O multifuncional Hugo Possolo usa a carreira no teatro para melhorar os espaços da cidade

Por Carolina Santos

Atualmente em cartaz no Espaço Parlapatões com duas peças, o monólogo dramático “Eu Cão Eu” e a comédia “O Burguês Fidalgo” (Molière), Hugo Possolo vive o auge de sua trajetória como agitador cultural.

Possolo é um dos criadores do grupo de teatro Parlapatões, que segue na ativa há 20 anos e que, junto com o Satyros, protagoniza a revitalização cultural da praça Roosevelt, onde ambos mantêm suas moradas.

Quando perguntado sobre sua profissão, Possolo é categórico em dizer que é palhaço. Mas, acima de tudo, é também um provocador de inteligência feroz, do tipo que só produz arte quando tem algo a dizer. Com “Eu Cão Eu”, o articulado capixaba radicado em São Paulo desde os 6 meses de idade interpreta um sujeito desgostoso da vida que começa a seguir um cachorro vira-lata  numa metáfora pela busca de sua própria identidade.

Oito anos antes, quando estrelou a peça “Prego na Testa”, o autor e ator já revelava essa sua veia que se descola do humor corriqueiro para falar da necessidade de adaptação do indivíduo a uma sociedade impositiva. É possível afirmar que as duas peças abordam contradições e existencialismo, embora sob ângulos diferentes. Se suas próximas investidas seguirão essa linha, ele prefere não planejar. “Nenhum desses enredos foi supermaquinado”, diz ao telefone. E é verdade. Para Possolo, as melhores ideias nascem de situações imprevistas. “Eu Cão Eu”, vejam só, nasceu de uma situação idêntica à da entrevista a seguir, enquanto Possolo estava no carro, preso no trânsito. “Desviei o olhar entediado para um lado e vi um cachorro. Pensei na vida, no cachorro, na vida do cachorro, e foi assim”, revelou.

 

Pingue-Pong

O ator, diretor e autor Hugo Possolo, um dos criadores do grupo de teatro Parlapatões, falou ao Metro.

 

O seu interesse pela arte circense, o teatro e o humor começou no Circo-Escola Picadeiro?

Não. Isso foi enquanto eu fazia Comunicação Social na USP. Escolhi esse curso porque achei que me ajudaria a desenvolver a redação. Mas o circo sempre exerceu forte influência no meu imaginário. Lembro-me de ter ficado fascinado quando conheci a dupla Torresmo & Pururuca, no Circo Bartolo, quando eu tinha 10, 11 anos. Meu pai me levava a muitos shows de mágica, circo e teatro.


De 2006 para cá, quando o Parlapatões se instalou na praça Roosevelt, a região tornou-se um lugar que virou referência do teatro alternativo. Qual a sua visão sobre isso?

Eu sinto que cumpri uma parte da missão em contribuir para tornar a praça um lugar mais vivo. Vejo isso como exercício da cidadania num aspecto amplo da coisa, de fazer de uma ideia um projeto de vida. Mas tudo aconteceu a partir de uma relação orgânica, nada planejado, uma loucura interessante que, da união de forças com nossos vizinhos do Satyros, vem resultando em aspectos frutíveros para a cidade.

 

A direção da sua mais nova peça, “Eu Cão Eu”, é do Rodolfo García, do Satyros. Seria esse o começo de uma parceria que pode resultar no surgimento de um só coletivo teatral?

Eventualmente podemos fazer alguns espetáculos juntos, mas acredito que cada grupo tem sua própria linguagem, e que nisso reside a riqueza cultural surgida na Roosevelt.

 

Fazer teatro hoje é mais fácil do que há 22 anos, quando o Parlapatões começou?

O teatro no Brasil deu um grande salto de qualidade artística, com peças mais instigantes e menos caretas. O cenário ampliou-se muito, talvez pela quantidade de franquias e musicais que ajudaram a atrair a atenção do público. Mas acho que faltam mais políticas públicas que defendam o pequeno produtor diante do mercado dos grandes shows.

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