Viparyaya, Yoga e as distorções da realidade

Entenda como os ensinamentos de Patañjali podem ser aplicados no cotidiano

Por Analu Matsubara

O Yoga como filosofia de vida contempla a transformação do funcionamento da mente. Ele nos direciona para uma busca interna e possibilita uma vida com mais harmonia. Essa ciência milenar, tem como premissa o equilíbrio entre a mente, o corpo e o espírito.

Segundo Patañjali, o codificador da técnica, “O caminho da vida é o caminho do yoga”. Essa expressão pode ser encontrada no Yoga Sutras, que é o tratado mais antigo sobre essa filosofia. O texto, que surgiu no noroeste da Índia, provavelmente entre os séculos II a.C. e IV a.C., nos traz (entre outros ensinamentos) uma compreensão que vai muito além da parte física.

Neste artigo, irei falar sobre o conceito de Viparyaya, (verso oito do primeiro capítulo do Yoga Sutra, chamado Samadhi-padah) que pode ser traduzido como um conhecimento errôneo, baseado na distorção da realidade. E, para ilustrar, irei contar sobre um evento curioso que ocorreu, em julho de 2019, quando estive em Recife para dar um workshop.

Viparyaya: a importância em ter cuidado com conclusões precipitadas

Minha anfitriã, Juanita, (de uma docilidade ímpar) deixou à minha disposição durante a minha estadia o apartamento da mãe dela, que fica em um bairro urbano e bem localizado.

Após a minha chegada e adaptação climática, saindo dos míseros 10°C para o inverno Pernambucano de 30°C, fiz um uma caminhada breve pelo bairro. Anoiteceu cedo, visto que eu me encontrava praticamente na linha do Equador. Deitei-me ainda no início da noite. Afinal, precisava estar plena e com muita energia para o dia seguinte.

Para minha surpresa, assim que me aquietei, comecei a escutar um som intermitente de alarme. Não soube identificar se era de um carro, de alguma residência ou um estabelecimento comercial próximo. Naquele momento, tentei de tudo: exalar de forma prolongada e consciente dando algo novo para a minha mente se entreter. Tampar um dos ouvido no travesseiro e apoiar uma almofada no outro. Fui até buscar algodão para inserir nos ouvidos e enrolar um xale ao redor das têmporas, ouvidos e cabeça. Nada funcionou!

O fato de eu ter determinado que eu tinha que dormir para estar alerta e atenta no curso do dia seguinte, serviu apenas para aumentar o estado de agonia. Fiquei dessa forma, em vigília, até o cantarolar dos galos (da madrugada lembra? Eu estava em Recife).

O dia raiou, a fila “andou” e lá fui eu dar o dia todo de curso bem disposta, não obstante à noite mal dormida. As aulas transcorreram muito bem e o sincero grupo de alunos me surpreendeu com seu afinco, doação e estado de atenção.

No final das práticas lá estava eu feliz e, de repente, perplexa ao escutar o exato mesmo alarme alardeando sabe Deus de onde! Exclamei para a Juanita: “psiu, escute! Está escutando? É o mesmo alarme que ficou disparado noite adentro que atrapalhou o meu sono”.

A mesma afirmou: “não estou ouvindo nada…” Repliquei: “escute com atenção! O alarme…breep, breep, breep”. Depois de poucos segundos, minha amiga rompe num largo sorriso e afirma: ‘grilos, são os grilos’!

Mal pude me conter, imediatamente saí de uma de tensão (muscular, emocional e mental) que nem havia me dado conta, relaxei e ri muito perante a boa nova.

Esse fato me deu a chance a de alcançar a experiência direta que nos ensina Patañjali, no sutra I-8, sobre o conceito de “Viparyaya”, que significa uma falha interpretativa, baseada em algo ilusório ou distorcido.

Como podemos perceber na obra “Light On Yoga Sutras, de BKS Iyengar (guruji) as seguir:

“O conhecimento errado e as falhas nas concepções dos fatos, criam sentimentos errados e mancham a consciência. Isso inibe os esforços do sadhaka no sentido de experimentar o “ser”(aquele que vê) e pode criar uma personalidade dupla ou partida”.

Não podem imaginar o quanto que eu, amante da natureza que sou, entrei no meu quarto vibrando com leveza e saudando os grilos pernambucanos cujo sonoro alarido me serviria de âncora para embalar o meu sono ao invés de perturbá-lo.

Além disso, pude verificar o quão tenso todo o meu sistema paulistano já estava cronicamente atingido pela seguinte junção interpretativa:

alarmes = insegurança = estado atento = tensão = não relaxar

Eu imagino como o desfecho poderia ter sido rapidamente solucionado caso eu tivesse, por exemplo, usado o intelecto para telefonar para a portaria ou Juanita! Uma simples pergunta sobre o “alarme disparado na vizinhança” resolveria a questão. Dessa forma, eu obteria a resposta correta sem os véus de minha imaginação e poderia ter descansado tranquilamente.

Deixo aqui esse depoimento para todos que, como eu, muitas vezes saltam com demasiada certeza para cima de conclusões fechadas e erradas. Às vezes, podemos literalmente perder o sono em função disso.

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Analu Matsubara

Professora certificada nível Senior internacionalmente pela Associação Brasileira de Iyengar Yoga ligada ao Ramamani Iyengar Yoga Institute, em Puna, Índia. Organiza workshops nacionais e internacionais de Yoga, e idealizadora de dois estudios: “ESYSP- Estudio de Yoga São Paulo" e da "Casa Azul Yoga”. Também é terapeuta de Somatic Experience.

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