Companhia de dança ensina balé para meninas cegas em São Paulo

Por Eliane Quinalia

Ser bailarina pode parecer algo distante da realidade de quem possui algum tipo de deficiência, especialmente se ela for visual, mas esse sonho não precisa ser impossível.

Em São Paulo, uma companhia de balé tem dado o que falar ao capacitar alunos nestas condições para a dança.

Na Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos, que fica na Vila Mariana, zona sul da cidade, meninas e meninos de todas as idades se revezam em movimentos sincronizados e tão perfeitamente executados que fazem quem assiste até esquecer que ali sobre o palco cada passo está sendo executado por pessoas parcialmente ou totalmente cegas.

O projeto, que tem como idealizadora a bailarina profissional e também responsável pela companhia de dança, Fernanda Bianchini, de 38 anos, começou há 22 anos e hoje soma 338 alunos na capital.

"Enfrentamos muito preconceito no início. Achavam que ensinar balé para cegos era impossível, que eles iriam se machucar. Até recusaram nossas inscrições em festivais, mas demos a volta por cima e mostramos que aqui os sonhos se transformam em realidade e que o universo da dança é para todos", diz Fernanda.

Além de jovens com deficiência visual, a companhia oferece aulas gratuitas de dança, também, para quem tem outros tipos de deficiência – quem não tem também pode participar, mas pagando uma mensalidade que parte de R$ 150.

Veja a galeria:

 

Balé tátil
Para ensinar os passos para as futuras bailarinas (e bailarinos), as professoras fazem o uso das mãos. “Nós mostramos o movimento por meio do toque. Esse trabalho é feito individualmente, assim como as correções”, diz a professora e bailarina Geyza Pereira, de 31 anos, que também é cega.

Segundo ela, sua deficiência ajudou a aprimorar a metodologia de ensino adotada pela escola, uma das primeiras no país a apresentar a proposta. "Não podemos ver, mas podemos sentir. E como nós [deficientes visuais] nos apegamos muito aos detalhes, percebi que poderia ensinar minhas colegas de um jeito mais fácil se mostrasse com as mãos como cada movimento é executado. E deu certo", diz Geyza, que hoje dá aulas para crianças e adolescentes.

O som é outro recurso usado para ajudar as alunas nas aulas. “Cada passo acontece em um determinado momento da música. Isso para nós, que somos deficientes visuais, é importantíssimo para marcar o tempo e manter o grupo sincronizado”, detalha a profissional.

Benefícios
Naturalmente, o balé ajuda no raciocínio, na postura corporal, na concentração e na coordenação motora, mas para quem é cego traz um benefício a mais: a confiança.

“Os alunos melhoram a postura e se sentem mais seguros para se locomover”, diz Fernanda.

Os benefícios são confirmados pela mãe de Júlia Victória, de 3 anos. “Além da postura e do equilíbrio, as aulas também melhoraram muito a confiança dela para andar”, conta Tatiane Thamires da Silva Santos dos Anjos, de 23 anos.

Mas alcançar tais benefícios não é tão fácil como parece. Para isso é preciso treino, muito treino. É o que conta a bailarina Marina Guimarães, de 31 anos, que integra a companhia profissional da escola. Ela dedica 12 horas de sua semana à dança. "O balé por si só é difícil e para aprender os passos é preciso muita disciplina e determinação. O passo de hoje tem que ser melhor do que o de ontem. Temos que nos superar sempre e é isso o que levamos para as nossas vidas", diz Marina.

Serviço
Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos
Rua Domingos de Morais, 1.765 – Vila Mariana, SP. Tel. (11) 5084-8542
Aulas de segunda a sábado, a partir das 7h. Alunas com deficiência não pagam pelo curso. As demais pagam entre R$ 150 a R$ 250 por mês para praticar balé na companhia
www.associacaofernandabianchini.org


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