100 dias de governo Doria

Por Metro Jornal

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), completa hoje cem dias à frente do Palácio dos Bandeirantes deixando clara a sua política de priorizar a segurança pública e de enxugar a máquina no estado de São Paulo, mas se movimentando também nos debates da política nacional, onde nutre um indisfarçável desejo de ser protagonista.

Nestes primeiros cem dias – do qual fará balanço em evento na manhã de hoje –, Doria colocou em prática o seu discurso de reforçar as ações de segurança e de enfrentar o crime organizado. O tucano negociou para levar os líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) para presídios federais, investiu em ações ostensivas e homenageou policias.

Além disso, iniciou o processo para conceder e privatizar bens do governo do estado e precisou recuar no corte de gastos que estava previsto em projetos culturais.

As ações de segurança estão em sintonia não só com o discurso de campanha, mas com a política de se aproximar do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que começou ainda durante a eleição, mas que pode entrar em choque se a ambição de Doria de disputar a Presidência for colocada em marcha.

Enquanto isso, o tucano tem se colocado com um defensor da reforma da Previdência, de olho nos benefícios fiscais para o estado e também na chance de aparecer nacionalmente.

Em paralelo, tem liderado o movimento que exige a renovação do PSDB.   

O que já aconteceu no governo

Segurança
Alinhado ao discurso de tolerância zero com os criminosos, que o aproximou de Bolsonaro e colaborou com a sua eleição, Doria tem priorizado a segurança pública. Ainda antes da posse, o tucano começou a negociar a transferência para presídios federais de 22 integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) – entre eles o líder Marcola. A ordem partiu da Justiça e foi cumprida em 13 de fevereiro. O isolamento da cúpula da facção foi comemorado pelo governo, que entrou em alerta para possível onda de violência nas ruas em retaliação, que não veio. A polícia foi exaltada (e formalmente homenageada) pelo tucano nas ações durante o massacre de Suzano, onde teria impedido que os atiradores matassem mais estudantes, e no assassinato em confronto de 11 bandidos que tentaram roubar banco em Guararema.

Cultura
O contingenciamento de verbas do Orçamento, o popular corte de gastos, vale para todas as secretarias, mas tem provocado os maiores debates até aqui na área da Cultura e Economia Criativa. No domingo passado, por exemplo, artistas promoveram manifestação contra os possíveis cortes, que poderiam afetar o funcionamento de dezenas de instituições culturais, como a orquestra sinfônica e quase duas dezenas de museus. O Projeto Guri – que oferece formação musical a 64 mil jovens em 382 polos – poderia perder R$ 21 milhões e reduzir suas atividades em um terço. Diante da reação negativa da opinião pública, o corte foi revisto. Os sucessivos desgastes fizeram Doria vir a público para garantir que não haverá prejuízos na área cultural.

Transporte
João Doria herdou diversas obras paradas ou atrasadas, especialmente nas linhas de metrô e no Rodoanel norte.  Ele prometeu concluir as linhas em construção (4-Amarela, 6-Laranja, 15-Prata e 17-Ouro). Em março, o governo rompeu um dos contratos de construção da linha 17-Ouro, que era prometida para a Copa de 2014 e vai levar até o aeroporto de Congonhas. Nesta semana, ao inaugurar a última estação da linha 5-Lilás que faltava, Doria anunciou que as obras paradas devem ser concluídas em regime de concessão com a iniciativa privada. O governador anunciou ainda o Trem Intercidades – projeto ferroviário em regiões metropolitanas como Campinas, Vale do Paraíba e Baixada Santista, que vai exigir investimentos de ao menos R$ 20 bilhões.

Educação
Logo ao assumir, Doria teve um problema na área: estudantes começariam o ano letivo sem material escolar, devido a atraso de compra, e havia risco de falta de professores, porque o TJ (Tribunal de Justiça) havia proibido a contratação de temporários. Em fevereiro, os resultados do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) mostraram atraso de até três anos dos alunos no ensino de matemática, e o secretário Rossieli Soares reconheceu que era necessário acelerar o aprendizado. Outro fato que marcou a área no ano foi a mudança de cardápio na merenda escolar. O programa que levava menu elaborado pela chef Janaína Rueda saiu de cena, a oferta de alimentos in natura foi reduzida, e a de industrializados, elevada.

Desestatização
Outro pilar da política de Doria, o plano de passar serviços públicos para as mãos da iniciativa privada também já foi iniciado. O tucano enviou para a Assembleia Legislativa projetos propondo a concessão do Zoológico, do Jardim Botânico e do complexo esportivo do Ibirapuera. O plano todo teria mais de 200 itens e pode envolver até a Sabesp. A máquina também deverá ser enxugada. Logo no primeiro dia de governo, Doria já propôs aos deputados a fusão de quatro estatais – Imprensa Oficial, Dersa, Cosesp e CPOS. Em 2017, quando assumiu a prefeitura da capital, Doria também lançou um plano de desestatização, que vem andando a passos lentos e sendo muito questionado na Justiça. Os grandes projetos, como o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o complexo Anhembi, ainda estão em trâmite.

Relação Política
Tucano com maior poder político nas mãos hoje e gozando da aprovação de ter vencido duas eleições consecutivas, Doria nega, mas parece mesmo ter planos para disputar a Presidência da República já em 2022. Tanto é que tem testado sua influência para além do seu quintal. Doria está à frente do processo que vai eleger em maio a nova cúpula do PSDB e tem se empenhado na aprovação da reforma da Previdência, articulando com governadores e congressistas. A relação com o presidente Bolsonaro – com quem a sua ambição pode se chocar – tem sido de uma aproximação cautelosa, com mais ânimo nas questões econômicas. Em casa, Doria viu o PSDB se manter na presidência da Assembleia Legislativa, mas terá de equilibrar forças com o PSL, que derrubou PSDB e PT e tem hoje a maior bancada.

Foco deve  ser saúde, educação e transporte

Educação, infraestrutura e saúde são, para o professor de administração pública da FGV (Fundação Getulio Vargas) Gustavo Fernandes, as prioridades que o governador João Doria (PSDB) tem que lidar.

No caso de educação, Fernandes destaca que, “embora seja o estado mais rico da nação, São Paulo há anos não ocupa os primeiros lugares nos rankings nacionais”. E, para ele, até o momento, “não se tem registro de grande movimentação” na área no governo.

Ao mencionar infraestrutura, o especialista esclarece que se refere sobretudo ao transporte metropolitano. A área requer  pesados investimentos e o governador sinalizou que as obras paradas serão tocadas em regime de concessão à iniciativa privada, o que, para Fernandes, não é suficiente. “O volume de recursos é muito alto e não existe interesse das empresas em investir essa quantia.”

Na saúde, Fernandes avalia:  “Vejo menos atenção do governador a essa área”. Para ele, o desafio é melhorar a qualidade dos serviços.  

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