Entenda de que forma construímos a infidelidade

Querer mudar o outro ou mesmo anular sua verdade nas relações são caminhos que podem levar à traição

Por Ceci Akamatsu

Se você deseja que a pessoa amada se torne uma pessoa diferente do que ela é, será que você de fato a ama? Se deseja que ela se torne quem ela já foi ou em alguém que você acredita que ela tem o potencial de ser, será que de fato a ama? Ou será que você ama a imagem do que quer que ela seja? Querer mudar o outro é um dos caminhos que, sem perceber, acabam levando à infidelidade.

Observo relacionamentos nos quais ambos os lados cobram que seus parceiros(as) sejam quem gostariam que fossem. O fato de a pessoa nos amar não significa que ela tenha que se tornar aquilo que desejamos. Da mesma forma que amar uma pessoa também não dá o direito de impor aquilo que consideramos ser o melhor para ela.

Se nos dedicamos demais ao outro, lidando com seus medos e fraquezas, ou até suportando  cobranças, isso não significa que devemos esperar dele a mudança que idealizamos. Se o outro não muda, não quer dizer que não nos ame, mas sim que somos diferentes, e estas diferenças podem ser mais difíceis de conciliar do que imaginamos.

Respeitando o limite seu e do outro

Podemos enxergar o potencial do parceiro, de quem ele pode vir a ser, de como ele pode ser melhor. Mas será que ele quer mudar? Será que mesmo tentando, a pessoa amada vai conseguir vir a ser este potencial que enxergamos? Será que não estou forçando-a a mudar

Por outro lado, se a pessoa nos ama, não quer dizer que devemos fazer sacrifícios que afastem você da sua verdade. Vale sim se esforçar e tentar, mas sempre reconhecendo os seus limites. É uma ato de amor, a si e ao outro, saber dizer não.

Não aceitar o outro: um caminho para infidelidade

Viver na esperança de que o outro vai mudar e não aceitar o(a) parceiro(a) como ele/ela é hoje é um passo na direção da infilidade. Se não sabemos qual o nosso limite na relação, podemos estabelecer um prazo, mas se não há mudanças ou se elas estão lentas demais, cabe a nós avaliarmos se bancamos continuar ou não.

É preciso reconhecer nossos limites e se temos condição de nos adaptar ou não. Continuar na relação é como uma aposta, pode ser mais ou menos segura, mas nunca há garantias.

Caminhos que levam à traição

Ofereço a seguir algumas reflexões e exemplos que podem nos ajudar a elucidar como, sem perceber, acabamos deixando de lado nossa verdade, enfraquecendo a autoestima e contribuindo para a construção de uma possível traição. Veja se você se identifica com alguma dessas situações, ou se elas lhe remetem a algo similar.

O outro não atende às minhas expectativas

Tenho muitas reclamações sobre a pessoa parceira, pois ela não atende às minhas expectativas, o que me deixa bastante irritado(a) e frustrado(a).

O outro me parece de alguma maneira mais fraco, lento ou dependente e eu me coloco no lugar de ajudá-lo, mas isso me sobrecarrega, pois dá trabalho compensar as faltas da pessoa.

Alguns exemplos de reclamações e expectativas em relação à pessoa amada:

  • Tem atitude muito passiva diante da vida, não tem iniciativa;
  • Gostaria que fosse mais proativa;
  • Tem uma personalidade muito inconstante;
  • Age de uma maneira ou tem hábitos que discordo intensamente;
  • Queria que agisse de maneira mais coerente;
  • Não me dá carinho e afeto como eu gostaria;
  • Queria me sentir mais amado;
  • Não me ajuda ou me apoia como preciso;
  • Parece que não quer melhorar ou crescer como pessoa;
  • É acomodada;
  • Tem vícios;
  • Vivemos brigando, nos criticando, discordando, mas o sexo é intenso.

Não consigo atender às expectativas do outro

Sinto-me desvalorizado, ouço muitas reclamações, críticas e cobranças, o que me deixa bastante tenso.

O comportamento da pessoa parceira faz eu me sentir diminuído, e isso prejudica bastante minha autoestima. Mas como faz parte da personalidade da outra pessoa e eu a amo, vou levando em frente o relacionamento.

Exemplos de pensamentos e sentimentos em relação à pessoa amada:

  • Faz críticas a mim excessivamente;
  • Está sempre reclamando de tudo;
  • É muito desconfiada e/ou ciumenta;
  • É muito dura e dominadora;
  • Não me compreende e se acha sempre certa;
  • Reclama demais sobre tudo;
  • Cobra que eu seja a pessoa que ela acha que devo ser;
  • Aponta meus defeitos e fraquezas repetidamente;
  • Tudo que eu faço tem menos valor do que o que ela faz;
  • Está sempre insatisfeito;
  • Atribui a mim a culpa pela insatisfação dela.

Enxergando nossa parcela

Se a pessoa amada já não tem muita iniciativa, ou aquilo que não gostamos nela é algo muito arraigado à sua personalidade, é provável que fazer certas mudanças é algo difícil para ela. Queremos que o outro mude e isso vai se mostrando cada vez mais distante de acontecer. Ficamos cada vez mais frustrados, o que aumenta nossa expectativa e cobrança. Mesmo quando não expressamos as insatisfações para evitar conflitos, elas se acumulam e prejudicam a relação.

Caso o outro não admita que seu comportamento e/ou pensamento não é construtivo, ainda assim, é direito dele ser a pessoa que deseja, ou ter a dificuldade que tem. Afinal, quem não tem desafios pessoais? Cabe a nós saber se queremos nos adaptar ao outro e continuar com alguém que pensa e age de tal maneira.

O outro tem a escolha de mudar ou não, mas é nossa escolha saber se queremos apostar na mudança do outro, aprender a lidar com as diferenças, ou ter que tomar a difícil escolha de sair da relação. O medo de tomar esta decisão e nos arrepender é que muitas vezes nos aprisiona.

Não podemos responsabilizar somente o outro pelos problemas na relação ou por prometer mudar e não cumprir, pois apostar na relação também é uma escolha nossa. Caso o outro não consiga atender às nossas expectativas, ou mesmo às expectativas que ele tinha em relação a si no relacionamento, cabe a nós decidir continuar ou não.

Ficamos com raiva da pessoa ao perceber que ela não muda, mas essa irritação está mais relacionada à nossa resistência em não queremos enxergar, aceitar a verdade e ter de lidar com ela.

Não é o outro que nos incomoda, ele apenas nos coloca de frente com a nossa responsabilização sobre a nossa própria escolha. A raiva está em não querermos assumir esta responsabilidade e agir, pois temos medo de nos arrepender e/ou de ver o outro sofrer ou ficar bravo conosco.

O outro tem a escolha de mudar ou não, mas é nossa escolha saber se queremos apostar nisso.

Ainda que todo mundo diga que o outro está errado em seu jeito de agir ou pensar, o desafio de melhorar é dele. Mas ele tem a escolha e o tempo dele para isso. Se a pessoa amada é mais devagar, vive atrasada e isso nos prejudica, ou tem pouca iniciativa e ambição, podemos ajudá-la a mudar. Mas pode ser que o outro não mude, e ele tem o direito de ter um ritmo diferente.

Se isto o prejudica, ele já paga um preço por isso. Por mais que a pessoa esteja se esforçando para mudar, cabe a nós também buscarmos maneiras de lidar com isso, posso ir mais cedo para os compromissos, não contar com ele para atividades com horários rígidos ou para responsabilidades que sabemos que bem provavelmente não vai cumprir, por exemplo.

Caso a pessoa amada não consiga ou não queira mudar, podemos nos dar conta que esta diferença é tão prejudicial que faz o relacionamento não valer a pena. Isso não significa que não nos ame, mas que as diferenças entre nós talvez sejam mais fortes do que o amor. Acolher esta realidade, por mais dolorosa que seja, nos liberta da ilusão e de mais sofrimento.

Quando as diferenças são muito intensas

Ainda que exista um desconforto e até solidão, mesmo quando estamos ao lado da pessoa amada, pode ser difícil se imaginar fora do relacionamento, por isso não conseguimos deixá-lo. Pode ser que tenham sido criados laços de dependência, seja por motivos emocionais, financeiros, sexuais, familiares. Esses laços de dependência são vivenciados como um sentimentos de aprisionamento, falta de coragem de se posicionar de maneira mais firme, medo de perder o outro e ficar só.

Continuamos a agir de mesma maneira, cobrando e esperando do outro e não tendo retorno, ou por outro lado, ouvindo as reclamações e nos sentindo cada vez mais fracos em nossa autoestima. Sem encontrar uma solução vamos deixando as coisas acontecerem, vivendo na esperança de que alguma coisa mude e melhore, ou mesmo na falta de esperança.

É claro que sempre haverá reclamações e insatisfações nas relações, isso é normal. Porém, possíveis traições começam a ser construídas quando as reclamações e justificativas mútuas se tornam o fio condutor da relação. A frustrações se acumulam e não são resolvidas ao longo do tempo.

Mas em nome dos anos de relação, dos filhos, da imagem diante dos outros, do medo da solidão, ou de outros motivos, vamos nos acostumando, mesmo que seja com uma felicidade tão incompleta ou mesmo com a infelicidade e o sentimento de aprisionamento.

Crises e fases ruins acontecem em qualquer relação. Mas se na maior parte do tempo a relação é de crise e os momentos positivos são pontuais, ou ainda, se tudo parece bem, mas o sentimento é de insatisfação, é preciso observar mais profundamente a si mesmo e as dinâmicas da relação para chegar a uma visão e vivência mais verdadeira e plena da vida afetiva.

Infidelidade quando não há problemas na relação

Traições também podem acontecer em relacionamentos nos quais tudo sempre foi tranquilo e pacífico. Isso pode causar ainda mais confusão na hora de tentar entender por que a infidelidade aconteceu ou por que pode acontecer.

Alguns pensamentos e sentimentos que podem permear esta relação:

  • Não gosto de conflitos e brigas
  • Prefiro não falar nada para não criar problemas;
  • Sempre amenizo os problemas para manter a harmonia;
  • A coisa que mais gosto da relação é a estabilidade e fidelidade;
  • Preciso me sentir seguro.

A ausência de conflitos pode indicar a supressão das diferenças por pessoas que querem a harmonia a qualquer preço. Porém, o acúmulo dessas diferenças e insatisfações, que não são ditas e que fazem todos acreditar que está sempre tudo bem, pode em algum momento eclodir de maneira intensa em experiências como a infidelidade.

A pessoa que trai, não entende por que traiu, por que precisou trair. Da mesma forma que quem é traído fica muito desnorteado. Porém, somente procurando enxergar tudo o que ficou oculto dentro de si e por trás de toda experiência poderá se libertar do trauma, da mágoa e rancor.

Esses são apenas alguns exemplos e reflexões que podem nos ajudar a elucidar como contribuímos para a construção de uma traição. Caso, tenhamos experienciado tal vivência, ainda que o sofrimentos seja intenso, para mudar a realidade afetiva é preciso aprofundar nossa percepção e perceber como nós mesmos, sem perceber podemos ter ajudado a construir a traição. Se queremos evitar passar por tal experiência é preciso trabalhar nossa verdade nas relações para não sermos pegos de surpresa.

Foto: Bigstock

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Ceci Akamatsu

Terapeuta Acquântica, faz atendimentos presenciais no Rio de Janeiro, em São Paulo e à distância. É a autora do livro Para que o Amor Aconteça, da Coleção Personare. 

[email protected]

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