Como americano acabou forçado a se casar e a interpretar vilões de filmes na Coreia do Norte

Em 1980, autoridades norte-coreanas obrigaram soldado desertor dos EUA e japonesa sequestrada a se casarem; união inesperada deu início a história de amor.

Por Rebecca Seales - BBC News

Um casamento forçado salvou a vida de um soldado desertor na Coreia do Norte.

A princípio, o americano Charles Jenkins e a japonesa Hitomi Soga só tinham em comum o ódio pelos norte-coreanos. Ele era prisioneiro, e ela tinha sido sequestrada.

Mas o casamento arranjado pelas autoridades do país acabou virando uma comovente história de amor.

Jenkins, que morreu nesta semana aos 77 anos, entrou cambaleando na Coreia do Norte em janeiro de 1965. Ele tinha 24 anos, estava bêbado e deprimido.

Na condição de sargento do Exército americano, que lutava ao lado dos sul-coreanos, ele temia se baleado ao cruzar a fronteira. Ou pior, ser enviado para morrer no Vietnã.

Ele sabia que a deserção era arriscada, mas acreditava que conseguiria reivindicar asilo na embaixada russa e voltar para casa em uma eventual troca de prisioneiros.

"Eu não imaginei que o país em que eu procurava refúgio temporário era literalmente uma prisão gigante e demente. Uma vez que alguém entra lá, quase nunca sai", escreveu posteriormente.

Jenkins foi feito então prisioneiro da Coreia do Norte, e passou a viver um longo período de privações – foram quatro décadas.

Inicialmente, ele dividia uma cela com outros três soldados desertores. Eles eram forçados a estudar durante dez horas por dia as doutrinas do então líder Kim Il-sung. Apanhavam com frequência.

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Mudança no status

Em 1972, os desertores foram declarados cidadãos da Coreia do Norte – apesar de ainda sofrerem vigilância constante, espancamentos e tortura – e ganharam moradias separadas.

Os quatro ensinavam inglês em uma escola militar e foram obrigados a interpretar americanos malvados em uma série de 20 filmes de propaganda, o que fez deles celebridades instantâneas.

Outra condição imposta pelas autoridades norte-coreanas foi que eles se casassem com presas do regime, todas estrangeiras.

Mas por que a Coreia do Norte exigiria isso?

Para Jenkins, a estratégia era clara: ele acreditava que Pyongyang estava desenvolvendo um programa de reprodução de espiões – e treinaria seus filhos de aparência ocidental para servir como agentes no exterior.

Mas, enquanto os quatro soldados americanos entraram na Coreia do Norte por vontade própria, o mesmo não se aplica às mulheres com quem se casaram.

Sequestro

Em 1978, Hitomi Soga, que viria a se tornar esposa de Jenkins, foi sequestrada para ensinar a língua e cultura japonesa a espiões norte-coreanos.

A enfermeira japonesa tinha 19 anos e morava na ilha de Sado, na costa oeste do Japão, quando foi levada.

Quando os dois se casaram, em 1980, Jenkins já estava há 15 anos em Pyongyang.

Os recém-casados compartilhavam, inicialmente, apenas o ódio pela Coreia do Norte. Mas, aos poucos, se apaixonaram.

Quando chegaram aos 22 anos de casados, Jenkins e Soga pareciam ter encontrado a fórmula da felicidade. Eram gratos por ter um ao outro. E tinham duas filhas: Mika, que hoje tem 30 anos, e Brinda, dois anos mais nova.

Repatriação e separação

Em 2002, veio o acontecimento inesperado que mudaria novamente suas vidas.

Kim Jong-il, então líder da Coreia do Norte, admitiu que seu país tinha sequestrado 13 cidadãos japoneses nas décadas de 1970 e 1980.

Ele disse que oito tinham morrido, o que é questionado pelas autoridades japonesas, e autorizou os cinco sobreviventes a fazerem uma visita de dez dias ao Japão. Hitomi Soga embarcou sem o marido, na companhia de dois casais.

O Japão acolheu os cinco, que nunca mais voltaram para a Coreia do Norte.

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Jenkins e as filhas ficaram desolados. A deserção do Exército americano prevê prisão perpétua, e o ex-soldado sabia que, se tentasse se juntar à esposa no Japão, seria detido pelos Estados Unidos.

Reencontro

Dois anos após Soga ser repatriada, Jenkins não aguentou e voou com as filhas para a Indonésia – que não tem tratado de extradição com os EUA – para encontrar a mulher.

992189316bc7c74e19f24c43b1155b20f61d800e-3ceebfcc89bbcefc85f85a27ace66f13.jpg Hitomi Soga reencontrou o marido no aeroporto de Jacarta em 2004, dois anos após ter sido repatriada | Foto: STR/AFP/Getty Images / BBC

Pyongyang só havia autorizado uma breve visita. Mas, com o apoio do primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, ele decidiu se arriscar a ser julgado pela corte marcial e morrer na prisão para reunir a família.

Jenkins cumpriu 25 dias de uma sentença de 30 dias após se declarar culpado por deserção e ajudar o inimigo (pelo tempo que passou ensinando inglês). Ele foi libertado mais cedo por bom comportamento.

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Acredita-se que ele tenha compartilhado com os EUA todo seu conhecimento sobre a Coreia do Norte em troca de clemência.

"Cometi um grande erro na minha vida, mas tirar minhas filhas de lá foi algo certo que fiz", disse ele, soluçando, ao ser libertado.

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Até morrer, Jenkins estava convencido de que a Coreia do Norte queria recrutar suas filhas – e que a faculdade em que elas estudavam as estava treinando para a espionagem.

Vida nova

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Ainda em 2004, Hitomi Soga voltou para a ilha Sado, levando o marido e as filhas. Jenkins conseguiu emprego em um parque, vendendo biscoito e posando para fotos, enquanto a mulher foi trabalhar em uma casa de repouso local.

Ele orientava as filhas a nunca encostarem o carro a pedido da polícia de trânsito japonesa, temendo que pudesse se tratar de agentes norte-coreanos.

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Como prisioneiro de Pyongyang, Jenkins perdeu o apêndice, um testículo, e parte de uma tatuagem do Exército americano que foi cortada do seu antebraço – e sem anestesia.

Ele diz que Hitomi Soga salvou sua vida. E, sem dúvida, ela foi a razão pela qual ele morreu um homem livre.

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