Saiba o que funciona ou não para tratar a ansiedade

Por Metro Jornal São Paulo
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Saiba o que funciona ou não para tratar a ansiedade

Você já deve ser se deparado com várias dicas na internet sobre como tratar a ansiedade. Seja de youtubers, celebridades ou mesmo daquele amigo na rede social, as recomendações são diversas e algumas até parecerem boas demais para serem verdade.

O fidget spinner é a sensação do momento, mas não a única. Aplicativos com sons relaxantes ou mesmo diários de bordo, como o "Minha Ansiedade", propõem uma pausa na correria do dia a dia em busca de autoconhecimento. Já no Instagram, os vídeos ASMR (resposta sensorial autônoma do meridiano, em tradução livre) são sucesso, pois provocam uma sensação quase imediata de prazer.

E se você acha pouco tem mais. Na web, tem gente até recomendando o uso de maconha para lidar com o transtorno.

Mas, de verdade, será que tudo isso dá certo?

Daniele Gaspariam Daniele Gaspariam / Arquivo pessoal

A cabeleireira e empresária Daniele Gaspariam, 25, sofre de ansiedade desde os 12 anos, mas só procurou ajuda médica no ano passado. Noites em claro, taquicardia, irritabilidade e falta de foco fazem parte da rotina da jovem.

Apesar de ter sido orientada a realizar um tratamento com medicação, Daniela optou por praticar exercícios físicos e se alimentar de maneira saudável. E foi justamente nas redes sociais que ela encontrou um aliado: o fidget spinner.

"Comprei um e resolvi testar, custou apenas R$ 5. Ele me ajuda em momentos de estresse, quando o desespero começa a apertar. Não sei exatamente como funciona, mas ele dá uma controlada. Recomendo como um auxílio, não como um único tratamento",  diz Daniele Gaspariam

Polêmica
Recentemente, uma publicação no Facebook causou polêmica na web. O fotógrafo e estudante de letras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Victor Martins, de 21 anos, questionou quem diz ter conseguido tratar a ansiedade com métodos considerados alternativos, como os citados acima.

"Lembrete do dia: se você consegue tratar sua ansiedade de maneira efetiva com fidget spinners, ASMR ou maconha, muito provavelmente você não tem ansiedade nenhuma", disse Victor Martins no Facebook

O post resultou em diversas reações — boa parte delas, negativas. Porém, o debate permanece válido. Estaria havendo uma banalização do diagnóstico da ansiedade ou as pessoas estão de fato mais conscientes sobre o transtorno?

Victor Martins Victor Martins / Arquivo pessoal

"Eu sou contra dizer que somente um diploma pode avaliar quem tem ou não o transtorno, mas as pessoas confundem seus picos de estresse, tensão e até mesmo o cansaço mental natural após um dia difícil com ansiedade, e existe um abismo enorme entre essas coisas."

Martins disse que já chegou a ver no Facebook um grupo de pessoas recomendando a outras que abandonassem os medicamentos prescritos por médicos e passassem a consumir maconha.

Quanto mais o post ganhava repercussão, mais aumentavam os comentários. O estudante chegou a conversar com alguns dos autores. "Achei importante mostrar o que realmente pautava aquela minha opinião. Não discordo que esses objetos possam funcionar como um paliativo, mas não como o tratamento em si."

O que diz a ciência?
O psiquiatra Sérgio Pedro Baldassin afirma que o uso desses dispositivos, a princípio, pode ser considerado uma opção. Porém, sua eficácia como tratamento é questionável.

"Se você tem um quadro de ansiedade leve, com uma causa definida, pode ser que encontre algumas maneiras muito pessoais de lidar com isso, mas que funcionam. No entanto, se o transtorno for considerado moderado ou grave, não existe nenhuma evidência de que o spinner seja útil."

"O ansioso tem uma autoscopia exagerada. Ou seja, ele fica pensando no que está sentindo o tempo todo. É aí que entra o spinner: ele muda a sua atenção para outra coisa", diz Dr. Sérgio Pedro Baldassin

Dr. Sérgio Pedro Baldassin Dr. Sérgio Pedro Baldassin / Arquivo pessoal

Baldassin explica que o spinner age como uma filtro: ele faz com que o paciente foque em outra coisa além do problema que o aflige. Mas é preciso cuidado: a distração pode acabar tendo um efeito contrário e piorar o psicológico da pessoa.

Por exemplo: é normal que um vestibulando fique estressado com as provas. Agora, se ele faz o uso isolado de uma dessas recomendações e deixa de enfrentar o problema com alguma válvula de escape saudável, como uma atividade física, o risco de ansiedade só tende a aumentar.

Além de inviabilizar a vida do doente, a ansiedade requer cuidados redobrados da saúde pública. O transtorno atinge 33% da população mundial, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), e está entre as maiores causas de afastamento no trabalho, como aponta a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

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