Como seria a Terra sem os seres humanos?

Por Daniel Casillas - Metro Internacional

Faz um tempo desde que os seres humanos ganharam mais consciência do nosso impacto como moradores da Terra. Seja pelo nosso meio de vida e a produção de lixo, mas também em virtude de nossos impactos ambientais com as indústrias,  poluição e o aquecimento global.

Com a emergência sanitária de covid-19, ficou ainda mais claro que somos convidados da natureza neste grande e rico planeta. Para compreender o assunto, o Metro Jornal conversou com Alan Weismann, jornalista e escritor norte-americano que, em 2007, escreveu um livro sobre como seria a Terra sem a nossa presença.

“A natureza retorna e floresce, mesmo que demore milhões de anos. E de uma maneira ainda mais surpreendente e bonita do que a de antes. E é isso que vai acontecer neste mundo, mesmo com todos os danos e cicatrizes que os humanos deixarão para trás.”

Alan  Weisman, Jornalista  norte-americano e autor do livro “Um mundo sem nós”

 

Conte-nos sobre seu livro. O que o motivou a descrever a Terra sem os humanos?

Eu não escrevi este livro porque quero um mundo sem humanos. Eu quero um mundo conosco, mas obviamente o que estamos fazendo agora não funciona. Estamos entregando nosso destino ao impacto que causamos e que muda completamente o ecossistema global. Queria que o leitor, ao ler meu livro e ver como a natureza pode ser bela se dermos uma pausa, pense em como isso é bonito e se pergunte se existe uma maneira de nos tornarmos parte dessa paisagem com equilíbrio e harmonia.

Como os humanos poderiam desaparecer?

Desapareceremos permanentemente porque todas as espécies se extinguirão cedo ou tarde. Um animal grande como nós pode durar alguns milhares a milhões de anos antes de começar a estagnar ou ter problemas com o meio ambiente. Sabemos que, na história, os seres humanos passaram por algumas catástrofes por razões ambientais ou por uma epidemia, como a que estamos sofrendo hoje, e não havia mais de 10 mil seres humanos vivos, mas pouco a pouco a sociedade voltou.

O que acha sobre a atual emergência de saúde?

A natureza não continuará permitindo o desequilíbrio gerado pelos seres humanos. Essa pandemia está nos ensinando como a natureza funciona e não será a última vez. Mas precisamos lidar com a situação da maneira correta, ouvindo nossos cientistas e médicos.

Quais outros perigos a humanidade enfrenta hoje?

Estamos enfrentando um momento em que nenhum ser humano jamais viu, que é uma concentração de quase 420 partes por milhão de dióxido de carbono na atmosfera. A última vez que ocorreu a mesma taxa, os mares estavam quase 30 metros mais altos do que agora. A temperatura média mudará nossos ecossistemas de maneiras que nunca experimentamos na história de nossas espécies. Ainda não sabemos se podemos nos adaptar ou se podemos encontrar uma maneira mágica ou tecnológica de nos salvarmos da situação. Existem várias pessoas que tentam, mas a natureza está realmente no comando. Até agora, estamos piorando a situação e não melhorando.

O que poderia acontecer se os seres humanos fossem extintos?

Parte do que descrevi naquele livro, ainda em 2007, teria que ser modificado hoje porque já aumentamos a proporção de dióxido de carbono na atmosfera. Propus no livro, por coincidência, que o leitor deveria imaginar que um vírus que ataca especificamente seres humanos nos mataria, deixando o resto do mundo intacto e havia duas perguntas: quanto tempo levaria para a natureza apagar não apenas nós, mas também nossos traços na Terra? E quanto tempo levaria para terminar nossos prédios, cidades, infraestrutura, tudo e voltar a ser selvagem? Mas a outra pergunta é se o que deixaríamos para trás, continuaria a influenciar o mundo, mesmo sem nossa presença.

Poderia nos dar um exemplo?

Um grande exemplo disso é a mudança atmosférica atual e a mudança marinha, porque os mares estão se tornando mais ácidos devido à absorção do dióxido de carbono. Ainda não sabemos até onde vai chegar, mas levará muito tempo para trazer os níveis de dióxido de carbono de volta aos níveis pré-industriais. Isso significa que as plantas e organismos marinhos terão que se adaptar. Alguns morrem porque já estão no limite do calor capazes de suportar ou de níveis de dióxido de carbono que podem tolerar. No entanto, devemos lembrar que durante o período dos dinossauros, o Jurássico, havia cerca de cinco vezes mais dióxido de carbono dissolvido na atmosfera e, apesar disso, o mundo era muito produtivo e os mares estavam muito vivos. Algumas espécies poderão resistir e sua evolução simplesmente girará para responder às mudanças que já começaram.

O que poderia acontecer com as cidades?

Entrevistei centenas de pessoas, cientistas, engenheiros, biólogos, ecologistas e eles me explicaram que, sem manutenção, nossas cidades terminariam em menos tempo do que poderíamos pensar. Dei o exemplo de Nova York, onde há metrô, mas o metrô fica embaixo de uma ilha onde, antes da chegada dos europeus, era um lugar que caía muita água. Os engenheiros que fizeram o mapa do que hoje é Manhattan esmagaram todas as colinas e enterraram todos os rios, mas isso não significa que não há mais água. Pelo contrário. Continua chovendo e, atualmente, Nova York possui mais de 80 bombas que operam 24 horas por dia para pegar a água do metrô e despejá-la no mar. Ou seja, algumas coisas durarão mais, mas a natureza nos moverá em pouco tempo.

A Terra será um planeta melhor sem nós?

Muitas pessoas me perguntam se considero os seres humanos um vírus no planeta ou uma espécie de câncer. Minha opinião pessoal, junto a dados científicos, é que a natureza é muito imparcial em relação a nossa espécie. Todas as que vivem na Terra o impactam, é claro que você nunca viu uma espécie como a nossa. No entanto, eu, sendo um Homo sapiens, não quero que minha espécie desapareça. Causamos muitos danos neste planeta, mas também acrescentamos muita beleza: fazemos música, criamos arte e o amor é tão bonito. Em apenas um século, os humanos quadruplicaram. Nenhuma espécie grande no mundo cresceu tão rápido e isso aconteceu graças a duas invenções: a medicina e a agricultura modernas, que nos permitem crescer mais. Isso torna nosso impacto tão concentrado a ponto de se tornar um desequilíbrio.

Existe uma maneira de equilibrar seres humanos e natureza?

Se pudéssemos retornar ao equilíbrio com a natureza, não tenho nada contra a presença de humanos aqui na Terra. Antes da comercialização do nitrogênio sintético para acelerar a agricultura, éramos 2 bilhões de pessoas e todos vivíamos mais ou menos organicamente.

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