Jogadores de várzea buscam vaga em times profissionais de SP

Por Caio Cuccino Teixeira
Copa Kaiser está entre as mais disputadas | Divulgação/Ajax Copa Kaiser está entre
as mais disputadas | Divulgação/Ajax

Cidade de grandes e modernos estádios, São Paulo também é a capital dos campos de várzea, onde equipes amadoras vivem uma paixão intensa pelo futebol. Não há dados oficiais, mas a estimativa é de que existam cerca de 5 mil times varzeanos no município. A maioria treina e joga sem nenhuma estrutura, em campinhos de terra, mas com com muita seriedade e sede de títulos.

Competições não faltam para eles. O troféu mais cobiçado é o da Copa Kaiser. Com 192 equipes, divididas em 48 grupos, a edição deste ano está marcada para começar no dia 23 de março e terminar em junho. Serão 375 jogos.

Um dos varzeanos mais conhecidos da cidade, o Ajax, teve o gostinho de conquistar o torneio em 2012. O time foi fundado em 1973 no Colégio Professora Irene Ravache, na Vila Rica, zona leste de São Paulo. Foi formado por um grupo de fãs do Amsterdamsche Football Club Ajax, clube da Holanda que foi campeão mundial no ano anterior. Carregando as cores amarela e preta, a equipe da Vila Rica tem uma das maiores e mais animadas torcidas de várzea. “Nós levamos de 3 mil a 20 mil torcedores aos campos”, afirma o presidente, Francisco Prince, o Kiko. Ele recorda que, na final da Copa Kaiser, lotaram 42 ônibus rumo ao Pacaembu.

Uma figura que fez história nos campinhos da cidade foi o goleiro Luiz Antônio Iervolino, hoje com 60 anos. Morador da zona leste, foi bicampeão varzeano em 1979 e 1981. Jogou dos 15 aos 56 anos, em times de todas as regiões, inclusive o Ajax e o Noroeste da Vila Formosa, outra tradicional equipe da cidade. “Foram muitas jogadas, muitos amigos e histórias alegres para contar”, diz.

Campeonato tem 375 jogos previstos | Divulgação/Ajax Campeonato tem 375 jogos previstos | Divulgação/Ajax
Ao todo, são 192 equipes no torneio | Divulgação/Ajax Ao todo, são 192
equipes no torneio | Divulgação/Ajax

Da várzea para a seleção canarinho

Alguns jogadores que se tornaram ídolos do futebol brasileiro – e até Mundial – começaram jogando na várzea paulistana. O jovem centroavante Leandro Damião, que tem passagens pela Seleção e atualmente está no Santos, disputou a Copa Kaiser há pouco mais de cinco anos, além de outras competições amadoras, quando era morador do Jardim Ângela, na zona sul. Ele jogou pelo Estrela da Saúde e pelo Família Tupi City. O filho do seu Natalino não esquece as origens e ainda mantém amizade com os ex-companheiros.

Outro craque que começou nos campinhos de terra da periferia da zona sul foi o ex-jogador Cafu. Ele nasceu e cresceu no Jardim Irene, onde também surgiu a paixão pelo futebol. Na Copa de 2002, quando foi bicampeão com a Seleção, Cafu estampou no peito o amor pelo bairro. A frase “100% Jardim Irene” estava na camisa do capitão do penta pouco antes de ele erguer a taça.

De kichute na areia

Felipe Andreoli

Quem nasceu nos anos 80 e ama o futebol teve um Kichute. Não vou dizer que me lembro do meu primeiro, mas me recordo de usá-lo nas quadras de areia da escolinha de futebol – que ficava no Itaim Bibi – Xut. Eu tinha uns 8 anos e me lembro do meu primeiro gol de cabeça lá. Minha mãe tava assistindo.

Depois da Xut, mamãe são-paulina, nos matriculou – eu e meu irmão – como sócios do São Paulo FC. Lá existia o COD, Centro de Orientação Esportiva. Os professores eram de primeira – só fui descobrir isso bem mais velho. O zagueiro Roberto Dias era considerado o melhor marcador de Pelé em todos os tempos. Me lembro que Dias pagava um refri pra quem conseguisse passar o pé por cima da bola e pegá-la de volta nas embaixadinhas. Ninguém nunca conseguia.

Sei que tempos depois Kaká surgiu nos campos do Social do tricolor pra brilhar no Milan e na Seleção. Já eu – por volta de 97 – fui jogar na várzea do Me’, ali onde hoje existe o Parque do Povo, ao lado da ponte Cidade Jardim.

O nosso glorioso Clube de Regatas 1\2 Muzzarella ½ Calabresa foi duas vezes vice e uma vez campeão. Eu não decepcionava, apesar de ter perdido um pênalti na final em que tomamos de 7 a 0 de um time que esqueci o nome (por que será?).

Não posso esquecer os duelos na piscina dos meus primos no Brooklin. A gente jogava até na chuva. Era assim que eu jogava bola. Na areia, na várzea e até debaixo d’ água.

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