'A nação corre o risco de se dilacerar', diz Ciro Gomes; leia entrevista

Por Metro Porto Alegre

Já no páreo para as eleições presidenciais de 2022, Ciro Gomes (PDT) defende a expulsão dos deputados da sua sigla que votarem a favor da reforma da Previdência, incluindo Tabata Amaral (SP), que vem se destacando no Congresso. Em entrevista à Rádio Bandeirantes e ao Metro Jornal, ontem, em Porto Alegre, o ex-governador do Ceará e ex-ministro não poupa críticas ao governo de Jair Bolsonaro (PSL), ao PT e ao governador paulista, João Doria (PSDB), que deve ser um dos concorrentes ao Planalto. Confira os principais trechos da entrevista aos jornalistas Sergio Stock, Oziris Marins e Maicon Bock:

Há contradições na bancada do PDT sobre a votação da reforma da Previdência. Há uma tentativa de segurar a bancada em torno de uma tese, não é?

Sim, o PDT está no melhor momento da sua história recente, desde que perdemos a grande figura de Leonel de Moura Brizola [1922-2004]. Temos a maior bancada no Congresso, mas, de qualquer forma, hoje é um dia de sofrimento porque o assédio do governo não está obedecendo nenhum limite, nem ético nem legal. 

Esse assédio são [liberações de] emendas [parlamentares]?

O que está por cima da mesa, o que se fala com clareza, já está no “Diário Oficial”, são emendas de quase R$ 2,5 bilhões. Fala-se, despudoradamente, em R$ 20 milhões para cada deputado e, evidentemente, eu me recuso a acreditar que qualquer companheiro vai aceitar isso. Mas ontem o presidente [do PDT] Carlos Lupi já teve de ir a Brasília porque alguns companheiros não estão com a devida disciplina [para votar contra a reforma]. Não é que a gente não entenda que há uma necessidade de reformar a Previdência, mas nós não somos como alguns partidos, que querem ver o circo pegar fogo para rir da cara do palhaço. Nesse caso o palhaço somos nós, o povo brasileiro. Fui o único candidato que apresentou, ainda na campanha, uma proposta de reforma. Só que há reformas e reformas. O caminho que o Bolsonaro escolheu faz com que R$ 83 de cada R$ 100 do sacrifício que vai se impor à sociedade brasileira, pesem nas costas de quem ganha até R$ 2 mil de salário. Enquanto isso, por exemplo, sem deixar de respeitar, os militares, que custam R$ 47 bilhões por ano aos cofres da Previdência, contribuem com apenas R$ 3 bilhões e se aposentam praticamente todos com 55 anos. 

O PDT vai expulsar quem votar a favor da reforma?

Sim, eu defenderei isso.

O partido poderia mandar embora bons quadros, como a Tabata Amaral (SP)…

Quem recrutou a Tabata fui eu. Dói muito no meu coração. Mas, infelizmente, ela tem opção, uma garota de 25 anos. Eu tenho muita esperança que ela não cometa esse erro, que será um erro basicamente mortal para ela. Vamos votar para privilegiar rico, contra os pobres e trabalhadores? Isso nega a própria história do trabalhismo.

Como o sr. avalia os primeiros seis meses do governo Bolsonaro?

É cedo para estabelecer uma sentença e dizer se é um governo ruim, um governo que não presta etc. Vamos ser honestos: Bolsonaro recebeu uma herança absolutamente maldita. O Brasil foi destruído no desgoverno da Dilma e nas contradições do PT. Não é tarefa simples nem fácil para ninguém. Se eu mesmo fosse o presidente da República teria que ter essa compreensão da população brasileira. Agora, se a responsabilidade por construir a tragédia brasileira não é do Bolsonaro, e de fato não é, é dele e somente dele a responsabilidade de corrigir. E aqui está o problema: o Bolsonaro dissipou, como nenhum outro presidente na história do Brasil, o capital político mágico que resulta da eleição. O Bolsonaro jogou isso fora em menos de seis meses. É hoje o presidente, no período de avaliação de seis meses, de pior nível de confiança popular. O diagnóstico do problema, aí não é culpa dele, mas do despreparo dele sim, é errado. O consumo das famílias é o maior motor de atividade econômica. Se as famílias consomem, o comércio vende. Daí encomenda da indústria, que compra matéria-prima, e assim a roda do mercado funciona. Pois bem, o consumo das famílias está colapsado pelo desemprego aberto, pela informalidade brutal e pelo crédito colapsado. E ele nada, nenhuma iniciativa tomou. Hoje, sete em cada dez estão endividadas. São 63,2 milhões de pessoas com o nome sujo, humilhadas, 5,7 milhões de micro e pequenas empresas estão a caminho da falência e a desindustrialização é devastadora.

E o que poderia ser feito, neste momento, para motivar a economia?

No caso do consumo das famílias, não tem como gerar emprego e salário antes. Então, o que você pode fazer: reestruturar o crédito. É simples de fazer. Para os grandões no Brasil se faz uma vez por ano, o chamado Refis, que é dinheiro público que a pessoa deve, não paga e renegocia com desconto de 90% das multas e correção monetária, e se parcela em 300 vezes o saldo. Qual o problema de o Banco do Brasil e da Caixa entrarem nessa parada com a força do governo, trazer esse desconto para si e parcelar o saldo em 12, 20, 24 vezes, restaurando a condição do crédito das famílias brasileiras e das micro e pequenas empresas?

Não tem foco, então, a gestão do ministro da Economia, Paulo Guedes?

Sabe que, quando você tem um diagnóstico errado, o remédio sai errado. A reforma fiscal brasileira simplesmente não está compreendida. Hoje, o buraco na conta do governo é de R$ 140 bilhões e eles estão mentindo, descaradamente, que a reforma da Previdência vai resolver o problema. Isso vai ser a maior ressaca política da história da nação. Sabe o que vai acontecer no dia seguinte à aprovação, e tudo indica que vai? Nada. Em matéria de efeito fiscal e de emprego para o povo: nada. Mentira simples e pura. Aí vão inventar outra, que precisa fazer a reforma tributária. É evidente que é necessária, mas qual? É uma que faça com que o sistema tributário cobre mais dos ricos e menos de quem produz e trabalha? Essa é uma que não vai sair desse governo porque o Guedes pensa o oposto.

Num artigo recente, o sr. escreveu: “Na versão do governo, a reforma vai resolver todos os problemas do Brasil, criar empregos e reduzir a dívida pública. Uma mentira que terá perna tão curta quanto o que, acredito, terá o governo Bolsonaro.” O sr. acha que ele não encerra o mandato?

Isso é um mero palpite, mas vejo com muita dificuldade o Bolsonaro transitar quatro anos, ou seja, mais três anos e meio, com esse nível de energia negativa e contradição que hoje a sociedade brasileira está vivenciando. Em vez de desarmar, ele agudiza todo dia.

Como o sr. vê os vazamentos do The Intercept, o desgaste do ministro da Justiça, Sérgio Moro?

Isso é um sinal da confusão que o Brasil está vivendo. O que está dito revela o que já era minha sensação antiga: o Sérgio Moro nunca foi um juiz. Moro é um politiqueiro acanalhado. Sei quantas pessoas se zangam em ouvir isso, mas é só esperar o tempo passar mais um pouco. Nenhum país do mundo sério admitiria a imoralidade insanável de um juiz condenar um político – e olha que o Lula não tem nada de inocente. Mesmo o pior bandido, e não é o caso, tem direito a ser julgado de forma isenta. Sabe qual é a consequência das imprudências do Moro? O processo do Lula vai ser anulado.

O sr. não esconde o desejo de concorrer novamente à Presidência em 2022. Como será sua atuação para se manter ativo nas discussões do país até lá?

Eu não gostaria mais de ser candidato, mas tenho duas forças me empurrando para a quarta vez. Primeiro, o meu partido, o PDT, anuncia que sou candidato. A segunda é que eu sou muito indignado com as coisas do Brasil e estou profundamente angustiado com os desdobramentos potenciais disso. Acho que a nação brasileira, pela primeira vez desde que nos emancipamos de Portugal, corre o risco de se dilacerar. Alguém pode achar que é exagero, mas se você não tem os laços que nos reúnem, que nos fazem ter o orgulho de sermos da mesma raça, da mesma gente, falarmos a mesma língua, partilharmos dos mesmos valores, começamos a esgaçar o tecido nacional. E isso está começando pela elite brasileira, que não se sente comprometida com a sorte do nosso povo.

O sr. está preparado para enfrentar Doria em 2022?

Eu quero muito. Esse é o pior farsante que a política brasileira… Aliás, São Paulo tem dado ao Brasil políticos pra lascar.


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