Da periferia para Harvard, Tabata Amaral foi a 6ª deputada federal mais votada de SP

Por André Vieira - Metro São Paulo

Da periferia da zona de sul da capital para a prestigiada universidade de Harvard, nos EUA, e de lá para Câmara, em Brasília. Essa é a trajetória de Tabata Amaral (PDT), 24 anos, uma das caras novas que vão representar o estado no Congresso e que alcançou a sexta maior votação entre os deputados federais eleitos por São Paulo, com 264,4 mil votos.

Filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus, Tabata começou a se destacar ainda pequena em olimpíadas de conhecimento, como matemática e física, e foi assim que ganhou uma bolsa para estudar em escola particular.

Também com ajuda, estudou inglês e foi aceita em seis universidades norte-americanas. Escolheu Harvard. Dias depois, porém, perdeu o pai em consequência da dependência química e quase abriu mão de viajar.

Não desistiu e foi para os EUA pensando em estudar astrofísica, mas voltou também com o diploma de ciências políticas, decidida a trabalhar pela educação. A educação que transformou a sua vida.

Quais experiências de vida você leva para a Câmara?
A gente tende a valorizar no Brasil muito os status, os diplomas: onde a pessoa estudou, o que estudou, onde mora. É claro que eu vou levar tudo o que aprendi e estudei, mas eu vou levar muito a vivência do dia a dia. Saber como é a vida na periferia, a escola pública, como são os ônibus. Acho que essa visão do cidadão comum é o que falta muito quando falamos de políticas públicas.

Qual o momento que mais contribuiu para a sua decisão de se candidatar?
Há um momento que fala muito sobre minha visão de mundo. Assim que fui aceita em Harvard, com bolsa completa, perdi meu pai para as drogas. Esse momento contribuiu muito para eu estar aqui. Por um lado, cheguei na melhor faculdade do mundo e ficou muito claro a diferença que a educação faz na vida das pessoas, o poder de fazer com que elas possam escolher o que quiserem. Ao mesmo tempo, não só pelo meu pai, mas pelos outros amigos que perdi para a violência, ficou tão evidente a falta que a educação faz e como a desigualdade e o preconceito matam nas periferias, e no centros. Quando você vive esses dois mundos de forma tão forte, você se sente empurrado a fazer algo.

O seu mandato terá foco na educação. Quais os acertos e os erros do país?
Um grande acerto é que se aumentou o acesso. Ainda há 2 milhões de crianças e adolescentes fora da sala de aula, não podemos ignorar, mas avançamos. A gente peca demais na qualidade. O ensino médio da rede pública permite que a maioria dos alunos saia sem saber ler e escrever plenamente e fazer frações. Quando eu falo que a gente peca, é nesse nível: do mais básico que há na educação formal. Se a gente realmente quiser virar o jogo na produtividade, no desenvolvimento, na inclusão, na Justiça, na ética, temos que lutar por educação de qualidade.

Você prega a despolitização na escolha dos diretores das escolas. Qual sua proposta?
De cada 4 cidades, em três o diretor escolar é escolhido por indicação política, sem nenhum critério. Isso é muito pernicioso para a educação. Hoje, eu não consigo passar projeto de lei determinando que municípios e estados abandonem a indicação política, seria inconstitucional. Mas o Fundeb, que é um fundo nacional e o principal motor da educação básica, vence em 2020. Teremos oportunidade única de rediscuti-lo e trazer uma proposta de um fundo que garanta qualidade com equidade Brasil afora, mas que também cobre de municípios e estados a implementação de boas práticas e o alcance de resultados. A visão que tenho é que parte desse repasse seja condicionado, por exemplo, ao fim da indicação política, ao alcance do piso salarial dos professores, a implementação da formação continuada. Temos duas alternativas já implementadas no Brasil, com sucesso: a eleição do diretor feita pela comunidade escolar e o modelo de Sobral (CE), que eu prefiro, que faz a seleção de maneira independente e avalia a competência do diretor e escolhe qual o melhor para cada escola.

Você tem a ideia de fazer gabinete startup em Brasília, outro itinerante em São Paulo e um app para o eleitor acompanhar seu mandato. Como vão funcionar?
Uma coisa que fiz durante a campanha e que vai continuar é a comunicação pelas redes sociais. Esse é um motor. A startup política é para inovar no gabinete também, se conectar com gabinetes de outros deputados e compartilhar material, pessoal, quebrar paredes e criar espaço dinâmico. O gabinete itinerante é pensando na população que não vai conseguir acompanhar minhas votações e opinar pelo aplicativo. Vou para as periferias, para o interior, para o litoral levando informações e ouvindo. A política pode ser potencializada pelo on-line, mas tem que acontecer no pessoal.

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