Humorista antissemita é proibido de se apresentar na França

Por fabiosaraiva
Cartaz do espetáculo “Le Mur”, de Dieudonné, que foi proibido | S. Mahe/Reuters Cartaz do espetáculo “Le Mur”, de Dieudonné, que foi proibido | S. Mahe/Reuters

A França assiste nesse momento, entre inquietação e fascínio, a uma queda de braço entre Manuel Valls, o ministro do Interior da França, e um humorista chamado Dieudonné M’bala M’bala, que se transformou em porta-voz do antissionismo no país.

Valls, determinado a proibir os espetáculos do humorista, que preparava uma tournée pela França, enviou uma circular aos secretários de segurança pública interditando as apresentações. Dieudonné replicou, foi à Justiça contestar a proibição do espetáculo, em nome da liberdade de expressão.

O primeiro capítulo judiciário teve lugar em Nantes (oeste da França), quinta-feira. O tribunal administrativo deu razão ao humorista, mas o governo entrou com recurso junto ao Conselho de Estado, a segunda mais alta jurisdição francesa, e venceu. Meia hora antes do início da apresentação, caiu o veredito, que deve servir de jurisprudência daqui para frente.

Alguns trechos de “Le Mur”,  O Muro, que já foi representado em Paris, não ajudam a defender a causa do comediante. Por exemplo, o ataque a um jornalista que propôs silenciar suas piadas nos meios de comunicação: “Quando o escuto falar, me digo: ‘Patrick Cohen… a câmara de gás… que pena!’”. Cohen é judeu.

Num outro trecho, diz ao telefone que vai queimar os judeus como palitos de fósforo e afirma que o maior presidente francês de todos os tempos foi o marechal Petain, o líder da colaboração com os nazistas alemães durante da Segunda guerra.

Dieudonné já foi condenado sete vezes por declarações antissemitas, a pagar 75 mil euros. Até agora não pagou um centavo, alegando estar falido, muito embora tenha bens e muito dinheiro em nome de sua mãe, da atual e da ex-mulher.  Sua maior provocação é a “quenelle”, um gesto inventado por ele que lembra a saudação nazista. Assim, Dieudonné despertou na França demônios que nunca estiveram totalmente adormecidos. Recentemente, esportistas como o cestobolista Tony Parker e o futebolista Anelka fizeram o gesto em homenagem ao amigo, e vários anônimos se retrataram na postura da quenelle diante de sinagogas ou da escola judaica de Toulouse na qual Mohamed Merah matou em 2012 duas crianças e um professor.

Nascido na periferia de Paris de pai camaronês e mãe bretã, Dieudonné saltou para a fama nos anos 1990 com a dupla que formava com o judeu Élie Semoun. A dupla ficou famosa por seu humor ácido e irreverente ao abordar temas tabus como o racismo. Em 1997, se separaram.

Élie Semoun escreveu em uma carta aberta ao seu antigo parceiro cômico: “Dieudonné está em outro lugar, no mundo do ódio. É como se eu tivesse vivido com um psicopata ou um pedófilo sem perceber”.

A verdade é que Dieudonné tem grande número de fãs entre os militantes da extrema-direita, os anti-casamento gay, as populações magrebinas marginalizadas, presas fáceis do antissionismo. Quanto a Valls, desde a declaração de guerra ao humorista, o ministro tem recebido vaias.

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