastos pessoais com as férias mesmo antes de entrar no avião é da ordem de US$ 718, o que inclui duty free e compras de roupas.

"Já trabalhei com muitos clientes que não têm problemas em sua vida financeira – a não ser quando saem de férias", explica Brad Klontz, psicólogo e consultor financeiro que vive no Havaí e é especializado em controle de gastos.

Dinheiro

Mas por que as pessoas perdem o controle quando viajam?

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Klaus Wertenbroch, professor de marketing da Escola INSEAD de Negócios, em Singapura, explica que há uma gama de razões subconscientes que explicam tanto os maiores gastos nas férias quanto a dificuldade em controlá-los.

Para começo de conversa, variações cambiais podem dar a ilusão de que você tem mais dinheiro do que imagina no exterior. Em um estudo de que foi coautor, publicado em 2007, Wertenbroch, descobriu que o valor nominal de moedas afeta a maneira como as pessoas percebem seu valor real: quem está em um país cujo valor da moeda é uma fração da moeda do país de origem tem chance de gastar mais.

Por exemplo, se você vai do Canadá à Indonésia, um dólar canadense vale por volta de 10.800 rúpias indonésias. Com uma carteira recheada de notas altas, as chances de gastar demais são ainda maiores porque fazer conversões mentais é um processo exaustivo – Wertenbroch afirma que é mais provável que indivíduos façam uma avaliação influenciada pelo valor das notas em detrimento do valor real do dinheiro.

Contabilidade "maleável"

Viajantes podem ser suscetíveis a fazer orçamentos baixos ou altos demais por causa de um efeito batizado de "contabilidade mental maleável", que aumenta a tendência de gastar, de acordo com Shah. Isso porque tendemos a justificar os gastos com base em circunstâncias de momento em vez de nos atermos a um controle mais restrito das despesas.

Por exemplo: se você planejou gastar apenas US$ 100 por dia em suas férias, você pode incorrer em gastos extras de US$ 30 em alimentação se categorizar comida como uma despesa corriqueira e não uma de férias. Como resultado, justificamos que podemos gastar os US$ 30 extras sem reconhecer que estamos gastando mais do que fazemos em casa. "Nossos orçamentos não são tão bons quanto pensamos", diz Shah. "Eles desmontam com base em nossas motivações".

Mesmo estimativas mais conservadoras não funcionam. Por exemplo, separar US$ 1 mil para um viagem de uma semana e descobrir, no último dia, que ainda sobraram US$ 500, torna muito fácil "torrar" tudo antes de entrar no avião, de acordo com estudos de Shah.

"Números redondos em um budget criam uma espécie de licença e uma desculpa mental para gastar mais", explica a especialista.

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Outro fator influenciador dos gastos é a sensação de falta de tempo, diz Deepak Chhabra, professora da Universidade do Arizona especializada em turismo. Seja em souvenires ou jantares, estamos, segundo ela, "encarando a vida em uma perspectiva de curto prazo e isso pode entusiasmar demais".

Com base em um estudo do site de viagens Expedia, que mostrou que viajantes de Japão, EUA, e Coreia do Sul são menos propensos a tirar todos os dias de férias a que têm direito em comparação com cidadãos de alguns países europeus, Chhabra concluiu que pessoas com menos tempo para férias por ano são mais vorazes no que diz respeito a gastos.

Outro ponto a ser considerado é o efeito das mídias sociais. Ver viagens de amigos e conhecidos pode inspirar um "medo de ficar de fora da experiência", um sentimento que tende a levar viajantes a gastar demais – especialmente os mais jovens, que Chhabra diz serem mais propensos a valorizar experiências que outras gerações.

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A professora explica que a influência de ver contatos gastando mais dinheiro em viagens é maior até que o efeito da publicidade. "Você quer fazer igual ao que as outras pessoas (de sua rede) estão fazendo".

O que fazer, então?

Em vez de criar um budget baseado no que você pretende gastar, trate suas férias como dias normais de vida, explica Shah. O primeiro passo é entender a moeda do país e seu custo de vida. Inteirar-se sobre itens como comida, bebida, transporte e entretenimento tornam os preços mais familiares quando se está na viagem.

Faça um orçamento diário baseado em sua pesquisa de quanto espera pagar por subsistência e atividades, em vez de um semanal. Ele é mais fácil de acompanhar.

Por fim, tente pagar pelas férias em um curto período de tempo, incluindo despesas de voos e acomodação. Pagamentos de parcelas durante meses tornam mais fácil perder o controle do quanto estamos gastando em cada porção da viagem, aconselha a especialista em marketing.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Capital

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