Rompimento da barragem da Pampulha, em Belo Horizonte, completa 65 anos

Por Lucas Morais - Metro Belo Horizonte

Há 65 anos, o rompimento da barragem da Pampulha mudou a rotina da jovem capital. Em apenas três dias, as pequenas infiltrações se transformaram em uma fenda que liberou cada vez mais água da represa.  O prefeito Américo Renné Giannetti e o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, tentaram tranquilizar a população, mas os técnicos decidiram abrir as comportas da lagoa, paralisar as operações do aeroporto e retirar famílias que viviam abaixo da estrutura, nos bairros Aarão Reis, Capitão Eduardo, Matadouro e São Paulo. No dia 20 de abril de 1954, ocorreu o rompimento.

Em poucos minutos, o ribeirão Pampulha e o córrego do Onça se transformaram em um rio que levou tudo que existia pela frente.  Para investigar as causas do desastre, uma comissão composta por cinco engenheiros foi criada. Inicialmente, foi constatado que todos os projetos técnicos referentes à construção da barragem desapareceram e apenas três das inúmeras plantas foram localizadas – uma no arquivo da prefeitura, outra em um escritório de engenharia e a última no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas.

rompimento da barragem da Pampulha Belo Horizonte Prefeito Américo Renné e governador JK verificam situação da barragem com técnicos dias antes do desastre na capital / Arquivo Público de Belo Horizonte

Sem as informações, os profissionais tiveram que recorrer aos engenheiros Ajax Rabello e Álvaro Andrade, que participaram das obras. “Os laudos apontaram para um problema que tinha na lagoa, não teve uma personificação dessa culpa”, aponta o historiador Yuri Mesquita.  A conclusão: as obras não respeitaram o projeto inicial.

A urgência pela reconstrução da estrutura mobilizou políticos para evitar uma desvalorização da região. Poucos meses depois, um anúncio publicado pela Empresa Nacional de Imóveis e Obras trazia o edital para as intervenções. “Com verbas de cem milhões de cruzeiros para reconstrução da barragem em concreto, com duas pistas, alargamento da avenida marginal, saneamento completo de bacia hidrográfica, a mundialmente conhecida Pampulha, o bairro residencial mais aprazível de Belo Horizonte, contará com todos os requisitos para seus habitantes e será um dos maiores balneários do Brasil”, dizia. Em quatro anos, a barragem foi recuperada e a lagoa estava completamente cheia.

Ainda de acordo com o historiador da Secretaria Municipal de Política Urbana, na época a cidade vivia um intenso processo de metropolização, com “boom” populacional e ruas que começavam a ser tomadas pelos automóveis. “Muitas novidades tecnológicas chegavam em Belo Horizonte, mas também era um período em que a capital não estava preparada para a quantidade cada vez maior de pessoas. Havia uma série de questões, como falta de água, esgotamento sanitário, problemas em acolhimento de animais e transmissão de muitas doenças. Começou a ter efeitos também de poluição”, apontou.

Famílias desabrigadas

Mesmo com a dimensão do rompimento, que provocou inundações até no rio das Velhas, não houve nenhuma morte ou ferido. Porém, dezenas de famílias ficaram sem suas casas e a contaminação das águas levou à transmissão de doenças. “Os atingidos foram acompanhados e teve toda uma mobilização em torno da saúde pública. Todo um problema social trabalhado pelo governo, quando a prefeitura ainda se estruturava”, explicou o historiador.

Servidor do Executivo na época, o engenheiro Dalmo Vianna, hoje com 91 anos, disse que até o presidente do Brasil, Getúlio Vargas, visitou a capital no dia seguinte e ofereceu recursos. “Tentamos muita coisa, colocamos um sifão, mas não deu tempo. A barragem abriu antes e provocou todo esse estrago”, relembra o aposentado.

Superstição por trás do colapso

Na época com 11 anos, o aposentado Toninho Andrade lembra que “nunca viu tanta água na vida” e considerou a década de 1950 um período difícil para a cidade. “O pessoal ficou apavorado, já que a lagoa já vivia tempos sombrios. De vez em quando encontravam carros dentro”, contou. No boca a boca entre moradores, a causa da tragédia era uma só: a ‘maldição da Pampulha’. Anos antes, a proibição dos jogos de azar provocou o fechamento do recém-inaugurado cassino, que levou novos tempos para a lagoa a partir de 1943.

No mesmo período, o arcebispo de Belo Horizonte, Dom Cabral, se recusou a abençoar a igrejinha da Pampulha por considerar que a obra de Oscar Niemeyer “não fica bem” para um templo. Fora tudo isso, as águas da represa foram tomadas por caramujos que levaram a uma epidemia de esquistossomose – o número era tão grande que nas margens eles se acumulavam por mais de um metro. A sequência de fatores negativos levou a população a acreditar em uma “praga” criada pelas famílias que foram desalojadas para a construção da barragem, em 1936.

“A capital mineira sempre conviveu com mitos e até questões sobrenaturais para explicar determinada situação. Era uma época em que a cidade crescia rapidamente, os cenários eram modificados constantemente, com muitos problemas, como doenças e o fechamento do cassino. A Pampulha já tinha um status naquela época”, contou o historiador Yuri Mesquita.


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