Alerta: expectativas e exigências que prejudicam as crianças

Ter um tempo para brincar livremente na natureza contribui para um desenvolvimento saudável

Por Patrícia Martins Gonçalves

Muitos pais, mães e familiares têm o ímpeto de projetar nas crianças seus desejos, expectativas e as necessidades do mercado. Criam horários e compromissos como aulas de idiomas, esportes, reforço escolar, xadrez entre outros; e buscam escolas focadas no vestibular e na competição, tornando tudo isso uma disputa consigo mesmo e com os outros, um anseio para suprir expectativas alheias e pressões externas, provenientes do sistema econômico.

Idiomas, vestibular e esportes são importantes, mas educação não é só isso. Todo aprendizado deve ser significativo em relação à vida e ao desenvolvimento humano saudável.

Quando descartamos os elementos sensíveis, emocionais, fisiológicos e espirituais da educação, na verdade, prejudicamos a criança e o seu processo de aprendizagem e desenvolvimento. Assim, estamos imprimindo nossos sentimentos e expectativas nelas, impedindo que sintam e pensem por si mesmas.

Estamos fazendo por elas, falando por elas e tirando o espaço para que vivam as próprias experiências. No meio disso tudo, será que estamos ouvindo as crianças, respeitando suas formas de ser e viver o tempo e o espaço?

Ensinar e contemplar

O processo de educar uma criança envolve a constante interação de duas atitudes: ensinar e deixar a criança ser o que é por ela mesma, livremente. Saber discernir como atuar a partir dessas atitudes é um passo fundamental para respeitar o desenvolvimento natural da criança. Saber em quais momentos é importante oferecer apoio e orientação e quando basta silenciar e observar. Deixar a criança à vontade para aprender por si.

Essas sutilezas são fundamentais para o desenvolvimento integral da criança, que abrange não apenas o intelecto, mas também o corpo, a sensibilidade e a criatividade.

Trata-se da valiosa habilidade de saber o momento certo de ouvir e de falar. Na ação de educar, é preciso compreender esse movimento de forma consciente e atuar para que haja, de fato, diálogo e comunicação em nossas relações.

Assim, no processo educativo, o adulto deve estar atento e consciente para manejar a atitude ativa (propor e ensinar) e a postura contemplativa de silenciar, ouvir, observar, praticar a escuta sensível e, assim, aprender com a criança, perceber seus gestos, sua forma e tempo de aprendizado, compreender e respeitar o seu jeito de ser, sua forma de aprender e seus interesses.

O Ser da criança: liberdade para ser o que é

Historicamente, as sociedades não levaram as crianças muito a sério, são recentes as ideias que as consideram sujeitos culturais ativos. Por mais que saibamos respeitar ao máximo as crianças, que estudemos e lutemos por seus direitos, pela preservação da infância, pela autonomia e liberdade de ser o que ela é, muitas vezes, projetamos nossas expectativas, preconceitos, preocupações e medos. Atropelamos os processos naturais de desenvolvimento, as oportunidades que elas têm de aprender ou descobrir algo por elas mesmas, de gerar suas perguntas e buscar por respostas.

Na maioria dos casos, fazemos isso inconscientemente e com as melhores das intenções, porém, é costumeiro mentir para as crianças, rir das coisas sérias que elas falam ou fazem, obrigá-las a fazer o que não querem, oprimir ou desdenhar de suas expressões, seus sentimentos, suas criações, descobertas e curiosidades.

O processo educativo não pode ser visto como um produto, mercadoria ou um conjunto de pontos para subir nas camadas sociais.

A educação é a construção do sujeito, do conhecimento, da cultura, do desenvolvimento do ser individual e coletivo. É um processo cheio de significados, de sentimentos e, sobretudo, de relações.

Desconsiderar esse caráter sensível e afetivo do processo educacional e querer reduzir seus efeitos apenas à competição de mercado é desconsiderar os fenômenos orgânicos e emocionais que se dão nos processos de aprendizagem e no conjunto das relações de uma família ou de uma comunidade educativa.

Educação para quê?

De fato é muito importante que a educação nos prepare para o mundo do trabalho e para o sucesso profissional. No entanto, isso não se resume em estudar nas melhores universidades, mas também de viver um percurso educativo onde as dimensões sociais, emocionais, corporais, políticas, artísticas, ecológicas também são trabalhadas, pois a assimilação e a construção do conhecimento dependem de um desenvolvimento integral.

Isso deve ser observado em todas as etapas do percurso educacional, porém, a Educação Infantil é o campo privilegiado dessas experiências, das quais a infância deve ser repleta.

As crianças passam boa parte de suas vidas em ambientes educacionais, portanto, é importante que esses espaços proporcionem experiências típicas de uma infância verdadeira como brincadeira livre, contato com a natureza, amor, carinho, afeto, cuidado, apoio e liberdade. Pisar na poça d’água, brincar com a terra e com os diversos elementos da natureza, estar sob as árvores e observar os pássaros são atividades que constituem a percepção e um repertório diverso de sensações que constroem estruturas emocionais e intelectuais saudáveis.

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Patrícia Martins Gonçalves

Trabalha na área de Educação, com ênfase em artes, permacultura e educação ambiental, em projetos sociais e escolas.

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