ONU aponta violação de direitos em fuga de soldado na Coreia do Norte

Por BBC Brasil
ONU aponta violação de direitos em fuga de soldado na Coreia do Norte

Cenas extraordinárias em vídeo mostram um soldado desertor norte-coreano atravessando a fronteira, em fuga para a Coreia do Sul. Em 13 de novembro, ele dirigiu um jipe até a divisa entre os dois países, dentro da área de segurança conjunta – na sigla em inglês JSA, de Joint Security Area. Em seguida, correu para o lado do sul, sob intenso tiroteio.

A JSA é uma área armada entre as duas Coreias. É o único lugar ao longo de 250 quilômetros na zona desmilitarizada onde soldados dos dois lados estão cara a cara.

No armistício de 1953, que deu fim à guerra entre os dois países, ambos os lados concordaram em não executar qualquer ato hostil dentro, a partir de, ou contra essa área.

Esse acordo, no entanto, teria sido quebrado no dia 13, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A instituição, que supervisiona as forças militares de apoio à Coreia do Sul, afirma que as imagens recém-divulgadas de perseguição ao soldado mostraram violações claras do armistício, com soldados da Coreia do Norte disparando através da fronteira e cruzando a linha de demarcação estabelecida na região.

Área segura, mas sem "barreiras"

As imagens em vídeo mostram o soldado passando em alta velocidade pelo que parece um ponto de controle da Coreia do Norte. Ele dirige em direção à fronteira.

A zona desmilitarizada é fortemente protegida, mas na JSA não há muros ou outros obstáculos que poderiam ser esperados na divisa de dois países que tecnicamente ainda estão em guerra.

Mesmo o ponto de controle da Coreia do Norte não parecia ter barreiras. A ausência delas deve ser proposital, conforme determinação do armistício, disse à BBC coreana o pesquisador Yang Uk, do Korea Defense & Security Forum.

"A área foi instalada como terreno neutro para conversas do comitê de armistício", o que, segundo ele, costumava ocorrer frequentemente.

"As forças armadas do Norte e do Sul trabalhavam juntas na JSA, o que é óbvio considerando o que ela significa – área de segurança conjunta".

Essa área foi originalmente estabelecida como um ambiente no qual os Exércitos trabalhassem conjuntamente, mas um incidente em 1976 conhecido como "caso do assassinato do machado" – quando soldados norte-coreanos mataram soldados dos EUA enquanto derrubavam uma árvore – resultou em novas regras em que militares dos dois países tiveram que se manter em seus devidos lados.

Na área, acrescenta ele, existem poucos lugares para se esconder. A "Freedom House", no lado sul da fronteira, tem apenas um ponto de entrada no centro do seu lado sul – então seria difícil para um desertor do norte se esconder no prédio.

Comando da ONU aponta violação de regras durante perseguição

Pelas imagens do circuito de câmeras que captaram os momentos da fuga, parece surpreendente que o soldado tenha sobrevivido. Guardas norte-coreanos o alcançam e seguem atirando a curta distância apenas alguns segundos após ele abandonar o veículo que dirigia e correr para cruzar a fronteira. Ele não para. Atravessa uma estrada e só desmaia alguns metros depois – o suficiente para ficar fora de alcance e protegido no perímetro de um prédio chamado "Freedom House" da Coreia do Sul.

Um guarda de fronteira participava da perseguição, antes de parar abruptamente ao perceber que havia invadido o território do sul. Ele dá a volta e retorna ao ponto onde estão seus companheiros, escondidos atrás de um posto de vigilância.

Para o Comando das Nações Unidas, esse foi outro exemplo de violação do armistício.

Contudo, a Linha de Demarcação Militar, uma linha de administração temporária que divide as duas coreias, parece não estar visivelmente demarcada em toda a extensão da JSA.

Nas imagens divulgadas pelo Comando das Nações Unidas, o desertor atravessa um campo gramado perto de um dos prédios. O guarda-fronteira não parece estar ciente de que invadiu o território vizinho, até estar de fato do lado do sul.

O Comando das Nações Unidas disse quarta-feira que os guardas norte-coreanos também violaram regras ao atirar no desertor em direção à Coreia do Sul, dentro da JSA.

O porta-voz das forças dos EUA trabalhando sob o comando da ONU disse que o sul mostrou uma "ponderação admirável" ao não revidar.

Agora espera apenas ouvir se o norte está disposto a conhecer e discutir o incidente, além de maneiras de evitar que se repita.

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Soldados norte-coreanos pareciam bem armados, mas "confusos"

As forças de segurança do Norte estão visivelmente bem armadas, no decorrer do incidente, mas suas reações parecem confusas.

No início da fuga, elas tiveram a chance de parar o soldado no posto de controle, mas ele acelerou enquanto, aparentemente, um guarda entrava em pânico.

Depois disso, houve ainda a invasão de outro guarda ao território do sul, e disparos dos soldados contra o desertor fugitivo – fatos que sugerem que eles esqueceram protocolos no meio da confusão ou que teriam decidido quebrar regras.

As imagens também mostram, na sequência, um grupo de soldados norte-coreanos movendo-se em círculos no seu lado da JSA e parecendo reticentes, antes de irem embora. Um deles é visto abaixando o rifle para ajustar o sapato ou a perna da calça.

A questão do armamento foi levantada por alguns analistas.

"Na teoria, apenas as pistolas são permitidas na JSA, para a autodefesa. Na prática, no entanto, soldados da Coreia do Norte foram vistos portando armas de fogo de mais grosso calibre. Os militares sul-coreanos também se prepararam com armas pesadas no caso de agressão ", disse Yang Uk à BBC.

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Resgate

De acordo com o Comando da ONU, os sul-coreanos tinham um plano e trabalharam rapidamente para resgatar o desertor sem saber se ele havia sido capturado.

Depois de esperar cerca de 40 minutos, dois soldados sul-coreanos rastejam em direção ao desertor e arrastam-no para longe.

Deserções são raras na área desmilitarizada e mais ainda na JSA.

Nenhuma das registradas até agora havia sido tão dramática.

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