Ver o nascer do sol me ensinou a maravilhar-me novamente com o mundo

Médico conta como a experiência mudou seu olhar

Por Marcelo Guerra

Uma criança vai descobrindo o mundo e maravilhando-se a cada descoberta. Na minha infância, morava ao lado dos meus avós maternos. Minha avó criava patos, galinhas e, às vezes, até porco. Quando saíam pintinhos dos ovos eu sentia como se alguém tivesse feito uma mágica. Depois ia acompanhando o seu crescimento até que se tornassem galos ou galinhas, e perdia a graça.

O conhecimento de biologia retira a magia disso tudo, claro. Ainda assim, não deixa de ser fascinante!

À medida que vamos crescendo e acumulando conhecimentos, os conceitos passam a chegar à nossa atenção bem antes da experiência em si.

Há pouco mais de 10 anos, participei de um treinamento em Goetheanismo. Nome difícil… Goethe foi um escritor alemão que viveu no século 18. Escreveu clássicos como Os Sofrimentos do Jovem Werther e Fausto.

Numa época em que não havia TV, rádio, nem internet, ficou tão famoso na Europa que precisava viajar disfarçado para não ser abordado o tempo todo pelos seus admiradores.

Imagina o fenômeno: você está no caixa do supermercado e reconhece Brad Pitt na fila. A diferença é que o Brad Pitt tem sua foto divulgada o tempo todo na internet, anunciando fatos importantes da sua vida, como ele ter comido num restaurante, ter filhos, ter uma ex-mulher bonita. Fatos bem espantosos, sem dúvida.

Goethe não dispunha de nada assim e, no entanto, todos conheciam o autor do Jovem Werther, livro que gerou uma onda de suicídios por amores mal-sucedidos.

Ele era um homem cujos interesses não se limitavam à literatura. Anatomia, botânica, física e geologia também faziam parte dos seus estudos. Por meio deles, desenvolveu um método próprio de observação dos fenômenos, tendo antecipado em um século o nascimento da Fenomenologia, fundada por Husserl. Esse método de estudo do que o mundo tem a oferecer se chama Goetheanismo.

Suas etapas se resumem a uma observação inicial em que devemos nos abster o máximo possível de conceitos ou julgamentos. Num segundo momento, os conceitos, como cor, tamanho e nome, são introduzidos à observação para, por fim, perceber o que essa observação gera dentro de nós.

Pode-se dizer que é um método que busca a totalidade da experiência, porque envolve aquilo que observamos e também aquilo que nós, enquanto observadores, sentimos e pensamos durante essa experiência.

O MOMENTO PRESENTE

No primeiro módulo desse treinamento, Clara Passchier, nossa professora holandesa, nos fez acordar às 4h da manhã para observar o nascer do sol na praia do Campeche, em Florianópolis.

Ao ouvir o horário que teria que acordar, a primeira coisa que senti foi arrependimento de ter me inscrito e viajado para tão longe para ter que acordar de madrugada para ver o que já sabia que ia acontecer. O sol ia aparecer no horizonte, ia clarear e a noite ia embora. Pra que acordar tão cedo para tão pouca novidade?

Não desisti e, assim como todos os participantes do curso, fomos grogues de sono sentar na areia gelada da praia e esperar o sol aparecer. Como era difícil não colocar conceitos em algo que eu já sabia como era.

Eu, liberando o Marcelo-chato, ficava reclamando baixinho, “amanhã não tem quem me tire da cama antes de 9h”. Antes do sol aparecer, o céu foi mudando de cor, surgindo uns tons violeta no meio da escuridão, que depois foram se transformando em outras cores, até que o sol arrebentou a escuridão, glorioso, lá onde o mar vira uma linha.

Foi espetacular! Ainda hoje essa lembrança me emociona.

Como essa situação para a qual eu já tinha todos os spoilers me emocionou assim? Bem, eu posso ser chato, mas até isso cansa. Quando eu calei minha boca e fiquei simplesmente presente, apreciando o que estava acontecendo diante dos meus olhos, pude permitir um contato entre o fenômeno e meus sentimentos.

Foi assim que eu fiquei maravilhado, como o Marcelo-criança vendo o pintinho sair do ovo e procurar sua mãe galinha para se agasalhar debaixo de sua asa.

CONECTE-SE COM A REALIDADE

Com a onipresença dos dispositivos de imagem, como os celulares, temos perdido a capacidade de nos maravilhar novamente com o mundo. O filósofo coreano Byung-chul Han tem alertado para os riscos que corremos pela necessidade de estarmos sempre conectados e eficientes.

Precisamos de momentos de interrupção para podermos reconectar com o mundo que está à disposição de nossos sentidos e não percebemos mais.

Atividades na natureza, cozinhar, degustar uma comida ou um vinho, pintar, mexer em terra, plantar um jardim, ou ficar à toa, à toa mesmo, são oportunidades de exercitar nossos sentidos muito além da visão em telas de celulares.

Tente isso e permita-se maravilhar-se novamente com o mundo.

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Marcelo Guerra

Médico graduado pela UFRJ. Começou a carreira como Psicanalista e depois enveredou pela Homeopatia e Acupuntura. Ministra oficinas e palestras em todo o Brasil e atende em consultório no RJ.

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