Paz na Síria se distancia após conferência na Suíça

Por Tercio Braga
Ban Ki-moon discursa ao lado do representante da oposição síria, Lakhdar Brahimi | Arnd Wiegmann/Reuters Ban Ki-moon discursa ao lado do representante da oposição síria, Lakhdar Brahimi | Arnd Wiegmann/Reuters

A conferência internacional sobre a Síria terminou nesta quarta-feira na Suíça com um apelo do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, às delegações de ambos os lados do conflito, que dura quase três anos, para que trabalhem em busca de uma solução.

Em discurso no final da reunião realizada em Montreux, Ban pediu aos participantes que apoiem o comunicado de Genebra de junho de 2012, que prevê a instalação de um governo de transição com total poder executivo. “Espero que as negociações reais comecem com toda a sinceridade e com velocidade máxima para adotar estas metas”, disse ele em seu discurso.

Ao se reunirem pela primeira vez, governo e oposição demonstraram hostilidade mútua. As potências mundiais também discordaram sobre a continuidade de Bashar al-Assad.

Ahmed Jarba, líder da oposição, acusou o presidente de cometer crimes de guerra ao estilo nazista e exigiu que a delegação do governo sírio assinasse um plano internacional para a entrega do poder.

O ministro do Exterior da Síria, Walid al-Moualem, insistiu que Assad não vai ceder às demandas externas e descreveu atrocidades de rebeldes “terroristas” apoiados por Estados árabes e ocidentais. “Assad não vai sair”, afirmou o ministro da Informação da Síria.

Autoridades ocidentais ficaram surpresas com o tom adotado pelo ministro Moualem, que chegou a contestar o pedido do secretário-geral da ONU para abreviar a sua fala. Alguns diplomatas têm dúvidas sobre a possibilidade de as negociações continuarem.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, seguiu a visão dos rebeldes de que não há forma de Assad permanecer no poder sob os termos do acordo internacional de 2012, que defende uma coalizão provisória. No entanto, o ministro do Exterior da Rússia, Sergei Lavrov, condenou “interpretações unilaterais” do acordo.

A Arábia Saudita, que dá apoio aos rebeldes sunitas, defendeu que o Irã e o grupo xiita Hezbollah tirassem as suas forças da Síria. Os iranianos não compareceram ao encontro, vetados pela oposição síria e pelo Ocidente.

Milton Blay – Chance de acordo? Zero

Quais as chances de sucesso da Conferência de Paz sobre a guerra na Síria, aberta ontem na Suíça? Tende a zero. O objetivo é gigantesco: obter um acordo sobre um governo de transição, com plenos poderes, capaz de acabar com três anos de guerra, que já deixaram mais de 130 mil mortos e milhões de refugiados. Mas como diz o ditado francês, na melhor das hipóteses a montanha vai dar à luz um camundongo. Em outras palavras, as partes presentes chegarão a um consenso para a abertura de corredores humanitários. É o que pensam os otimistas.

A situação no país árabe tornou-se um verdadeiro saco de gatos em que todos lutam contra todos. Estamos longe de uma guerra civil clássica.

A Coalizão Nacional Síria, baseada em Istambul e representante rebelde na Conferência, é formada por grupos heteróclitos, que vão de democratas que querem a derrubada do ditador Bachar al-Assad a salafistas (da Frente Islâmica) apoiados financeira e militarmente pela Arábia Saudita e Catar, desejosos de fundar uma Republica muçulmana sunita. A Coalizão representa apenas uma parte da oposição, não a mais radical.

Agora há outras guerras dentro da guerra na Síria.

Por tudo isso, ninguém, ou quase, acredita em acordo político. Genebra 2 não vale nada. É zebra total.

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