Pesquisador lança livro analisando organização da facção criminosa PCC

Por Metro Jornal
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No livro “Irmãos: Uma História do PCC”, lançado pela Companhia das Letras, o pesquisador e professor da UFSCar Gabriel Feltran compara a organização da facção a sociedades como a maçonaria, fruto de uma pesquisa de duas décadas. Leia entrevista concedida por e-mail ao Metro.

No seu livro, você se refere ao PCC como uma sociedade secreta, como a maçonaria. Por que usa essa comparação?
Em geral a imprensa apresenta o PCC como uma empresa, que visa ao lucro, ou como uma organização militar, que domina territórios. Faço pesquisa de campo há 20 anos nas periferias de São Paulo. Nessa pesquisa, o PCC aparece como uma irmandade. Cada irmão pode ter negócios independentes do outro, mas todos terão um mesmo compromisso com o mundo do crime. Essa forma de se organizar, que se parece mais com a maçonaria do que com outras facções criminais, favorece muito a expansão do PCC.

As lideranças comumente apontadas não são lideranças reais?
A ideia de um “poderoso chefão” é equivocada. A cada dia há na imprensa novas “lideranças” do PCC sendo presas ou transferidas. Mas, quando um irmão sai da posição que ocupa na organização, outro terá a mesma responsabilidade. Evidente que há pessoas internamente muito respeitadas na facção. Mas isso não faz com que elas possam mandar em outros, nem agir fora da disciplina.

Como é a hierarquia do PCC? Não há uma figura cuja opinião seja mais influente do que as outras?
Há posições de autoridade, como as “sintonias”, que regulam a vida cotidiana da facção. Ocupam essas posições as pessoas respeitadas internamente, claro. O uso de armas da facção, a arrecadação da caixinha, a justiça interna à irmandade e muitos outros assuntos passam pelas sintonias. Há debates, e cada sintonia é independente da outra; um quadro não sabe necessariamente o que o outro faz, mas os princípios gerais são os mesmos para todos. Isso facilita a expansão da facção.

Nenhuma outra facção tem sistema semelhante?
Não que eu conheça. As máfias são étnicas ou territorializadas, as demais facções brasileiras funcionam em modo militar ou empresarial, as gangues da América Central personalizam o poder. No México há diferentes cartéis, como na Colômbia. Mas não encontrei uma forma de se organizar semelhante à do PCC no mundo do crime. Irmandades secretas como a maçonaria me ajudaram mais a pensar sua organização.

Como ele foi construído?
O PCC tem 25 anos, cresceu nas prisões de SP durante os anos 1990, regulando as condutas nas prisões. Havia problemas práticos e foram encontradas soluções práticas. Interditar o estupro, debater cada conflito interno, de um lado. Fazer guerra contra facções rivais e o “sistema”, a administração prisional, de outro. Fora das cadeias, foi parecido: evitar a concorrência entre os pontos de venda de droga, regular o uso de armas pela molecada do crime.

Os negócios do PCC também não têm uma figura centralizadora?
Ainda menos. Um cara pode roubar um carro, fechar na sua garagem e passar um mês tirando peças dele para vender on-line. Outro pode ter uma rede de desmanches na cidade. Se são irmãos batizados no PCC, no interior da facção eles devem ser iguais. Se um maçom tem uma fábrica com 400 funcionários e outro uma bicicletaria com dois, ambos são maçons e devem se ajudar. Nenhum dos dois divide seus lucros com a irmandade, mas preservam seus princípios comuns e pagam uma mensalidade. METRO

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