O país que quer se tornar a "nova Meca" e atrair muçulmanos, cristãos e judeus

Em meio a um processo de grande transformação política - que quer deixar para trás o passado de dominação soviética e um governo autoritário que se manteve no poder por quase 30 anos -, o Uzbequistão quer usar suas mesquitas e santuários bem preservados para atrair turistas.

Por Rustam Qobil - BBC Uzbequistão

Em meio a um processo de grande transformação política – que quer deixar para trás o passado de dominação soviética e um governo autoritário que se manteve no poder por quase 30 anos, até 2016 -, o Uzbequistão ambiciona se tornar uma "nova Meca", um destino para peregrinos muçulmanos, cristãos e judeus de todo o mundo.

Um dos países mais populosos da Ásia Central, com quase 30 milhões de habitantes, ele conta com um grande número de mesquitas e santuários bem preservados em cidades como Samarcanda e Bucara, ligadas pelas estradas que faziam parte da Rota da Seda – uma das mais antigas rotas comerciais do mundo, que ligava a Ásia à Europa.

Para milhões de uzbeques, esses lugares são sagrados. Para o governo, eles também representam uma oportunidade para impulsionar o turismo, à medida em que o país se abre para o mundo depois de décadas isolamento e autoritarismo.

Entre 1989 e 2016, o Uzbequistão foi dirigido com mão de ferro por Islam Karimov, que foi presidente até sua morte, em setembro daquele ano. Seu primeiro-ministro, Shavkat Mirziyayev, assumiu o país com um discurso de ruptura com o antecessor e se mantém no poder desde então.

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Samarcanda é o lar de dezenas de magníficas tumbas. Figuras notáveis ​​como o imperador Tamerlão, o astrônomo Ulugh Beg e Kusam Ibn Abbas, o primo do profeta Maomé, que levou o islã para a região no século 7º, estão todos enterrados no local.

Mas há uma tumba que não se parece com nenhuma outra. Todas as manhãs, centenas de pessoas sobem até o topo de uma colina nos arredores da cidade para visitar um túmulo largo e com formas estranhas, rodeado de árvores de pistache e damasqueiros, entre as ruínas da antiga cidade.

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O ar está cheio de canções de pássaros e o murmúrio de orações. As famílias compartilham o almoço sentadas nos bancos e os jovens casais tiram selfies.

Mas entre os peregrinos não há apenas muçulmanos, porque se acredita que esta tumba é o lugar do descanso final do profeta bíblico Daniel, ou Daniyar, como era chamado pelos uzbeques.

"Muçulmanos, cristãos e judeus vêm aqui e rezam suas orações de acordo com sua própria religião", diz Firdovsi, um jovem guia. "São Daniel era judeu, mas os muçulmanos o respeitam porque ele era o profeta de Alá."

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"Eu sempre venho aqui e rezo por sua alma", conta uma mulher chamada Dilrabo. "Ele não era apenas um profeta judeu. Ele foi enviado para toda a humanidade. Batizei meu neto de Daniyar em sua homenagem."

Dilrabo foi ao local com sua filha Setora e uma neta. Depois das orações lideradas por um mulá – nome dado a alguns clérigos muçulmanos -, eles entram na fila para observar a tumba mais de perto.

Trata-se de um edifício com mais de 20 metros de comprimento, feito de tijolos cor de areia no estilo islâmico medieval, com arcos internos e um teto abobadado.

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Dentro do mausoléu – ou maqbarah – há um sarcófago de 18 metros de comprimento coberto com um pano de veludo verde escuro bordado em ouro com versículos do Alcorão.

Este lugar é um dos poucos no mundo onde pessoas de diferentes religiões se reúnem para orar.

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"Eu sou judia e, se quiser, posso orar aqui, da mesma forma que um cristão", diz Suzanne, de Israel. "Tem a ver com a tolerância uzbeque. Este lugar une a gente."

Kristina, de Moscou, disse que seus amigos vieram da Rússia para pedir a cura de uma doença. "Agora estão curados", diz ele.

Acreditar na magia ou poderes de santos ou lugares sagrados de cura é uma forte tradição no Uzbequistão, assim como a peregrinação a santuários que remontam há milhares de anos, para os tempos de xamãs, dos budistas e dos zoroastristas.

Mais de 1,2 mil anos de presença islâmica não apagaram essas antigas tradições, já que os uzbeques, de certa forma, misturaram as velhas crenças com a fé muçulmana.

Não é de se admirar que os lugares sagrados estejam cercados de mitos.

Em relação ao túmulo de Daniel, por exemplo, muita gente acredita que ele tem 18 metros de comprimento porque o profeta era um homem muito, mas muito alto. Outros dizem que, na verdade, é a sepultura que cresce um pouquinho a cada ano que passa.

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O Uzbequistão tem centenas de santuários em todo o país, muitos dos quais foram abandonados ou fechados durante o período de dominação soviética.

"O islã da Ásia Central é bastante flexível, inclusivo, se mistura com as tradições locais", diz Khurshid Yuldoshev, ex-aluno de uma escola religiosa.

"É por isso que a religião é interpretada de uma maneira mais tolerante. A tradição de visitar santuários é benigna, e parte de nossa cultura e não tem nada a ver com o islã político. Esses peregrinos são pacíficos."

O islamismo político é algo que o governo uzbeque teme há muito tempo. Nos 26 anos de governo de Karimov, milhares de muçulmanos independentes foram presos.

Agora o Uzbequistão diz estar mudando. Mirziyoyev, que chegou ao poder depois da morte de Karimov em 2016, prometeu mais liberdade religiosa.

"O governo está liberando aqueles que verdadeiramente se arrependeram", diz Shoazim Minvarov, o chefe do recém-fundado Centro da Civilização Islâmica na capital, Tashkent.

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Minovarv acredita que os uzbeques que viveram na União Soviética ateia careciam de conhecimento e orientação quando o comunismo desapareceu.

Durante a década de 1990, centenas de jovens uzbeques desiludidos uniram-se a organizações afiliadas ao Taleban e à al-Qaeda.

Agora, as autoridades esperam que uma ênfase renovada nas tradições religiosas locais contraste com crenças extremistas.

"Radicalismo é a consequência da ignorância", diz Minovarov. "Queremos ensinar ao nosso povo o islã da iluminação."

Ninguém sabe ao certo quantos santuários existem no Uzbequistão. Algumas autoridades estimam que cerca de dois mil. E essa riqueza é uma oportunidade para o governo impulsionar o turismo.

"Só no ano passado, cerca de 9 milhões de cidadãos uzbeques fizeram uma peregrinação", disse Abdulaziz Aqqulov, vice-diretor do Comitê de Turismo do Uzbequistão.

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O número de turistas estrangeiros ainda é considerado baixo, com cerca de dois milhões por ano. Mas o Uzbequistão já abriu suas fronteiras para os países vizinhos e reduziu as restrições de vistos para muitos outros.

"Os cientistas e acadêmicos islâmicos mundialmente famosos, como Imã Muhammad al-Bukhari ou Bahauddin Naqshband estão enterrados no Uzbequistão", diz Aqqulov. "Países como Indonésia, Malásia, Turquia ou Índia têm o potencial de enviar milhões de peregrinos a esses locais."

O potencial é realmente significativo. Acredita-se que apenas o líder Sufi do século 14 Bahauddin Naqshband tem mais de 100 milhões de seguidores em todo o mundo, o que representa um grande potencial de peregrinos ao seu túmulo, na antiga cidade uzbeque de Bukhara.

Por enquanto, a maioria dos visitantes é de locais.

No santuário de Daniel, em Samarcanda, Dilrabo e sua filha completaram sua peregrinação sob os olhos curiosos da pequena filha de Setora.

Depois que a mãe e a avó terminam, a menina deixa seus doces em um banco e se aproxima de uma velha árvore de pistache para lhe sussurrar um desejo.

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