Enem 2017: estudantes revelam estresse antes de prova;veja dicas para domar ansiedade

Por Angela Correa
Pexels
Enem 2017: estudantes revelam estresse antes de prova;veja dicas para domar ansiedade

Lucas Nunes, de 20 anos, vai realizar o Enem pela terceira vez. O rapaz frequenta um cursinho popular organizado por alunos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) na Bela Vista, região central de São Paulo, e conta que a pressão para ir bem nas provas afetou seu psicológico.

“Nos últimos dois anos eu precisei tomar remédios para ansiedade que eu tenho e que aumentou consideravelmente. Depois de um tempo, deu pra perceber que o que eu gastava com o tratamento era o valor de uma faculdade popular”, conta. Para ele, um dos problemas é a sensação de não estar conseguindo dar o seu melhor nos estudos, não importa quantas horas sejam dedicadas ao aprendizado dos conteúdos cobrados nas provas.

“Quando você é um vestibulando, não importa o quanto você se esforce, você não sente que está fazendo direito, sempre acha que está fazendo menos. E isso piora quando você é recusado nas universidades ao longo dos anos”, desabafa.

Reflexos físicos

A estudante do 3º ano do Ensino Médio, Karine Aquino, de 16 anos, concorda. Segundo ela, que também sofre de ansiedade, o período que antecede as provas se resume a pensamentos que oscilam entre "'não estudei o suficiente’ e ‘eu vou dar o meu melhor"".

Karine quer entrar no curso de Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que está entre as dez melhores do país. Para encarar a concorrência, a garota estuda com cursinhos online durante a tarde e frequenta as aulas no período noturno. A rotina acaba refletindo na saúde. “Me alimento mal, forço muito os olhos e a coluna estudando e acabo tendo que tomar remédios pra dor constantemente”, diz.

A gaúcha não é a única a sentir no corpo a pressão para ingressar em uma universidade. A estudante de Direito Mariana Fornaciari teve o lado esquerdo do corpo paralisado na época dos vestibulares no ano passado.

Mariana também percebeu outras mudanças no organismo em decorrência do estresse. “Meu cabelo caiu muito. Antes da Fuvest [vestibular para universidades públicas do estado de São Paulo] eu comecei a menstruar e parei só duas semanas depois”, relembra.

Equilíbrio

Cleusa Sakamoto, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano e professora universitária na Faculdade Paulus de Comunicação (Fapcom) explica por que temos a sensação de desgaste após uma longa jornada de estudos, principalmente quando isso se torna uma rotina. “Estudar é uma atividade que requer concentração e um desgaste enorme físico e mental. A gente não enxerga os processos físicos e mentais mas eles existem”, afirma. Com isso, vem o acúmulo de estresse. “A definição de estresse é exatamente isso. Existe uma sobrecarga momentânea que você tem que reagir, tem que dar conta, então a questão é como você lida com esse estresse” explica.

Para evitar a exaustão física e mental, a professora Patricia Monari Baccado, que leciona matemática para alunos do Ensino Médio no Colégio Mary Ward, em São Paulo, orienta. “É interessante intercalar entre as horas destinadas aos estudos, atividades recreativas que tirem a tensão por um breve momento”.

Mariana Guglielmo, pesquisadora do projeto FGV Ensino Médio – que disponibiliza materiais com o conteúdo cobrado pelos principais vestibulares do país em uma plataforma digital – concorda. “Para o aluno se preparar bem para essa e qualquer outra prova da vida é necessário que ele relaxe, que ele coma bem […] há momentos em que é necessário que a gente relaxe”, ressalta.

Mas para quem vê os exames como única alternativa de ingressar em uma instituição de ensino e garantir o futuro, nem sempre é fácil reservar um tempo para se distrair. É o que conta Giulia Chechia, de 17 anos, que pretende cursar jornalismo. “Os poucos momentos que separo para o lazer fico culpada e com a cabeça nos estudos”, relata.

Carolina Todesco, de 19 anos, sente o mesmo. A jovem, que deseja ingressar no curso de Medicina Veterinária, vai fazer o Enem pela terceira vez. “Eu estou sempre estressada, não consigo relaxar. Mesmo quando saio não consigo estar 100% presente lá porque me sinto culpada de não estar estudando”, desabafa.

Dentro de casa

Robson Magri, professor de Geografia e Atualidades do Colégio Franciscano Pio XII, chama a atenção para a importância do apoio da família nesse momento de decisões importantes para jovens que ainda estão em formação.“Eles querem ser ouvidos e querem sentir segurança. O professor é um apoio importante nesse momento, mas vale ressaltar que o apoio fa família é essencial.”

Mas, às vezes, a pressão para obter um resultado positivo nos vestibulares começa dentro de casa. É o caso da estudante Isabela Ceotto, de 18 anos, que terminou o Ensino Médio em 2016. Ela explica que a relação com a família se tornou mais complicada quando a jovem não foi aprovada na faculdade.

“Desde o começo me cobram que eu devia ter passado na faculdade direto”. Além disso, familiares da vestibulanda não aceitam a escolha da profissão de Isabela, que quer cursar Psicologia em uma universidade pública, já que os pais não pagariam uma instituição privada. “Se eu fizer uma particular ele [pai] desiste de mim”, diz.

Para solucionar os conflitos entre as expectativas da família e o sonho do vestibulando, segundo Cleusa, é necessário parar e analisar a situação de forma completa.

“De quem é o futuro que estamos falando? Do vestibulando. Os pais são importantes? Claro que são, mas eles têm uma participação que tem a ver com a estrutura necessária para a pessoa abraçar esse desafio”, diz. “Não vão determinar como será bem-sucedida essa empreitada.”

A psicóloga reforça que o diálogo ainda é a melhor opção. “Desenvolver a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro”, destaca.

Figura do professor

Para a pesquisadora e professora de História Mariana Gulglielmo, é importante também que os docentes estejam atentos para não aumentarem a tensão e insegurança dos jovens. “Os alunos são muito jovens e eles [professores] podem ampliar de alguma forma essa pressão”, diz. De acordo com ela, embora em alguns casos as turmas sejam numerosas, “a aproximação com o aluno é fundamental”. “Tentar passar mais tranquilidade e fazer com que o aluno se sinta capaz”, ressalta.

Robson Magri reforça que “falas mal colocadas e cobrança excessivas podem agravar a situação”. “O incentivo é essencial e isso pode ser feito na medida certa, mostrando segurança com o conteúdo e valorizando o conhecimento que o aluno traz com ele”, recomenda.

Na hora da prova

Cleusa Sakamoto destaca que, embora seja difícil controlar o nervosismo na hora dos exames, o melhor a fazer é encarar a situação de maneira realista. “Ser realista significa valorizar o que existe, reconhecer o que não existe, saber do seus limites e contar também com a sorte. A gente tem dificuldade de olhar uma situação quando ela é complexa. E a vida de tudo e nada não tem nada”, orienta.

Loading...
Revisa el siguiente artículo