Autoconhecimento e política: caminho para um mundo melhor

Momento pede um esforço coletivo para, em vez de julgar, dialogar e respeitar visões de mundo diferentes

Por Diogo Busse

Sabemos que existe a possibilidade, e responsabilidade, de nos melhorarmos sem depender de nenhuma condição externa para sermos felizes. Se você não se sente realizado em silêncio ou sozinho consigo mesmo, não há condição externa – financeira ou de relacionamento -, e nenhum lugar no mundo que o deixará satisfeito. Por outro lado, não se pode negar que o ambiente no qual vivemos estimula ou complica este trabalho de realização, que nem sempre é fácil de fazer.

Melhorar o ambiente interno, ou seja, nossas emoções, estado mental, físico e espiritual, é uma tarefa individual. Por sua vez, melhorar o ambiente externo, a sociedade na qual vivemos, é um trabalho coletivo que se faz por meio da política. Na essência, portanto, a política é uma das mais belas dimensões da nossa vida: através dela, nos unimos para trabalharmos em conjunto por um mundo melhor onde todos possam conviver.

Nunca foi tão importante resgatar tal essência da dimensão política na vida em comunidade, uma vez que, hoje, ela se apresenta justamente o contrário: um palco de guerra. É muito comum observarmos pessoas que transformam em adversários aqueles que pensam diferente. Como construiremos espaços melhores para o convívio social, se não nos dispomos a sentar e dialogar com quem tem visões de mundo distintas das nossas?

Como a política se tornou um palco de guerra?

Essa guerra que se tornou a política hoje, a meu ver, é decorrente basicamente de algumas questões sobre as quais quero refletir com vocês.

Em primeiro lugar, fomos condicionados a desenvolver ao longo da vida um modelo de pensamento binário – formado por dois elementos opostos ou complementares -, que simplifica a realidade. Na política, o pensamento binário é muito evidente quando reduzimos uma infinidade de posicionamentos possíveis por meio da limitante divisão "direita / esquerda", por exemplo. Acreditamos que tudo se resume a isso e classificamos pessoas ou posicionamentos dessa forma. Toda possibilidade de debate rico e produtivo acaba se perdendo. A realidade, entretanto, vai além da limitante concepção “direita / esquerda”. Ninguém me fará acreditar que não exista uma vasta possibilidade de debate entre estes dois polos.

Ao enxergar algumas realidades extremamente complexas, a exemplo da sociedade brasileira, estamos acostumados a conceituar, classificar e excluir características que também fazem parte do contexto que estamos procurando entender. Características que geralmente são contraditórias, ambíguas e confusas. Contudo, não podemos negar tais contradições e ambiguidades se queremos fazer uma análise mais profunda e precisa da realidade social – ou de nós mesmos.

Como considerar o todo?

Um exercício simples para alcançar um olhar mais complexo sobre o mundo é evitar rótulos e trocar o “ou” pelo “e”. Assim, você passa, aos poucos, a desconstruir o modelo de pensamento binário. O Brasil não é corrupto ou honesto, é corrupto e honesto. Dessa forma, ampliamos horizontes, ao passo que integramos à nossa visão de mundo também as contradições, ambiguidades e conflitos.

Podemos começar o exercício por nós. Ao mesmo tempo que sou vaidoso, sou solidário. Um cara bem sucedido também pode ser inseguro, assim como uma pessoa egoísta pode ser solidária. Somos seres complexos. Nenhum destes rótulos vai explicar quem somos na totalidade e nem chegará perto de expressar a complexidade e profundidade da nossa visão de mundo. Precisamos olhar de frente para estas contradições a fim de superá-las.

Viver sem julgar é possível?

É preciso um esforço coletivo para deixarmos de julgar. Hoje em dia julgamos os outros com muita facilidade, mesmo sabendo pouco ou quase nada sobre a vida de quem estamos a julgar. Uma boa forma de evitar esse movimento é olhar, antes, para dentro. Pensar nos nossos próprios erros e fragilidades, das quais nos envergonhamos e que estão escondidas nas nossas maiores profundezas.

O julgamento é um dos jeitos mais fáceis de evitarmos olhar para as nossas próprias sombras. Se pensarmos bem, aquilo que apontamos nos outros provavelmente é o que nos incomoda em nós mesmos, mesmo que a gente não se atente para isso. Uma pessoa que xinga e tenta agredir a outra pode estar tentando falar de si, e não daquela a quem a agressão é dirigida. Este, aliás, é também um dos nossos maiores poderes: desejar luz àquele que está tentando nos ofender e simplesmente não aceitar a agressão.

Pense como é difícil tomar uma decisão, mesmo as mais simples. Agora imagine para quem tem a responsabilidade de definir os rumos de uma cidade, estado ou país. Nenhuma decisão é simples e ao longo da vida iremos errar muitas vezes.

Precisamos definitivamente promover o nosso juízo crítico e praticar o questionamento. No decorrer da vida, somos condicionados pelas mais variadas formas e grupos dos quais participamos, passando, assim, a acreditar em crenças que nos limitam e nos prejudicam. Uma dessas crenças limitantes é a ideia de que a política é um lixo e que dela devemos nos afastar. Dessa forma, abrimos espaço para pessoas inconscientes e despreparadas assumirem cargos públicos que influenciam a vida de milhões de cidadãos de todo um país.

Transforme suas crenças limitantes sobre política

É preciso duvidar. Principalmente, do nosso modelo de formação dos indivíduos. Como não questionar? Passamos boa parte da nossa vida dentro de uma sala de aula. Nesses espaços, somos treinados em conhecimentos técnicos como matemática, português e ciências, por exemplo, mas não recebemos nenhum estímulo ao autoconhecimento. Não aprendemos a lidar com nossas próprias emoções, tampouco aprendemos a desenvolver as habilidades mais básicas para o convívio humano. Passamos muito tempo com colegas uniformizados e enfileirados em salas de aula, sendo submetidos a reproduções de conteúdos que muitas vezes não fazem sentido nem para o professor que os reproduz.

Explore seu verdadeiro talento

O que eu aprendi durante toda a minha vida, no entanto, estava tão enraizado em mim que o meu sentimento era de que não poderia fazer nada. Questionar seria uma coisa muito errada, principalmente porque meus pais sempre foram meus heróis. Sempre acreditei muito neles e sabia que tudo era para o meu bem e, de fato, eles pensavam que era. Só que eles também reproduziam aquilo que aprenderam. E quando eu passei a buscar cada vez mais desesperadamente um sentido para tudo aquilo, os conflitos e julgamentos estouraram.

Eu me sentia errado, culpado, acreditava que estava fazendo algo imoral. Me faziam acreditar que tinha algo a ver com o meu caráter.

Mas não se tratava disso. Todo ser humano tem um talento, através do qual se expressará no mundo. A questão é que, desde cedo, aprendemos que algumas vocações são mais valorizadas do que outras. Com isso, disseminamos uma cultura que ofusca o brilho de jovens que buscam maneiras de contribuir com o mundo. Pensem, por exemplo, o que um garoto de 8 anos ouvirá hoje, caso manifeste a vocação e o desejo de dançar. E apesar de reconhecer a importância da matemática, quem disse que a lógica, os números e o fato de saber calcular são mais importantes do que saber dançar? Muito pelo contrário. Às vezes, o desenvolvimento da área musical em uma pessoa, pode, inclusive, ajudá-la a desenvolver o raciocínio matemático!

No dia em que pararmos de julgar uns aos outros, direcionando o olhar para o que outro tem de melhor, teremos muitos menos problemas no mundo. Devemos, portanto, mudar o foco dos investimentos, dos recursos e da nossa energia, a fim de ajudar os jovens a descobrirem desde cedo seus verdadeiros talentos. Dessa forma, poderemos ajudar a estimular o brilho, a autonomia e a liberdade que todo ser humano tem.

Pode parecer meio paradoxal, mas o abandono do pensamento binário pode nos deixar confusos a princípio e nos tirar de uma zona de conforto. Contudo, precisamos começar. Não julgar o outro é um importante e difícil começo. Uma vez Raul Seixas disse: “O  auge do meu egoísmo é querer ajudar”. Se, em um primeiro momento, você precisar se dedicar de uma forma egoísta ao seu bem-estar, faça isso. Sinta-se bem, esteja saudável e autoconsciente. Naturalmente você encontrará as melhores formas de transformar a realidade que o cerca. Comece trabalhando por você. Acredite, é a melhor forma de você ajudar a sociedade.

Diogo Busse

É advogado, professor, embaixador da Democracy Earth Foundation no Brasil e Co-fundador do Movimento Agora. Responsável pela política de drogas em Curitiba (PR), criou e presidiu a Comissão de Política de Drogas da OAB-PR.

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