Entregadores de aplicativos pedem melhores condições de trabalho em nova greve neste sábado

Por Victoria Bechara - Metro Jornal*

Entregadores de aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats organizam, neste sábado (25), o "Breque dos Apps" na cidade de São Paulo, uma greve por melhores condições de trabalho.

No dia 1º de julho, centenas de entregadores se reuniram em motos e bicicletas para uma manifestação que durou sete horas e bloqueou as principais vias na capital paulista. Nas redes sociais, pediam que as pessoas não fizessem pedidos na data. Outros protestos foram registrados no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador.

No dia 14, os entregadores fizeram outro protesto, em frente a Câmara Municipal, com menos adesão. Sem reação ou resposta das empresas, os trabalhadores resolveram fazer outra greve. Neste dia, eles pedem que os clientes também não façam pedidos pelos aplicativos.

Um dos porta-vozes da categoria, Douglas Marta, conhecido como Mineiro, veio de Serra Azul de Minas (MG) em 2010. Na capital paulista, entrou para os aplicativos em 2017, onde trabalha de dez a doze horas por dia. Foi a saída que encontrou após perder o emprego em uma empresa privada. "Muitos trabalhavam atrás de uma mesa de escritório e foram mandados embora, a única coisa que sobrou foi isso. Ou eu trabalho de motoboy de delivery ou eu fico sem comer em casa", afirma.

As reivindicações são as mesmas do primeiro breque. Os entregadores exigem o aumento do valor por quilômetro, aumento da taxa mínima, fim dos bloqueios indevidos, seguro de roubo, acidente e vida e auxílio pandemia, com distribuição de EPIs e álcool gel. Além disso, os entregadores também reivindicam o fim do esquema de pontuação da Rappi, que acaba diminuindo a nota de quem recusar uma entrega.

"A gente não está aqui pedindo CLT, a gente não está pedindo um absurdo", diz Mineiro. O desejo é que recebam, no mínimo, R$ 8,00 a cada 3 km.

Paulo Galo Lima, líder do movimento Entregadores Antifascistas, diz que os entregadores recebem, em média, 1 real por quilômetro, seja de moto ou bicicleta. "Mas isso é ilusório. Se eu estou na Vila Madalena e pego um pedido em um restaurante do Itaim Bibi para entregar em Moema, a gente ganha pelos kms do restaurante até Moema. Só que além disso eu percorri 4 km para chegar até o restaurante, 5 km para entregar o pedido e vou ter que voltar mais 9 km para o meu destino de origem. Eles contam só do restaurante até o cliente", explica.

Os Entregadores Antifascistas não organizam o breque, mas vão aderir a greve e comparecer à manifestação. O movimento tem as mesmas pautas dos outros motoboys, mas defende também outros direitos, como piso salarial, adicional de insalubridade, adicional noturno, férias e FGTS.

Bloqueios indevidos

Além das taxas baixas, os entregadores afirmam que, muitas vezes, são bloqueados dos aplicativos em definitivo ou temporariamente, os chamados bloqueios brancos.

Galo foi uma das vítimas do bloqueio, após dar uma entrevista sobre as condições de trabalho dos entregadores, no início de abril. Sem poder trabalhar como motoboy, ele agora tem que se virar para se sustentar de outras formas. "Fui bloqueado oficialmente pela Uber e sofri bloqueio branco na Rappi e iFood, aí a gente fica de castigo temporário, param de mandar pedido", relatou. Ele afirma que, após o primeiro breque, os bloqueios brancos aumentaram e a demanda caiu para alguns entregadores.

Segundo Mineiro, os bloqueios também podem ocorrer em caso de acidente. "Hoje a gente é bloqueado sem direito a defesa alguma. Caso sofra um acidente, a primeira coisa é mandar uma foto para o aplicativo para comprovar. Se eu estiver impossibilitado de fazer a entrega, alguns aplicativos te bloqueiam por um mês, mesmo se você puder trabalhar antes disso. Se você disser que o acidente te deixou impossibilitado de trabalhar por seis meses, bloqueio total da conta. Eles não te dão auxílio nenhum, te bloqueiam", relata.

Pandemia

Com o isolamento social por conta da pandemia de covid-19, o número de pedidos nos aplicativos de delivery aumentou. No entanto, a mão de obra dos aplicativos também cresceu. "Antigamente, demorava meses para ser aprovado no app, hoje demora uma semana", diz Mineiro. "A pandemia trouxe esse pessoal a mais para a rua. Muitos que estão ali em cima da moto são pais de família e trabalham 12, 14 horas seguidas. O aplicativo não pensa nisso", completa.

De acordo com o SindimotoSP (Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipal do Estado de São Paulo), o número de entregadores na capital paulista e na Grande São Paulo aumentou 20% desde o início da pandemia. No entanto, segundo uma pesquisa da Remir (Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista), 59% dos entregadores passaram a ganhar menos.

"Eu tenho o dever de trazer o pão de cada dia para casa. Há três anos atrás, eu entrava em casa com a consciência limpa que eu, mesmo como entregador, conseguiria pagar todas as minhas dívidas, sem me preocupar com a minha saúde e meu bem estar. Com a pandemia, com tudo parado, começaram a aceitar mais entregadores, pais de família, mães de família, adolescentes, para ganhar uma mixaria", defende Mineiro.

"Então eu peço só um pouco de consciência para os grandes diretores, os donos dos aplicativos. Que o governo dessa vez nos ouça e os apps também", completa.

O que dizem as empresas

Em nota, a Rappi e o iFood declararam que respeitam o livre direito à manifestação.

O Uber Eats informou que todos os ganhos estão disponíveis "de forma transparente" para os entregadores parceiros no próprio aplicativo, com a taxa e valor correspondente. "Os valores pagos pelo consumidor para cada entrega são determinados por uma série de fatores, como a hora do pedido e distância a ser percorrida", diz a empresa.

"O sistema de avaliações dos parceiros, feitos pelos usuários, é a maneira mais prática e eficaz de mensurar a qualidade do serviço que está sendo prestado. Parceiros com sucessivas avaliações negativas podem, inclusive, ter as contas desativadas da plataforma. Parceiros que descumprem os Termos de Uso da plataforma (por exemplo, com seguidos cancelamentos injustificados, denúncias de extravio de pedidos ou tentativas de fraude) também estão sujeitos à desativação".

O Uber Eats diz ainda que as ações contra a covid-19, como assistência financeira para entregadores e reembolso de álcool em gel, podem ser conferidos no site.

O iFood informou que "já atende à maioria das reivindicações feitas pelo movimento dos entregadores" e que opera com valor mínimo de entrega de R$ 5,00, independentemente da distância percorrida, além de distribuir equipamentos de proteção individual.

A empresa alega que repassou o valor de R$ 30,00 aos entregadores para compra de materiais e que oferece seguros de vida e contra acidentes. "O iFood reconhece que há muito a ser feito e continua, como sempre esteve, aberto ao diálogo", diz o comunicado.

Já a Rappi informou que o valor do frete varia de acordo com o clima, dia da semana, horário, zona da entrega, distância percorrida e complexidade do pedido. A empresa afirma que quase metade dos entregadores parceiros passam menos de 1 hora por dia conectados no app. Os trabalhadores, no entanto, dizem trabalhar mais de dez horas por dia em diferentes aplicativos.

A empresa afirmou ainda que, antes da pandemia, eram realizados grupos para manter um diálogo aberto com os entregadores parceiros. "A Rappi também oferece, desde o ano passado, seguro contra acidente pessoal, invalidez permanente e morte acidental. Todos os entregadores parceiros que estiverem em pedido da Rappi estão automaticamente assegurados", diz.

A Rappi também disse que desenvolveu protocolos de proteção, tais como entrega sem contato, distribuição de máscaras e álcool em gel, faixas de distanciamento e sanitização de carros, motos, bikes e bags. "Criamos também um fundo para apoiar financeiramente entregadores com sintomas ou confirmação da covid-19 durante 15 dias e, mantendo a transparência, delegamos a administração desse fundo para a Cruz Vermelha Brasileira", diz a nota.

Em relação ao esquema de pontuação, a empresa afirma que criou o programa "visando aqueles que prestam um melhor nível de serviço, para que os entregadores parceiros com um maior número de pontos possam ter preferência para receber pedidos." A Rappi negou que bloqueie os entregadores indevidamente e afirmou que bloqueios na plataforma são restritos ao não cumprimento dos Termos e Condições. A empresa diz ainda que há um canal – dentro do aplicativo do entregador – para rever cada caso.


*com supervisão de Luccas Balacci.

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