As acusações de Sergio Moro a Bolsonaro no seu discurso de renúncia

Por Metro Jornal

Em um discurso de cerca de 40 minutos nesta sexta-feira (24), Sergio Moro resumiu sua trajetória até o ministério da Justiça e Segurança Pública, elencou os feitos da pasta sob seu comando e fez acusações graves ao presidente Jair Bolsonaro que, segundo ele, teriam culminado em sua saída do governo federal.

A renúncia de Moro acontece um dia após a exoneração do Diretor-Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, considerado braço-direito do então ministro, por Bolsonaro. A medida foi publicada no Diário Oficial da União desta sexta. No pronunciamento, o ex-juiz federal disse que a troca de Valeixo por outro nome não seria um problema, desde que houvesse justificativa plausível para a ação.

Para justificar o pedido de demissão, Sergio Moro fez uma série de acusações contra o presidente da República. Jair Bolsonaro fez um pronunciamento, ao lado de seus ministros, para se defender das denúncias de Moro. Confira o lado dele ao fim da reportagem.

Bolsonaro teria aceitado pagar pensão para família de Sergio Moro

"No final de 2018 eu recebi o convite do então eleito presidente da República Jair Bolsonaro para ser ministro. O que foi conversado é que nós teríamos um compromisso com o combate à corrupção, o crime organizado e a criminalidade violenta. Foi me prometido na ocasião carta branca para nomear todos os assessores, como Polícia Rodoviária Federal e Polícia Federal.

Tem uma única condição que eu coloquei, não ia revelar, mas agora manter o segredo não faz mais sentido. Eu disse que como estava abandonando 22 anos da magistratura, contribuí 22 anos da previdência, e perdia saindo da magistratura, […] pedi que a minha família não ficasse desamparada sem uma pensão. Foi a única condição que eu dei para assumir essa posição no ministério da Justiça. O presidente concordou com essa condição."

Bolsonaro insistia pela troca do Diretor-Geral da Polícia Federal

"Em todo esse período, tive apoio do presidente Bolsonaro em vários projetos, outros nem tanto. Mas a partir do segundo semestre do ano passado, houve uma insistência do presidente da troca do comando da Polícia Federal. O grande problema de realizar essa troca é que haveria uma violação da promessa de carta branca e em segundo lugar não haveria causa para essa substituição e estaria ocorrendo uma interferência política na Polícia Federal."

Troca do Diretor-Geral da Polícia Federal seria interferência política

"Afirmei ao presidente que seria uma interferência política, ele afirmou que seria mesmo. […] O presidente me disse, mais de uma vez, que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele, que ele pudesse ligar, obter informações, relatórios de inteligência. E realmente não é o papel da Polícia Federal de prestar esse tipo de informações, elas devem ser preservadas."

Exoneração de Valeixo não teria sido "a pedido", como publicado no Diário Oficial

“Eu fiquei sabendo pelo Diário Oficial, pela madrugada. Não assinei esse decreto e em nenhum momento isso foi trazido. Em nenhum momento o Diretor-Geral da Polícia Federal apresentou um pedido formal de exoneração. Depois ele [Valeixo] me comunicou que, ontem a noite ele recebeu uma ligação dizendo que ia sair exoneração ‘a pedido’ e se ele concordava. Ele disse ‘como é que eu vou concordar com alguma coisa? Eu vou fazer o quê?’. O fato é que não existe nenhum pedido que foi feito de maneira formal, eu sinceramente fui surpreendido, achei que isso foi ofensivo.”

Lado de Bolsonaro

Em coletiva, o presidente Jair Bolsonaro criticou a gestão da Polícia Federal por não priorizar a investigação da tentativa de homicídio contra ele, quando ainda era candidato à presidência, em setembro de 2018. Ele negou também ter pedido alguma vez proteção para a Polícia Federal ou informações sobre investigações em andamento.

"Falava-se em interferência minha na Polícia Federal. Se eu posso trocar um ministro, porque não posso trocar um diretor da Polícia Federal? Não tenho que pedir autorização para ninguém. Será que é interferir na Polícia Federal quase que exigir que Sergio Moro apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A Polícia Federal de Sergio Moro mais trabalhou para descobrir quem matou Marielle Franco do que do seu chefe do executivo. Isso é interferir na Polícia Federal? […] Confesso que ao longo do tempo, uma coisa é você admirar uma pessoa, a outra é conviver com ela, trabalhar com ela."

Bolsonaro afirmou também que Maurício Valeixo teria sim pedido demissão do seu cargo como Diretor-Geral da Polícia Federal, conforme publicado no Diário Oficial. "Ontem, em uma videoconferência, o Valeixo se dirigiu aos seus 27 superintendentes e disse que desde janeiro falava com o Sergio Moro sobre deixar a Polícia Federal. E eu algumas vezes falei com Sergio Moro sobre a Polícia Federal."

No discurso, o presidente ainda acusou Moro de ter ciência da troca na Polícia Federal, e teria pedido para Bolsonaro esperar até novembro deste ano, quando poderia ser indicado para o STF (Supremo Tribunal Federal). "Mais de uma vez o Sergio Moro disse pra mim. Você pode trocar o Valeixo, mas em novembro, depois de você me indicar para o STF. Me desculpe, mas não é por aí. Reconheço as suas qualidades, em chegando lá, se um dia chegar, pode fazer um bom trabalho, mas eu não troco."

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