A épica história do mapa que deu nome à América

Há mais de 500 anos, no interior da França, um grupo de intelectuais de vários países fizeram a primeira representação cartográfica do 'Novo Mundo'.

Por Madhvi Ramani - Da BBC Travel

Saint-Dié-des-Vosges é uma pequena cidade no vale Meurthe, no nordeste da França. Está localizada a 68 km a sudoeste de Estrasburgo, também na França, a 93 km a noroeste da Basileia, na Suíça, e a 74 km a noroeste de Freiburg, na Alemanha.

Hoje, graças a mapas e métodos precisos de cálculo de longitude e latitude, podemos identificar exatamente sua localização.

Mas, há algumas centenas de anos, quando grande parte do planeta era misteriosa e desconhecida, um grupo de humanistas europeus se reuniu ali para elaborar um mapa extraordinário do mundo – completamente diferente dos que existiam até então, e cujos efeitos podem ser observados até hoje.

Essa cidade foi responsável por dar o nome de América ao nosso continente.

O mapa, impresso em 1507, mede cerca de 1,4 m por 2,4 m – tamanho que corresponde à grande ambição de retratar o mundo em sua totalidade.

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Durante séculos, os europeus acreditavam que o mundo era formado por três massas de terra: Ásia, África e Europa, com Jerusalém no centro.

É por isso que o navegador e explorador italiano Cristóvão Colombo, que liderou a primeira expedição espanhola que chegou à América em 1492, foi para o leito de morte, em 1506, acreditando que havia desembarcado em outra parte da Ásia, e não na América.

O mapa inédito representou pela primeira vez o mundo dividido em quatro partes. À esquerda da Europa, mostrava uma versão longa e fina da América do Sul, com uma pequena América do Norte acima dela. O novo continente era cercado por água e, na parte que hoje é conhecida como o Brasil, os cartógrafos colocaram um nome: América.

Esse marco na cartografia é conhecido como o mapa Waldseemüller, em homenagem ao humanista alemão que o desenhou. Mas Martin Waldseemüller era apenas um dos integrantes de um grupo de acadêmicos que Walter Lud, cânone da igreja de Saint-Dié-des-Vosges, reuniu na cidade.

Lud estava particularmente interessado em cosmografia – o estudo da Terra e seu lugar no Universo – e queria criar uma imagem do mundo que combinasse o conhecimento antigo com os novos relatórios que chegavam das expedições marítimas realizadas na época.

Para isso, conseguiu financiamento de René 2º, duque de Lorraine, para adquirir uma impressora chamada Gymnasium Vosagense e montar uma equipe, que incluía Waldseemüller e outro humanista alemão, Matthias Ringmann.

De acordo com Toby Lester, autor de The Fourth Part of the World: The Race to the Ends of the Earth, and the Epic Story of the Map that Gave America its Name (em tradução literal, A quarta parte do mundo: a corrida ao fim do mundo e a épica história do mapa que deu nome à América), Ringmann tomou a iniciativa de escrever o livro que foi impresso junto com o mapa – e muito provavelmente cunhou o nome América.

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O fato de dois alemães se reunirem em Saint-Dié-des-Vosges para desenvolver o projeto não tem a ver apenas com a questão financeira. A localização da cidade também colaborou para isso.

"Havia exploradores partindo da costa do Atlântico da Espanha e de Portugal, que levavam todas as informações de volta para lá, e os italianos que estavam financiando e participando dessas expedições, revirando muitas informações, e os alemães no meio, fazendo um trabalho forte e pioneiro com a impressão", explica Toby Lester.

Saint-Dié-des-Vosges, perto de Estrasburgo, Basileia e Freiburg, era, assim como outros locais que fabricavam impressoras, um ponto de convergência onde a informação conseguia transitar facilmente.

Hoje, apenas alguns indícios rementem à história medieval da cidade francesa, que foi reconstruída após a Segunda Guerra Mundial.

Há um esboço do continente americano desenhado em arenito rosa na calçada da catedral, uma gárgula de um indígena pode ser vista em seu monastério e todos os anos a cidade organiza um festival internacional de geografia, onde especialistas e entusiastas se reúnem para trocar ideias.

Talvez seja por isso que a maioria dos turistas que visita a cidade não sabe sobre seu passado de cartografia, ou que é possível conferir alguns mapas remanescentes marcando um horário na moderna e iluminada biblioteca local.

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A reportagem da BBC foi uma das poucas visitantes de Saint-Dié-des-Vosges a percorrer as escadarias da biblioteca, passando pelas coloridas pinturas infantis que decoravam as paredes da Salle du Trésor ("Sala do Tesouro", em tradução livre).

No ano passado, apenas 664 pessoas estiveram ali, sendo que 18 mil passaram pelo escritório de turismo.

É uma sala pequena e estreita, com prateleiras de madeira que contrastam com o estilo contemporâneo da biblioteca. Entre outros livros antigos e raros expostos, está a versão original do livro que foi impresso junto com o mapa de Waldseemüller em 1507: Cosmographiae Introductio (Introducao à Cosmografia, em tradução livre).

A publicação, escrita inteiramente em latim, declara claramente seu propósito: uma "introdução ao mundo que retratamos em um globo e em uma superfície plana".

A "superfície plana" se refere ao mapa de Waldseemüller, que foi impresso em 12 folhas separadas de papel para ser montado em uma superfície plana.

Já o "globo" é uma versão menor do mapa que foi projetada para ser recortada e colada em uma esfera – tornando-se o primeiro globo comercialmente impresso da história. E mostra, ao contrário da crença popular, que os europeus medievais sabiam perfeitamente que o mundo era redondo, e não plano.

O texto também explica a razão por trás do nome escolhido para o continente, que afirma ter sido descoberto pelo explorador italiano Américo Vespúcio.

Como os outros nomes de continentes eram femininos em latim – Europa, África, Ásia – o autor argumentou que o nome do novo território deveria seguir a mesma premissa – ou seja, "América, em homenagem a seu descobridor".

Essas palavras foram motivo de discórdia nos séculos seguintes. O frade espanhol Bartolomé de la Casas disse, na primeira metade do século 16, que foi uma "injúria e injustiça" a Colombo, cujas viagens à América antecederam as de Vespúcio.

O escritor americano Washington Irving escreveu em 1809 sobre os "astutos artifícios" usados pelos florentinos para roubar a glória de Colombo, que era natural de Gênova.

Embora as quatro viagens de Colombo pelo Oceano Atlântico tenham começado em 1492, entretanto, quando finalmente encontrou as ilhas do Caribe ele só teria tocado em solo continental em 1498, durante sua terceira viagem.

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De acordo com uma carta escrita por Vespúcio ao duque Renè, datada de 1504, ele chegou ao continente um ano antes de Colombo. Na carta, reproduzida na Introdução à Cosmografia, o explorador descreve suas quatro viagens – de 1497 a 1504.

Alguns historiadores colocaram em xeque a autenticidade do documento, mas Waldseemüller e Ringmann decidiram levá-lo em consideração – e se basearam em seu conteúdo para nomear o novo continente.

O nome do continente não foi a única polêmica em torno do mapa. Questionaram ainda o fato de ele aparecer cercado por água.

Como os cartógrafos que estavam em Saint-Dié-des-Vosges sabiam, em 1507, que havia água do outro lado da terra que Colombo e Vespúcio haviam encontrado?

De acordo com os registros históricos, o primeiro europeu a ver o Oceano Pacífico foi o explorador espanhol Vasco Núñez de Balboa, que o avistou do topo de uma montanha no Panamá, seis anos depois, em 1513.

Foi mera adivinhação ou os cartógrafos tiveram acesso a informações de possíveis viagens portuguesas para o outro lado do continente, mantidas em segredo porque atravessaram as águas espanholas? Nessa época, a parte sul do continente já havia sido dividida entre as duas nações ibéricas – o Tratado de Tordesilha é de 1494.

Outro mistério dizia respeito à própria existência do mapa de Waldseemüller. Embora mil cópias tenham sido impressas em 1507, todas logo desapareceram.

Ao contrário do livro, que foi preservado em bibliotecas, os mapas foram destinados a instituições de ensino e não duraram tanto tempo.

Especialistas passaram séculos procurando e tentando reconstruir o mapa de Waldseemüller com base nas descrições da Introdução à Cosmografia.

Finalmente, um exemplar remanescente foi descoberto em 1901 pelo padre Joseph Fischer, professor de história e geografia, no Castelo de Wolfegg, na Alemanha. O mapa, também conhecido como "certidão de nascimento da América", foi comprado em 2003 pela Biblioteca do Congresso dos EUA por US$ 10 milhões.

Mas o valor do mapa de Waldseemüller vai além da representação e nomeação da América.

"O mapa é como um verbete da Wikipedia, que reuniu e editou informações de pessoas diferentes. Sim, é um mapa geográfico, mas não é apenas sobre espaço, é sobre tempo", diz Lester.

Essa ideia é representada pelas duas imagens no topo do mapa: uma do geógrafo grego Ptolomeu, que representava a velha maneira de ver o mundo e todo um arcabouço antigo de conhecimento, e a outra de Vespúcio, que simbolizava uma nova perspectiva de olhar o mundo, alimentada pelos aprendizados e descobertas modernos.

A justaposição dessas duas eras diferentes pode ser observada na própria cartografia – por exemplo, o modo como a Europa é descrita não é tecnicamente preciso – não porque Waldseemüller não tivesse uma ideia mais refinada da geografia da Europa, mas porque, como escreve Lester, ele decidiu "descrever o mundo conhecido exatamente como Ptolomeu mapeou mais de mil anos antes."

Além disso, mostrar dois homens no topo do mapa, em vez de Deus, como era comum, também transmitia uma mensagem poderosa:

"Anteriormente, era apenas Deus quem podia olhar de cima para o mundo, mas agora podemos mostrar tudo de uma vez. E isso leva à ideia de império, porque se podemos mapear e possuir o mundo inteiro, podemos presidir o mundo inteiro", diz Lester.

Em última análise, o mapa de Waldseemüller nos faz lembrar que todos os mapas são políticos. Ao colocar o norte no topo do mapa, enquanto pela convenção anterior o leste ficava no topo, e posicionar a Europa no meio, o mapa se torna literalmente eurocêntrico.

A decisão dos cartógrafos de nomear um continente habitado, depois que um europeu pisou em suas terras, privilegia a perspectiva europeia, o que reflete a atitude e ambição da época.

É uma perspectiva que indica a maneira pela qual os europeus continuariam a tomar posse de terras, recursos e pessoas, dizimando culturas e matando milhões.

Como Lester resume em seu livro, "é uma certidão de nascimento para o mundo que surgiu em 1492 – e uma sentença de morte para os que estavam lá antes."

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