Onda populista e nacionalista deixa Itália sob impasse político após eleições

Aliança de 4 partidos liderada por Silvio Berlusconi ganhou a maioria dos votos, mas não o suficiente para formar um governo; Movimento Cinco Estrelas, criado por um comediante, foi a legenda com melhor desempenho individual e, se atrair aliados, pode comandar o país.

Por BBC Brasil

A Itália está diante de um impasse político. Nas eleições em que uma aliança de centro-direita e um partido contrário ao sistema dividiram a preferência dos eleitores, nenhuma legenda deve conseguir maioria suficiente no Parlamento para formar um governo, de acordo com as primeiras projeções oficiais.

Os italianos foram às urnas no domingo para eleger representantes na Câmara e no Senado. Os resultados parciais indicam que o Movimento Cinco Estrelas, o partido anti-União Europeia criado pelo comediante Beppe Grillo, conquistou, individualmente, a maioria dos votos.

Mas a aliança nacionalista de centro-direita liderada pelo ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que incluiu quatro partidos, deve levar a maioria dos assentos. No entanto, é possível que não consigam todas as 316 cadeiras necessárias para indicar o primeiro ministro.

Assim, a composição de uma coalizão para montar o novo governo pode exigir semanas de negociação. Uma alternativa para o impasse seria realizar novas eleições, mas não há garantia de que alguma legenda vai conquistar sozinha maioria absoluta dos assentos em um novo pleito.

Resultados preliminares indicam que o Cinco Estrelas, um partido que começou como um movimento de pessoas desiludidas com a política tradicional, ganhou 32,4% dos votos.

Mas as projeções mostram que, juntos, os partidos Força Itália, Liga, Irmãos da Itália e Nós com a Itália devem terminar a contagem de votos com aproximadamente 37% da preferência do eleitorado.

Berlusconi é líder do Força Itália, mas está inelegível devido a uma condenação por fraude fiscal. O candidato dele para o cargo premiê pode ser o atual presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, ou o líder da Liga, Matteo Salvini.

A Itália está sendo governada por um gabinete interino desde dezembro de 2016, quando Matteo Renzi, líder do Partido Democrático, renunciou ao cargo de primeiro ministro depois de ser derrotado em um referendo que previa mudanças constitucionais no sistema eleitoral e no funcionamento das Casas do Parlamento.

100275756renzi-69cf3d5edc507b75da5ec4195fb10571.jpg Matteo Renzi, líder do Partido Democrático, sai derrotado das eleições / Reuters

Depois da eleição desse domingo, o Partido Democrático, que é de centro-esquerda, deve terminar com cerca de 19% dos votos, o que representa mais uma dura derrota para Renzi. Segundo o jornal italiano La Repubblica, trata-se de "um golpe psicológico" para o partido, que não conseguiu mais de um quinto dos assentos.

O mapa eleitoral com o resultado parcial da votação já indica também que a Liga ganhou votos no norte, enquanto o Cinco Estrelas surge como uma nova força no sul, praticamente dividindo o país.

Com tudo isso, o jornal Il Fatto Quotidiano já estampou em sua primeira página a manchete "Tudo vai mudar". Antes mesmo do resultado final.

O que essa apuração significa?

10028256677c4a0b4fcda40ba869ed61973104184-4b68dbecafffd8306d5b45a1f83bf434.jpg Luigi Di Maio, líder do Movimento Cinco Estrelas, que se opõe às políticas de austeridade e se coloca como eurocético / AFP

Apesar de nenhum partido, com a votação que alcançaram individualmente, ser capaz de montar o governo e comandar sozinho o país, as eleições italianas já indicam o surgimento de uma onda populista e nacionalista que já está sendo comparada aos processos que levaram ao Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) e à vitória de Donald Trump nos EUA.

Os partidos da aliança comandada por Berlusconi devem ganhar juntos de 248 a 268 assentos no Parlamento, mas, no sistema parlamentarista italiano, são necessárias pelo menos 316 cadeiras para comandar o governo. De um modo geral, eles têm uma postura mais radical em relação às políticas migratórias e à União Europeia.

Apesar do impasse político, as eleições italianas mostraram a força do Movimento Cinco Estrelas e das propostas que atraem, em especial, um público desiludido com a política tradicional.

O Cinco Estrelas foi fundado em 2009 por um comediante que denunciava a política italiana pelas práticas clientelistas, compadrios e nepotismo. Mas o que no início parecia ser mais uma piada de Beppe Grillo transformou-se no partido que sai fortalecido e, provavelmente, o com o maior número de assentos no Parlamento (de 216 a 236).

O que as forças políticas italianas defendem

Partidos/Aliança

Migração

Europa

Economia

Centro-direita

Deportar imigrantes ilegais, assumir controle das fronteiras e "Plano Marshall" (programa de recuperação) para a África.

Revisar tratados, recusar excesso de regulação, fim da política de austeridade imposta pela Europa, proteger produtos "Made in Italy".

Facilitar acesso a linhas de crédito para empresas de pequeno e médio porte, ajudar jovens a ter acesso ao mercado de trabalho.

Partido Democrático

É contrário à Convenção de Dublin (que agiliza processo de refugiados) e a favor de cortar qualquer auxílio aos países que se recusam a receber imigrantes.

Mais políticas europeias e integração social.

Reduzir desemprego a taxas menores que 9%, garantir salário mínimo e remuneração igual para homens e mulheres.

Movimento Cinco Estrelas

Revisão da Convenção de Dublin, distribuir os pedidos de asilo em outros países da União Eupeia.

Encontrar alternativas para o euro, intensificar alianças com países do sul da Europa, menos políticas austeras, proteger produtos 'Made in Italy'.

Representação sindical gratuita, participação dos trabalhadores na tomada de decisões, redução da jornada, incentivar trabalho em período parcial.

O partido fundado por Grillo não se apresenta nem à direita nem à esquerda. Reúne pessoas de diferentes ideologias dispostas a reconstruir o sistema político, além de militantes atraídos pelas propostas da legenda em relação à política ambiental.

Os resultados também sinalizam que a insatisfação com o desemprego, imigração e relação com a União Europeia parece ter impulsionado a derrota do partido de Renzi e da coalizão de centro-esquerda, que devem conquistar de 107 a 127 cadeiras da Câmara.

"Está claro para nós que é uma derrota flagrante", disse o ministro da Agricultura, Maurizio Martina.

Katya Adler, editora da BBC para a Europa, avalia que esse resultado faz com que seja "teoricamente possível que o pesadelo da Europa se torne realidade": uma coalizão de partidos eurocéticos.

Especula-se que o Cinco Estrelas e a Liga, ambos contrários às certas políticas e regulações impostas pelo bloco europeu, firmem um acordo para comandar o país. Para isso, a Liga, que deve terminar a eleição com aproximadamente 17,7% dos votos para a Câmara, deixaria a aliança montada por Berlusconi.

Para o Senado, a votação conquistada pelos Cinco Estrelas e pelos partidos de centro-direita também se destacaram.

Os aliados de Berlusconi

Mesmo impedido de assumir cargo público até o próximo ano, Silvio Berlusconi, de 81 anos, costurou uma aliança com o partido dele próprio, o Força Itália, o anti-imigração Liga e a legenda considerada por italianos como de extrema-direita Irmãos da Itália, além da nacionalista Nós com a Itália.

Apesar de, juntos, esses partidos terem conseguido um número expressivo de votos, as eleições estão sendo vistas como um golpe pessoal para o ex-premiê, já que a Liga teve um desempenho melhor que o partido de Berlusconi.

100275752salvini-c84e6b79104a5271011ef1e3ecaba679.jpg Matteo Salvini, líder da Liga, já discursou alertando para o que vê como os perigos do Islã / Getty Images

Justamente por isso, se Berlusconi conseguir manter a aliança de centro-direita unida e ainda atrair mais partidos para se coligar ao grupo, ele pode não conseguir emplacar Antonio Tajani como primeiro ministro.

Matteo Salvini, líder da Liga que já prometeu deportar milhares de imigrantes ilegais e fala sobre o que vê como perigo do Islã, pode ser o nome do grupo para comandar a Itália.

Mas a Liga pode decidir se aliar ao Cinco Estrelas. E é por isso que a política italiana vive um impasse que deve demorar para chegar ao fim.


Análise: O que acontece agora?

Por James Reynolds, da BBC News em Milão (Itália)

Na Itália, o voto dos eleitores representa a primeira etapa de um longo processo para escolher o governo.

Ainda não se sabe quem será o vencedor, mesmo com as projeções sinalizando os que terão a maior quantidade de assentos.

Nesse jogo aberto, o Cinco Estrelas leva uma certa vantagem. A mensagem clara do partido atingiu os jovens que procuram emprego e eleitores do sul, a região mais pobre do país.

O movimento ganhou pontos ao disputar as eleições sozinho, sem se aliar com nenhum partido convencional. Em contrapartida, outros partidos mais tradicionais preferiram formar uma coligação para concorrer ao pleito.

Mas o que deu ao Cinco Estrelas força – essa independência – pode agora se tornar seu principal ponto fraco. Para formar um governo, o movimento vai precisar encontrar parceiros para a coalizão. A inexperiência em trabalhar com outros partidos pode ser uma desvantagem na hora de negociar um novo governo.

Para qual lado o Cinco Estrelas vai? Há especulações de que o partido vai firmar uma coalizão com o partido nacionalista e anti-imigração Liga, que apresentou um resultado melhor que os parceiros na aliança.

Tanto o Cinco Estrelas quanto a Liga têm criticado a relação da Itália com a União Europeia, apesar de que nenhum dos dois advogam para deixar o bloco europeu.

Uma potencial aliança entre os dois seria vista com preocupação por Bruxelas (sede da União Europeia).

©
Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo