Rússia ignora EUA e não impedirá referendo na Crimeia

Por Tercio Braga
Pequeno barco passa junto a navio de guerra russo no mar Negro | Baz Ratner/Reuters Pequeno barco navega junto a navio de guerra russo no mar Negro | Baz Ratner/Reuters

O governo russo ignorou os pedidos dos Estados Unidos e seus aliados e não impedirá o referendo de adesão da Crimeia à Rússia, previsto para o próximo domingo (16). Os ministros das Relações Exteriores russo e americano, Serguei Lavrov e John Kerry, respectivamente, não chegaram a nenhum acordo para resolver a crise durante uma reunião de seis horas na residência do embaixador americano em Londres.

Ao final do encontro, Lavrov afirmou que Moscou e Washington não conseguiram aproximar suas posições sobre a Ucrânia e que seu governo respeitará a vontade da Crimeia no referendo de adesão à Rússia. Já Kerry reiterou que haverá sanções caso o referendo seja realizado.

A reunião – a quarta entre Kerry e Lavrov em apenas oito dias – ocorre a menos de 48 horas do referendo, que contará com a vigilância das tropas russas.

Neste sentido, Kerry afirmou que é improvável que o presidente russo Vladimir Putin tome alguma decisão para frear a escalada na Ucrânia até a realização do referendo nesta península autônoma, enquanto Lavrov garantiu que a Rússia “não tem planos de invadir a região sudeste da Ucrânia”.

Lavrov garantiu que a Rússia Lavrov garantiu que a Rússia ‘não tem planos de invadir a região sudeste da Ucrânia’ | Sergei Karpukhin/Reuters

Contudo, horas antes, Moscou ameaçou intervir na situação, justificando que as “autoridades de Kiev não controlam a situação no país”, no dia seguinte a violentos confrontos em Donetsk, que terminaram com a morte de um manifestante partidário da unidade da Ucrânia por pró-russos.

“A Rússia tem consciência de sua responsabilidade sobre a vida de seus concidadãos e compatriotas na Ucrânia e se reserva o direito de protegê-los”, afirmou o ministério das Relações Exteriores em um comunicado.

A tensão na Crimeia é o último episódio de uma crise iniciada com os protestos contra o presidente ucraniano Viktor Yanukovytch, aliado do russo Vladimir Putin, sua destituição e a instalação de um governo favorável a uma aproximação da Ucrânia com a União Europeia.

A Crimeia, cuja população é majoritariamente de origem russa, respondeu com um plano para separar-se da Ucrânia.

A Rússia, por sua vez, enviou tropas para esta região ucraniana, que abriga sua frota no Mar Negro desde o século XIX.

Mas a Crimeia pode ser o primeiro passo do desmembramento da Ucrânia, se outras províncias do leste de língua russa decidirem seguir o mesmo caminho, tal como sugeriu o líder pró-russo da Crimeia, Serguei Axionov.

A hora das sanções

Tropas se mobilizam na região na Crimeia | Baz Ratner/Reuters Tropas se mobilizam na região na Crimeia | Baz Ratner/Reuters

A vitória dos pró-russos da Crimeia esta assegurada – os eleitores terão que escolher “entre sim e sim”, considerou o ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius – e a região pode demorar “até um ano” para juntar-se à Rússia, à qual pertenceu até 1954, segundo o auto-proclamado premiê da região, Sergei Axionov.

Mas o processo vai encontrar resistência por parte da comunidade internacional. “Se o referendo ocorrer, haverá sanções”, “haverá consequências”, prometeu Kerry após a reunião de Londres.

“Se o referendo for realizado e não encontrarmos uma solução diplomática, a União Europeia vai se reunir e discutir os próximos passos”, disse, por sua vez, o chanceler britânico, William Hague.

As sanções alcançariam “de 25 a 30” personalidades da Ucrânia e da Rússia, indicaram as duas fontes diplomáticas nesta sexta-feira.

Apesar do impasse, o presidente Barack Obama afirmou que mantém as esperanças de que se consiga uma solução diplomática para a crise, advertindo que, em caso contrário, haverá consequências para a Rússia.

Drone americano na Crimeia

Entenda o conflito na Crimeia | Clique para ampliar Entenda o conflito na Crimeia | Clique para ampliar

Enquanto a Rússia continua a organizar manobras militares na região de Rostov, perto da fronteira ucraniana, um drone americano foi interceptado na Crimeia, de acordo com uma companhia estatal russa.

Cerca de 4 mil paraquedistas, 36 aviões e 55 veículos participam das manobras militares, segundo a agência oficial Itar-Tass.

A companhia estatal russa de armamentos Rostekhnologuii (Rostec) afirmou que um avião de reconhecimento dos Estados Unidos foi interceptado em alta altitude acima da Crimeia.

“O drone (avião não-tripulado) estava voando a cerca de 4 mil metros e estava praticamente invisível a partir do chão. Foi possível quebrar a ligação com seus operadores americanos graças a um complexo combate rádio-eletrônico Avtobaza”, segundo a Rostec.

“O drone MQ-5B faz parte, a julgar pelo número de identificação, da 66ª brigada de reconhecimento militar americana, com base na Baviera”, indicou a companhia.

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