Como combater a discriminação racial no Brasil?

Alexandra Loras, jornalista e ex-consulesa da França, destaca a importância de entender o racismo que existe em nós

Por Personare

PERSONARE: Como a discriminação racial afeta homens, mulheres e as crianças? E como todos nós que estamos buscando transformar a realidade ao nosso redor podemos contribuir para mudar esse cenário?

Alexandra Loras: A discriminação racial é feita no mundo inteiro, mas no Brasil é muito forte, no sentido de ter uma maioria da população que é negra, 54% segundo o IBGE. Temos menos de 4% de negros na mídia brasileira, quase nenhum negro nos livros didáticos e infantis, na produção intelectual clássica temos pouquíssimos, quando na verdade poderíamos ter Oscar Freire, Luís Gama, André Rebouças, Teodoro Sampaio, Machado de Assis… todos eles foram embranquecidos.

Temos inúmeras coisas que usamos em nosso dia a dia que foram inventadas por negros, como a geladeira, o marca passo, a antena parabólica, o celular, o semáforo, etc. Se você pesquisar inventores negros, existem milhares, mas a narrativa é muito humilhante, nós somos relatados o tempo todo de uma forma extremamente negativa e isso traz consequências para todos.

Alexandra Loras: ‘igualdade não significa justiça’

A neurociência mostra que 85% das crianças negras com menos de 5 anos, ao escolherem uma boneca, escolhem a branca como a linda e boazinha, a negra como a feia e má. Isso mostra que nossa sociedade é doente, fato comprovado cientificamente e com estatísticas.

É um trabalho de todos nós, brancos e negros, reequilibrar essa realidade

Temos menos de 1% de negros no Congresso, no Senado, no Governo, nos cargos executivos das empresas brasileiras, mas existem milhões de negros capacitados com mestrado, doutorado e que são bilíngues. Desenvolvi um aplicativo, chamado Protagonizo, justamente para demonstrar essa verdade e ajudar os recursos humanos a contratar mais negros em cargos executivos, mas ainda é muito difícil quebrar esse preconceito. O viés inconsciente que permanece nos recursos humanos, dentro de todas nós na verdade, são fortes, pois estamos em uma sociedade extremamente patriarcal machista e racista, achando que ela vai produzir pessoas livres desse preconceito.

Para mudar esse cenário, precisamos nos engajar, não só nos achar não racistas, mas nos tornar antirracistas. Saber que é um trabalho de todos nós, brancos e negros, reequilibrar essa realidade. O branco de hoje não é responsável pelo que aconteceu ontem com a escravidão, assim como o Alemão de minha geração não é responsável pelo Holocausto, mas somos todos responsáveis por reequilibrar nossa sociedade e transformar o que vamos contar para nossas crianças.

Na sua opinião, qual a melhor forma de combater a discriminação racial no Brasil?

AL: Tentamos resolver os problemas em cima de um sistema extremamente errado. Em minha opinião, a melhor forma de combater a discriminação racial é primeiro entender o que está dentro de todos nós, que o racismo não existe somente no outro, e então iniciar essa jornada dentro do nosso ser.

Se cada um de nós escrevermos para os roteiristas da Globo e da Band, por exemplo, depois de cada novela e desenhos animados, falando que achamos um absurdo não ter 54% de protagonistas negros em cargo de liderança e de dignidade, que queremos mudança, isso vai trazer a transformação que esperamos ver no mundo, pois infelizmente a novela educa muito mais os comportamentos da sociedade do que um livro didático.

Escuto muitas pessoas que falam que o problema das crianças racistas são os pais, mas não é. Meu filho, já aos 6 anos, tem raciocínios racistas e machistas, não adianta ele ter uma mãe militante, ativista e engajada, pois a sociedade que é extremamente preconceituosa, produz dentro de nós um transtorno de percepção de enxergar o negro como inferior. A produção desse conteúdo é extremamente sofisticada, foi formatada em séculos, então não adianta só assinar a Lei Aurea a acreditar que está tudo resolvido, é preciso mais.

O preconceito está em diferentes camadas e setores da sociedade e ele se manifesta de diferentes formas. No entanto, algumas pessoas não percebem que possuem vieses inconscientes a respeito de gênero e raça. Poderia nos dar um exemplo do que é isso?

AL: Os olhares sutis, comentários violentos… a verdade é que o racismo é uma frequência, não precisa alguém me chamar de macaquinha ou de crioula, para eu me sentir ofendida. Chegar em todos os espaços e ser tratada de uma forma menos atenciosa do que se eu fosse branca já é uma forma ofensiva.

Uma vez fui palestrar em uma emissora de TV e me sentei na primeira fila, a qual estava reservada, uma mulher da organização veio até mim e pediu para que me sentasse atrás, falei que estava ciente que era um lugar reservado. Ela disse que era um lugar para palestrante, não conseguia me enxergar como tal. É muito difícil para o branco se dar conta dessas humilhações cotidianas que acontecem o tempo todo com os negros.

O racismo não é velado para nós negros, ele é velado para aquele que não quer enxergar, mas você liga a televisão, tem um racismo violento, você entra em uma loja de brinquedos é racismo extremamente violento, num país como o Brasil que é o segundo com a maior população negra do mundo, depois da Nigéria, é um racismo violento ver uma loja de brinquedos ou mesmo uma escola onde 99% dos bonecos são brancos.

Em sua palestra no Congresso Internacional de Felicidade, Alexandra falou sobre as diferentes formas que o racismo acontece na sociedade

Não adianta as escolas alternativas tentarem resolver essa questão com 3 bonecas negras, isso não é tratar da diversidade e da multidão de diferenças, precisamos realmente entrar em uma época de escutar o outro, porque hoje acusar e criticar o politicamente correto ou a questão do “mimimi” é uma forma de calar o outro.

Do “mimimi” ou do politicamente correto, temos apenas que entender que existem coisas corretas e outras que não são. Temos que escutar o outro que sofre essas discriminações, essa é uma longa jornada pois o branco foi acostumado a ser o dono da verdade e vencedor. Podemos tomar como exemplo o Europeu colonizador que invadiu o mundo inteiro criando genocídios apagando culturas e civilizações e hoje ainda está no poder, achando que tem a civilização e a verdade dentro da religião e da visão dele. Hoje é tempo de se sentar e entrar numa onda de cultura da paz escutando o outro.

O racismo não é velado para nós negros, ele é velado para aquele que não quer enxergar

Algumas pessoas não percebem que possuem vieses inconscientes a respeito de gênero e raça, aliás nós todos, sem exceção, temos vieses inconscientes.

Para um exemplo de gênero, quando um homem branco vê uma vaga executiva na empresa, se ele tem 30% dos requisitos dessa vaga se sente poderoso para tentar, uma mulher vai precisar de 85% desses requisitos para talvez achar que possa se candidatar para essa vaga executiva. Agora imagine um homem negro ou uma mulher negra que foram inferiorizados uma vida inteira, para eles se sentirem capazes e tentar, sabendo que tem menos de 1% de negros em cargos executivos no Brasil. Nós sabemos do nosso talento, mas a autoestima dos negros é tão trabalhada para ficar baixa que nossos vieses inconscientes invadiram todas as camadas da sociedade.

Teste da boneca: estudo realizado com crianças mostrou que a maioria apontou a boneca negra como feia e má

Confira aqui o vídeo do “Teste da Boneca”, feito com crianças

Para aqueles que buscam construir e viver em um mundo melhor e buscam por expansão de consciência, existe algum caminho para identificação e mudança desses vieses? O que é importante observar?

AL: Acredito que precisamos nos unir para pedir ao Ministério da Educação, que toda a produção intelectual e global, em todas as camadas, possam engajar o antirracismo.

Temos que fazer parte desta linda obra de arte que é reconstruir uma nova narrativa e isso vai demorar, mas temos que entender que as gotas são necessárias, metas são necessárias, porque sem elas, a sociedade nunca vai se reequilibrar, ou vamos demorar centenas de anos como é previsto por neurocientistas, mais especificamente 180 anos no viés étnico racial e 150 anos no viés do gênero.

Como é possível sermos felizes em sociedade e não apenas no âmbito individual?

AL: Ser feliz em sociedade e não apenas no âmbito individual, é uma escolha e uma prática. O empoderamento, podemos dizer que é como tomar um banho, não é porque você tomou um banho ontem que não precisa no dia seguinte. O empoderamento e a felicidade são práticas que precisam ser movimentadas diariamente. Durante o III Congresso de Felicidade vou colocar várias dinâmicas para auxiliar na elevação da consciência humana.

Sabemos que em suas palestras você costuma tirar o público da zona de conforto e os coloca para experimentar a diversidade, você poderia nos contar um pouco mais sobre as dinâmicas que fará com os participantes do III Congresso Internacional de Felicidade?

AL: Ainda sobre as dinâmicas de elevação, existe uma que é a dinâmica do mundo inverso. Gosto de direcionar a plateia, de forma lúdica e abstrata, para repensar o mundo ao inverso trabalhando assim a empatia e a compaixão. Imagine um mundo ao inverso, onde tudo que fosse feito pelos negros fosse considerado lindo, inteligente, maravilhoso, superior intelectualmente e esteticamente. Que todas as suas referências históricas fossem só com negros dentro dos livros didáticos. Um mundo onde os inventores, revolucionários, cientistas, toda a tecnologia e inovação fossem construídas por negros.

Quando você liga a televisão, todos os personagens da Disney, da Turma da Mônica são negros. Na novela, todas as histórias só falam de negros de sucesso. A mulher branca está sempre retratada como faxineira, ou amante que destrói os casamentos dos ricos negros por ser uma mulher branca hiper sexualizada. Imagine que o homem branco seria sempre no papel unicamente do safado, do criminoso, do traficante de drogas e pobre. As universidades seriam monocromáticas negras, só com plateia de alunos negros. As revistas seriam só com personalidades negras e os negros achariam que os brancos estão de “mimimi”, seriam contra cotas e achariam que já está tudo resolvido, sabendo que os brancos estão relatados nos livros didáticos como escravos na história.

Alexandra Loras busca em suas palestras direcionar o público para a dinâmica do mundo inverso: ‘Imagine um mundo ao inverso, onde tudo que fosse feito pelos negros fosse considerado lindo, inteligente, maravilhoso, superior intelectualmente e esteticamente’

Como seria essa sociedade? Seria extremamente cruel e violenta. Agora em 2018, onde acreditamos que estamos vivendo em uma democracia racial, é essa a realidade cruel para uma criança negra. Nós nascemos em uma narrativa extremamente violenta, isso é extremamente chocante, experimentamos essa violência desde os primeiros dias de vida.

Alexandra Loras

Jornalista e Ex-consulesa da França

Graduada com Mestrado em Gestão de Mídia pela renomada escola de Ciências Políticas da França (IEP Paris), consultora e palestrante, ela já reuniu mais de 10 mil pessoas em todo mundo em suas áreas de atuação. Os temas abordados por Alexandra reverberam na mídia nacional, televisiva e impressa, provocando a reflexão e trazendo a discussão à sociedade. O impacto causado pelas palavras de Alexandra já foi sentido na revista Vogue, no jornal Valor Econômico, na Folha de São Paulo e em grandes publicações segmentadas.

Alexandra participou de eventos de destaque como TEDxCannes e o TEDxSão Paulo e de grandes organizações internacionais de mídia como Google, Facebook, JP Morgan e Bloomberg. Ela também é autora de vários livros, é embaixadora da “AfroeducAção”, do “PlanoDeMenina.com.br”, do “Meias do Bem” e do programa “Raízes” do Museu Afro Brasil, além de ser fundadora do Fórum Protagonismo Feminino. Também é idealizadora da plataforma Protagonizo — um canal direto entre os departamentos de recursos humanos de grandes empresas e trabalhadores negros bilingues egressos de grandes universidades como USP, PUC e FGV. Suas palestras e workshops abordam, por meio da estética, temas que provocam uma reflexão sobre diversidade, apontando os vieses inconscientes da sociedade.

Caroline de Moraes

Caroline de Moraes é Life Coach certificada pela Rhodes Wellness College – CA e Especialista em Eneagrama certificada pela Awareness to Action – EUA. É co-fundadora da Living Sisterhood Vancouver, um movimento que tem foco no bem-estar físico, emocional, mental e espiritual das mulheres e co-fundadora do Congresso Internacional de Felicidade.

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