No Brasil, mães de jovens mortos pela PM travam luta solitária por justiça

Mulheres formaram rede de apoio que incentiva a denunciar casos de brutalidade policial

Por Victoria Bechara - Metro

"Por que o senhor atirou em mim?" Foi o que disse Douglas Rodrigues, de 17 anos, pouco antes de morrer em 27 de outubro de 2013, baleado por um policial militar no Jardim Brasil, zona norte de São Paulo. Sete anos depois, a mãe, Rossana de Souza, ainda luta por justiça no caso.

Era um domingo de folga e o estudante passava com o irmão, de 13 anos, em frente a um bar. Foi nesse momento que o disparo ocorreu. Na época, os PMs alegaram que foram atender uma ocorrência de som alto na rua e que, ao descerem da viatura, a arma disparou acidentalmente. Testemunhas relataram que os policiais já chegaram atirando.

Douglas foi levado ao hospital, mas não resistiu. "O médico disse que o tiro foi muito certeiro, dividiu o coração dele em dois", diz Rossana. Ela conta que o filho acordava às 4h, de segunda a sexta-feira, para trabalhar numa lanchonete. Às 18h, ele ia para a escola. Quando foi baleado, faltava pouco mais de um mês para terminar o ensino médio.

Na época, o caso repercutiu na mídia. Uma página com a frase "Por que o senhor atirou em mim?" foi criada nas redes sociais. Moradores do bairro fizeram protestos, queimaram ônibus e latas de lixo. O policial envolvido, Luciano Pinheiro Bispo, foi autuado em flagrante por homicídio culposo e preso administrativamente por uma semana.

Protesto - zona leste Protesto pela morte de Douglas / Reprodução/Facebook

De acordo com a SSP (Secretaria de Segurança Pública), Luciano Bispo foi demitido da Polícia Militar em setembro de 2014. Em dezembro de 2016 – três anos depois – o PM foi absolvido pela Auditoria Militar do Estado. A Justiça alega que foi comprovado que não houve intenção de matar. O promotor disse a Rossana que um armeiro "provou por A mais B que a arma pode disparar com um simples chacoalhão."

Frustrada com a decisão, a mãe conta que não desistiu e entrou com um processo contra a fabricante da arma há mais de um ano. "Se a empresa provar que aquela arma não tinha defeito, eu tenho como reabrir o processo criminal", afirma.

"A nossa justiça aqui é muito lenta. Para a gente que é pobre e não tem condição de pagar um bom advogado, o processo fica lá parado. A nossa justiça foi feita para quem tem poder. Aquela farda dá poder para o policial fazer o que bem quer", diz Rossana. "Eles matam os nossos filhos com o nosso dinheiro. Aquela bala que mata o nosso filho, é comprada com o nosso imposto. Um pacote de arroz que a gente compra."

'Todas as imagens das câmeras desapareceram'

Gilvania Gonçalves Gilvania Gonçalves / Arquivo Pessoal

O caso de Rossana tem bastante em comum com o de Gilvania Gonçalves, que teve o filho Guilherme, de 20 anos, morto por policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) em 17 de dezembro de 2017.

Ele tinha acabado de tirar a CNH e a família começava a se organizar para ajudá-lo a comprar um carro. O jovem queria trabalhar como motorista de aplicativo para pagar a sonhada faculdade de engenharia. Em um domingo, Guilherme levantou, ajudou a mãe nas tarefas de casa e saiu para encontrar um amigo. "Ele abriu o portão e olhou para mim. Isso é muito vivo na minha memória, foi a última vez que eu vi meu filho", conta Gilvania.

Guilherme foi baleado por agentes da Rota na frente de um açougue em Itaquera, zona leste da capital paulista. Na versão dos policiais, eles receberam uma denúncia de assalto ao local e, quando chegaram, o jovem estaria tentando abrir a porta do estabelecimento. Os agentes afirmam ainda ele teria corrido com uma arma em punho e atirado.

O sargento Alexandre Alves Pereira atirou uma vez e o soldado José Teixeira Almeida Neto deu mais dois tiros. Guilherme foi atingido. Nenhum dos policiais ficou ferido.

Gilvania conta que o exame constatou que não havia resquício de pólvora na mão do filho, o que comprova que ele não atirou. "Automaticamente, todas as imagens das câmeras do local desapareceram. De todas as câmeras da rua. Se mostrarem na câmera meu filho atirando, eu acredito. Caso o contrário foi tudo forjado", diz.

A Secretaria de Segurança Pública informou à reportagem que o caso foi apurado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), que concluiu as investigações e enviou inquérito para apreciação do Poder Judiciário em 6 de março de 2019. O caso agora está no Tribunal de Justiça Militar de São Paulo. Atualmente, os PMs envolvidos atuam no 1º Batalhão de Choque da Rota.

Rossana e Gilvania chegam à mesma conclusão: os filhos foram mortos por serem pretos e da periferia. "Olha que absurdo o jeito que a polícia trata um pobre preto e o jeito que trata um empresário. Eu queria muito que olhassem para nós, negros, da periferia, como ser humano, como gente. Até hoje quando eu vejo uma sirene de polícia, eu fico com medo, mas não porque a gente deve, mas porque a gente é preto", desabafa Gilvania.

Rede de apoio para mães

Gilvania tinha medo de sofrer represálias dos policiais caso denunciasse, mas foi incentivada por Solange Oliveira, que também perdeu o filho por uma bala da polícia paulista.

Em março de 2015, Victor foi morto por um policial civil em uma "saidinha" de banco em Perdizes, na zona oeste. O agente alega que o jovem estava armado. "Como eu nasci e me criei na periferia, eu sei muito bem que os policiais sempre alegam isso", conta Solange.

Depois de mais de dois anos insistindo, a mãe conseguiu ver as imagens de uma câmera da rua. O vídeo mostra que Victor tentou correr e caiu. Quando já estava no chão, o policial deu três tiros. O atestado de óbito mostra: face, ombro e lombar.

Victor Oliveira Victor Oliveira, 20 anos / Arquivo pessoal

Solange publicou o vídeo nas redes sociais e, a partir disso, começou a ouvir outras histórias e ajudar mães que passavam pelo mesmo. Ela as acompanha na delegacia, no IML e incentiva a fazer a denúncia. Hoje, ela, Rossana e Gilvania fazem parte do coletivo "Mães em luto da zona leste", uma rede de apoio para mulheres que perderam os filhos para a violência policial e encaram a luta solitária por justiça.

"Meu filho não estava certo, mas ele também tinha os direitos de pagar o erro dele. Que ele fosse preso, e não executado da forma que foi. O papel da polícia é levar pra delegacia, e não matar. Antes preso do que morto", diz Solange.

De acordo com a SSP, o caso foi arquivado por decisão da Justiça e o policial envolvido, André Pereira dos Santos, respondeu a um procedimento administrativo e não integra o quadro de funcionários da corporação desde 2016.

"A maioria dos casos são arquivados. É o estado investigando o estado. Como?", questiona. "O homem matou, mas a caneta do promotor também mata. O caso está na OEA (Organização dos Estados Americanos). Quando é arquivado, a gente manda pra fora, pra que não caia no esquecimento e não seja mais um número", afirma Solange.

"Através da minha dor, eu estou nessa de ajudar outras mães. Nós, que perdemos os filhos dessa forma, temos que fazer a denúncia sim", diz Gilvania. "Aqui na zona leste, morrem jovens sempre, mas não são vistos. Até se naturalizou: 'morreu mais um moleque'. Só esses casos como dos Estados Unidos, que são filmados, têm repercussão. Mas aqui na periferia, morrem jovens negros a todo instante."

No primeiro trimestre de 2020, a Polícia Militar do Estado de São Paulo matou uma pessoa a cada oito horas, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. É o maior índice desde que a pasta passou a divulgar os dados, em 1996.

Em nota, a SSP afirmou que trabalha para reduzir os casos de morte decorrente de intervenção policial e que todas as ocorrências do tipo são investigadas por inquérito policial pela Polícia Civil, pelos batalhões das áreas, pelo DHPP, pelas Corregedorias e comunicadas ao Ministério Público.


*Com supervisão de Luccas Balacci.

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