Catadores de recicláveis trafegam em veículos inseguros e até pendurados

Por Metro Jornal

É perigoso, eles sabem, mas é o que dá para fazer para a sobrevivência. Catadores de materiais recicláveis que trafegam pelas ruas em veículos malconservados e até pendurados em cima das caçambas não conseguem manter os carros “perfeitos” com seus baixos ganhos.

Um exemplo é Ailton Galdino, 45 anos, que comprou há um mês uma Kombi de outro catador. “Estou pagando R$ 6 mil nela”, conta. Com sorte, ele vai tirar

Catadores Catadores colocam material sobre carro / André Porto/Metro

R$ 100 ao final de uma semana de trabalho. Antes de comprar sua “beginha” ele dirigia outra, em muito pior estado, de outra pessoa.

Galdino lamenta não poder ter o carro em perfeitas condições, mas diz que faz o que pode com sua manutenção. “É falta de grana, mas a gente cuida com carinho.”

Na Associação de Catadores de Material Reciclável Nova Glicério (centro), da qual Galdino faz parte, veículos quebrados são “doadores de peça” para aqueles que estão rodando. Uma Kombi com o motor fundido, por exemplo, estava suspensa por uma viga de aço e sem as rodas, cedidas para outros catadores que delas precisavam. “Quando consertar o motor dela, as rodas vêm de outro lugar”, conta Galdino.

Catadores Kombi leva recicláveis na João Moura / André Porto/Metro

Os catadores dizem contar com a boa vontade dos policiais. Galdino diz: “Geralmente eles param, dizem que a gente precisa trocar uma peça ou outra, uma luz que está queimada. É difícil levar a Kombi para o pátio, eles sabem que é o nosso ganha-pão”.

Mas e a documentação, está em dia? “A maioria compra o carro, mas não passa o documento, é acordo ‘de boca’. Documento tem, mas quase sempre atrasado”, afirma Lindalva Duarte, 41. “A gente não faz por mal. Paga atrasado, mas paga. É o que dá para fazer.”

Segundo ela, o sonho de todo catador é financiar carros em melhor estado e pagar com próprio trabalho. “Assim vai melhorar a coleta, fica seguro para todo mundo”, conclui.

Catadores Caminhão com papelão passa pela rua Tutoia / André Porto/Metro

Conservação é um dos itens observados

Segundo o Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito), há três situações a serem observadas nesses veículos: estado de conservação, dimensão da carga e transporte de carga na parte externa.

De janeiro a maio deste ano, o Detran-SP diz ter aplicado 10.100 multas por mau estado de conservação de veículos na capital. Os agentes a serviço da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), por sua vez, autuaram 131 veículos por transportar cargas nas partes externas de janeiro a julho.

Catador consegue ter carros patrocinados

A inspiração e o sonho dos catadores encontram realização em Sérgio da Silva Bispo. Aos 60 anos, o soteropolitano conta que recebeu de empresários paulistanos a chance de que precisava; em 2014 fechou um acordo com o restaurante Mestiço, na Consolação (centro), que o tornou proprietário de uma Kombi novinha. Bispo pagou o veículo com um ano de trabalho. O mesmo em 2016, quando veio uma Ducato (acordo com o colégio St. Paul’s) e com a Sprinter que chegou neste ano pelo colégio Avenues.

Independentemente do modelo, todos os carros de Bispo viraram Kombosa, e são facilmente identificáveis pelos grafites coloridos que os revestem. A iniciativa agora está sendo levada para catadores de outros estados, como Paraná e Santa Catarina, e Bispo faz as vezes de palestrante. “Dizem para mim que a Kombosa virou start-up”, afirma.

Catadores Bispo ao lado de sua mais nova ‘Kombosa’ / André Porto/Metro
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