'Quando a gente vai preso, deixa coisas para trás': O drama do recomeço após o cárcere

Por Laís Pagoto - Especial para o Metro Jornal

Luana dos Santos Assis, 38 anos, tem os olhos constantemente marejados. O brilho de suas lágrimas ora refletem a esperança de mudar de vida, ora revelam o peso do passado e do presente que lhe cai sobre os ombros.

Casada, mãe de quatro filhos, Luana passou mais de 10 anos presa por tráfico de drogas. Nesta semana, ela participou do Women Will, projeto de capacitação profissional promovido pelo Google e pela Rede Mulher Empreendedora, em uma edição voltada a ex-detentas. Logo no início da conversa com o Metro Jornal, ela explica: "Cheguei aqui não por ser egressa, mas como vítima de violência doméstica."

Após denunciar o marido por agressão, o casal foi aconselhado pelo Fórum de Sant'Ana a participar de reuniões. Uma assistente social do fórum recomendou Luana para o projeto Responsa, que a informou sobre o evento em São Paulo. "Vim tentar uma mudança, porque aqui eu pretendo arrumar um bom serviço", diz.

Moradora do bairro do Limão, na zona norte de São Paulo, ela explica que depende financeiramente do marido, com quem mora apesar de uma medida restritiva. "Dependo dele até para pegar uma condução para procurar serviço. Não trabalho, mas tenho profissão. Sou cozinheira, trancista e também tenho ensino médio completo."

'Quando a gente vai preso, deixa coisas para trás'

Luana foi detida pela primeira vez aos 18 anos. Ela conta que teve uma boa criação e estudou em colégio interno. "Mas comecei a fumar maconha e, depois, a traficar. Claro que fui parar na prisão. A consequência da droga, no mínimo, é a cadeia."

As quatro vezes em que foi privada de liberdade somam 13 anos, tempo que lamenta ter perdido. "Quando a mulher vai presa, eles estão matando tudo que ela teve até o momento e a tirando do convívio dos filhos. E quem vai cuidar deles? Ninguém, só Deus. Mas e se 'Ele' não estiver? E se não tiver mais ninguém? Ficam muitas marcas, umas que ninguém pode arrancar."

Luana se refere ao fato de sua filha mais velha, de 22 anos, enfrentar problemas com drogas atualmente. "Sabia que isso iria acontecer. Tem filho que não entende, não engole a mãe sendo agredida dentro da própria casa. E o jeito dele expressar isso é encontrando um meio de escape. O dela foi esse."

Cabeça erguida

Falar da filha é o que deixa Luana mais emocionada. É por ela, também, que a ex-detenta busca se reerguer. Depois de alguns goles d'água, retomamos a entrevista.

Assim que deixou a prisão, há três anos, Luana começou a trabalhar em um CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), da Prefeitura de São Paulo. Depois, ficou um tempo como cozinheira em alguns estabelecimentos que faziam entrega por aplicativo.

Mas seu sonho mesmo é montar um salão de beleza. O plano incluiria também a filha, que sabe fazer sobrancelha e maquiagem. Com as habilidades da mãe como trancista, elas iriam longe.

E irão. Entre relatos tristes, Luana mostra a garra de alguém que reúne a força que lhe restou para seguir em frente. E o que não faltou no evento desta semana, o Women Will, foi inspiração. "O mais importante para mim foi ver a Ana [Minuto, uma das palestrantes] falando. Porque é difícil a gente saber que a negra, hoje em dia, tem voz. Que a negra pode falar, que a mulher pode passar uma luz para outra mulher. Não interessa se é negra, branca ou parda, mas a gente ver uma pessoa da nossa raça falando é muito importante. Eu vou conseguir."

Conheça mais sobre o Women Will

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