Por que teorias da conspiração são tão populares?

A explicação passa pela biologia e pela psicologia, dizem estudiosos do tema - que alertam para os riscos da disseminação e do fortalecimento dessas histórias falsas.

Por Melissa Hogenboom - Da BBC Future

Em algumas regiões dos Estados Unidos, os diagnósticos de sarampo têm aumentado em números sem precedentes.

Em 2017, foram 58 casos confirmados da doença no Estado de Minnesota – o maior surto dos últimos 30 anos. Em 2008, uma crise parecida aconteceu na Califórnia.

Menos de uma década antes, o sarampo tinha sido praticamente eliminado nos Estados Unidos. O ressurgimento gradual pode, segundo pesquisadores, estar diretamente ligado ao fato de que cada vez mais americanos não têm se vacinado contra a doença.

Antes de as vacinas serem introduzidas em 1963, a doença causou muito estrago. Nos anos 1960, foram registrados milhões de casos, milhares de hospitalizações e 500 mortes por ano.

O cenário não está restrito ao sarampo ou aos EUA. Na Austrália, um estudo de 2016 concluiu que 23 mortes ocorridas entre 2005 e 2014 e causadas por uma série de doenças diferentes poderiam ter sido evitadas com vacinas que hoje são bastante acessíveis.

As pessoas que não se vacinam geralmente optam deliberadamente por não fazê-lo. Elas fazem parte do chamado movimento "antivacina", acreditam que a imunização faz mal e, muitas vezes, que as companhias farmacêuticas encobrem seus efeitos prejudiciais.

É uma entre as várias teorias conspiratórias que são repassadas mesmo diante de abundantes evidências científicas que dizem o contrário – uma rápida busca na internet mostra centenas delas.

Há também os negadores das mudanças climáticas, que acreditam que a Terra não está ficando mais quente – e cientistas que distorcem evidências para fazer com que isso pareça verdade.

Enquanto algumas teorias da conspiração são relativamente inofensivas – a ideia de que a Nasa fingiu o pouso na Lua ou que o Beatle Paul McCartney morreu há muito tempo e um doppelgänger (pessoa idêntica) tomou seu lugar desde então -, outras têm efeitos catastróficos.

Com novas evidências, pesquisadores estão chegando mais próximo de entender melhor os fatores envolvidos nesses desdobramentos. Isso irá, esperam eles, ajudar a mitigar alguns dos perigos reais e das divisões sociais que as teorias conspiratórias encorajam.

Não há nada novo sobre teorias da conspiração. Já no século 3 uma lenda dizia que Jesus e Maria Madalena eram casados, um mito que foi perpetuado em ficções populares, como no livro O Código Da Vinci.

Algumas ligam a conspiração dos manipuladores Illuminati à sociedade secreta em 1776, mas essa sociedade não era nada como os 'Illuminati' de hoje. Mais recentemente, alguns negam até que o Holocausto aconteceu. Apesar de inúmeras evidências, eles insistem que os nazistas não mataram seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

A questão que psicólogos como Karen Douglas, uma professora da Universidade de Kent, no Reino Unido, se perguntam é: por que essas crenças persistem?

Não há uma resposta simples. Considerando a quantidade de teorias da conspiração que existem e o fato de que até metade dos americanos acreditam em ao menos uma delas, não há um conjunto de características que determinem um perfil. Quem nunca quis acreditar em algum momento que um artista que morreu possa estar vivo? Elvis Presley e Tupac Shakur foram alvos desse debate, por exemplo.

"Em algum nível, todos estamos predispostos a suspeitar do governo", diz Douglas. Faz sentido, de uma perspectiva evolucionista, que tenhamos suspeitas de um grupo ou de pessoas que não compreendemos. "Em alguns sentidos, faz parte do comportamento adaptativo suspeitar de outros grupos, para preservar sua própria segurança", diz ela.

Quando ela começou a investigar o tema mais a fundo, contudo, deparou-se com uma série de outros motivos que explicam por que algumas pessoas são mais atraídas a teorias conspiratórias que outras.

Em primeiro lugar, elas parecem ter uma necessidade intrínseca e quase narcisista de algo único, mostrou um estudo. É a ideia de que a pessoa sente que tem acesso a uma informação escassa ou a explicações alternativas e secretas sobre alguns eventos mundiais.

Como disse o escritor e acadêmico Michael Billig em 1984: "a teoria da conspiração oferece a chance de ter um conhecimento escondido, importante e imediato para que aquele que acredita nela se torne um especialista no assunto, tendo um conhecimento que nem mesmo os ditos especialistas no assunto têm". O trabalho de Douglas agora comprova o que Billig quis dizer.

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Outros estudos revelam que as teorias da conspiração ajudam as pessoas a entender o mundo quando elas sentem que perderam o controle, estão ansiosas ou se sentem impotentes se suas necessidades estão sob ameaça. As pessoas podem achar difícil aceitar que vivemos em um mundo onde atos de violência aleatórios, como assassinatos em massa, possam acontecer.

É por isso que pode ser psicologicamente reconfortante para alguns acreditar que "pessoas poderosas" estão por trás de acontecimentos aleatórios, diz Stephan Lewandowsky, professor de Psicologia da Universidade de Bristol, no Reino Unido. As pessoas são literalmente viciadas em respostas, segundo um estudo do ano passado publicado no Jornal Europeu de Psicologia Social.

Um exemplo é o tiroteio de 2017 em Las Vegas, o mais mortal tiroteio na história dos EUA, com 58 vítimas. Foram apontados como culpados terroristas muçulmanos, o grupo Antifa e até os Illuminati, que teriam feito ritual de sacrifício.

O site de checagem de fatos Snopes tem uma longa lista de informações falsas que eles derrubaram. "Nós não gostamos da ideia de que algo terrível possa acontecer do nada, então é psicologicamente reconfortante para algumas pessoas acreditar que exista uma conspiração muito bem organizada de pessoas poderosas que são responsáveis por esses acontecimentos", diz Lewandowsky.

A sua formação também pode influenciar nas suas crenças sobre o mundo. Pessoas que cresceram inseguras e apegadas aos pais – e se tiveram uma relação negativa com algum deles ou com os dois – também teriam maior propensão a crer em teorias da conspiração, segundo um estudo que será publicado em abril deste ano no Jornal de Personalidade e Diferenças Individuais.

"Essas pessoas têm uma percepção exagerada dos perigos", explica Douglas, ressaltando que isso acontece porque, em parte, esse é o meio que elas encontram para lidar com o medo.

"Elas ajudam as pessoas a explicar ou justificar suas ansiedades". Se isso funciona ou não é outra questão. As evidências que se têm hoje apontam no sentido contrário, mostram que as pessoas podem se sentir menos ainda no controle – que as teorias conspiratórias podem fazer as pessoas se sentirem mais inseguras, impotentes e desiludidas.

E, uma vez nesse estado, elas têm uma tendência ainda maior em continuar acreditando nessas teorias. O fato de que existam muitas pessoas que optam por acreditar nessas conspirações tem consequências perigosas, mesmo quando elas são absurdamente bobas ou até mesmo cômicas.

As pessoas que acreditam nessas teorias em geral são menos engajadas politicamente e, portanto, menos propensas a votar. Céticos das mudanças climáticas também estão menos propensos a reduzir suas emissões de carbono e a apoiar políticos que prometem fazê-lo. De uma maneira parecida, os antivacina também contribuem para o contágio da doença, que pode machucar ou até matar os mais jovens ou pessoas com a imunidade comprometida.

Não parece haver uma saída fácil. Infelizmente, para os cientistas, apresentar dados precisos que desmentem uma teoria da conspiração geralmente não ajuda. Aliás, isso pode até tornar uma crença em algo falso ainda mais forte. Lewandowsky descobriu que, quanto mais fortemente alguém acredita em uma conspiração, menor a probabilidade de confiar em dados científicos.

É mais possível que eles acreditem que a pessoa tentando debater com eles tem algum motivo especial para defendê-la. "O que isso significa é que qualquer evidência contra uma teoria da conspiração é reinterpretada como evidência a favor dela". A rejeição da ciência é em parte alimentada por teóricos da conspiração, ele descobriu mais tarde.

Isso demonstra como vivemos em um mundo polarizado. Um estudo sobre como teorias da conspiração se espalham na internet revelaram que não há uma sobreposição entre aqueles que compartilham notícias científicas e os que compartilham notícias falsas ou teorias da conspiração.

"Vivemos em bolhas distintas", diz o físico David Grimes, da Universidade de Belfast. Ele foi perseguido tantas vezes por conspiracionistas que desenvolveu um algoritmo para mostrar quão improvável é a possibilidade de segredos tão grandes serem mantidos por um longo tempo. Quanto mais pessoas envolvidas em encobrir algo, mais rápido seria o desvendamento, ele apontou.

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"Nós todos compartilhamos um único mundo e as consequências do que decidimos, de um ponto de vista ético ou político, afeta todos nós. Se não podemos sequer concordar com a ciência mais básica, coisas que não deviam ser tão contraditórias, teremos sérios problemas para tomar decisões", diz Grimes.

Por mais que não exista uma solução única, pesquisas que investigam a psicologia por trás da participação nas teorias da conspiração são um começo. Sabemos que a ideologia de alguém geralmente está ligada a suas crenças. O mais forte indicador da negação das mudanças climáticas, por exemplo, é a ideologia do livre mercado, comprovou Lewandowky.

Através do trabalho de Douglas e de muitos outros, hoje conhecemos também muitas características das pessoas mais propensas a acreditar em algo sem evidência. Precisamos entender que somos "definidos em padrões", mesmo quando não há padrões, diz Grimes.

"A verdade é que vivemos em um universo estocástico. É tentador criar uma narrativa, mas quando não há uma, quando não há ondas, conectamos pontos na areia", acrescenta.

Apesar de a tecnologia ter criado muitas das bolhas e câmaras de eco que vemos hoje, ela também pode nos ajudar a superá-las. Um experimento pioneiro desenvolvido na Noruega submete participantes a um questionário para garantir que eles entenderam o que leram antes que possam comentar em um artigo publicado. Isso pode ajudar as pessoas a "se acalmarem" antes de disparar comentários aleatórios, diz Lewandowsky, mas ao mesmo tempo não censura ninguém por expressar sua opinião e ter uma voz.

Outra estratégia que poderia ajudar seria instruir as pessoas para que elas possam entender o que são fontes confiáveis, assim como questionar e responsabilizar figuras públicas quando essas espalham informações falsas ou imprecisas. Muitos sites de checagem de fatos e jornalistas já tentam fazer isso, mas nem sempre funcionam.

Grimes descobriu que as pessoas que estão firmes em suas crenças dificilmente mudarão de opinião, mas os que "não estão completamente comprometidos" podem ser convencidos diante de evidências. Isso, espera ele, significa que podemos derrubar muitas teorias conspiratórias se as pessoas tiverem evidências convincentes baseadas em fatos.

E, por último, podemos olhar com mais atenção para o que nós mesmos postamos nas redes sociais. As pessoas muitas vezes compartilham uma manchete que parece esperta sem ter realmente lido o conteúdo do artigo. "Temos a informação na palma da mão e ainda assim somos obcecados por ficções vazias", ele destaca. É exatamente assim que informações falsas e teorias da conspiração se espalham tão facilmente.

Isso significa que realmente não podemos acreditar sempre no que lemos e ouvimos. Se algo parece peculiar ou forçado, é porque provavelmente é. Se você estiver informado sobre quantas teorias da conspiração circulam por aí, você já estará um passo a frente na tarefa de evitar que elas se espalhem mais ainda.

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