Antigo cinema vive trama de terror na vila de Paranapiacaba

Por Vanessa Selicani - Metro Jornal ABC

O prédio que abrigou o segundo cinema do país desaparece aos poucos em Paranapiacaba, a vila histórica de Santo André tombada como patrimônio nacional. O edifício de 1903 abrigava também festas e atividades culturais dos ingleses que se instalaram no local por conta da construção da ferrovia que ligava Santos e Jundiaí.

Mas o que se vê hoje no prédio da Sociedade Recreativa Lyra da Serra não lembra em nada o período festivo. Quem toma conta do espaço é o mato alto, as madeiras apodrecidas, vidros quebrados e a sensação de que em breve a estrutura toda virá abaixo por conta da falta de cuidados.

O Cine Lyra é um dos edifícios que receberia verba do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Cidades Históricas, do governo federal, em projeto apresentado em 2013 que envolvia toda a vila.

As obras, porém, estão paradas há pelo menos um ano para análise (leia mais abaixo). O prédio teria R$ 959 mil para restauração que nunca foi iniciada.

Mas é uma intervenção em 2011, durante o governo do então prefeito Aidan Ravin, uma das maiores causadoras da atual situação de abandono. Isto porque os trabalhos, orçados em R$ 662 mil, foram iniciados, com a remoção de parte do telhado e das estruturas de madeira das paredes. Mas a empresa abandonou o edifício desta forma, sem concluir a revitalização.

O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão federal responsável pelo PAC Cidades Históricas, diz em nota que o destelhamento deixou o edifício em estado precário e que a atual estrutura terá de ser praticamente reconstruída. “O projeto, com o seu orçamento, precisou ser revisado dentro dessa nova realidade. A previsão é que grande parte dos elementos de cobertura, paredes e estruturas serão refeitos, pois não existem mais, e uma pequena parte dos elementos que ainda estão lá serão restaurados e recuperados.”

O órgão federal afirma que uma cobertura provisória, como a colocação de lonas para proteger a estrutura, seria de responsabilidade da prefeitura, que é a proprietária do edifício. Cabe à administração pública também a limpeza do local.

Questionada pela reportagem, a prefeitura não informou se fará a proteção. Sobre o mato alto, ela afirma realizar manutenção periodicamente. “A limpeza da área e capinação são realizadas quinzenalmente e parte do material que se encontra no prédio (que aparenta ser entulho) deve ser preservado, pois são materiais da construção, testemunhos da construção original”, afirma em nota.

‘Dói meu coração’

O historiador e membro do conselho de patrimônio histórico de Santo André Adalberto Almeida nasceu e passou parte da juventude em Paranapiacaba. “Tenho dor profunda no meu coração em ver a atual situação da vila. Era tudo muito bonito e bem cuidado antigamente, com jardins e borralho das cinzas dos trens servindo como asfalto.”

Almeida conta que o Cine Lyra era utilizado para os momentos de lazer e manifestações culturais dos ingleses. “O prédio recebeu um dos primeiros cinematógrafos do país, para competir com o Rio de Janeiro.”   

Análise encontra irregularidades

A Prefeitura de Santo André afirma ter detectado problemas no contrato com a empresa que realizava as obras do PAC Cidades Históricas em Paranapiacaba. A administração diz que realizou análise detalhada dos gastos para garantir a “exequibilidade e sustentabilidade” do convênio com o governo federal.

De acordo com a prefeitura, foram identificados erros matemáticos nas planilhas orçamentárias que impossibilitariam a restauração de todos os imóveis com a verba disponível. “Outro aspecto identificado foi a realização das obras de restauro sem projetos executivos”, diz nota da administração.

A prefeitura afirma que foi acertado com a empresa a rescisão amigável do contrato. O acordo prevê que a contratada finalize parte dos serviços em 60 dias.

Após esse prazo, a administração diz que publicará nova licitação para poder retomar as obras.

A verba para a revitalização da vila é de R$ 42 milhões. De acordo com o Iphan, representante do governo federal no PAC Cidades Históricas, foram repassados até agora R$ 12,2 milhões.

O projeto prevê oito ações de restauração, das quais quatro já foram entregues: galpões das oficinas,  garagem das locomotivas, antigo almoxarifado da ferrovia e a antiga casa do engenheiro.

Entre as obras ainda não finalizadas está a maior delas, a reforma de 242 imóveis, orçada em R$ 31 milhões. Foram entregues até agora oito casas e há previsão de mais seis delas ainda neste ano.  


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