O Brasil pré-Cabral vira pó: pistas sobre nossos primeiros povos se perderam em incêndio do Museu Nacional

Museu Nacional abrigava importante acervo que poderia explicar como viviam indígenas e grupos ainda mais antigos antes da colonização portuguesa.

Por Mariana Schreiber - Da BBC News Brasil em Brasília

O território que originou o Brasil foi construído enquanto nação a partir de 1500 em um violento encontro promovido por portugueses entre diferentes povos – indígenas, africanos e europeus. Mas como era a vida humana aqui antes disso? Qual era a riqueza cultural dos povos originários do nosso país?

Ficou bem mais difícil estudar e contar essa história depois que um incêndio destruiu o palácio do Museu Nacional, na zona norte do Rio de Janeiro, lamenta o antropólogo Carlos Fausto, professor da instituição. Embora uma avaliação precisa das perdas ainda esteja sendo realizada, as primeiras evidências indicam que o fogo consumiu quase todo o vasto acervo arqueológico e antropológico que constituíam peças fundamentais desse quebra-cabeça.

Fausto destaca, por exemplo, o caso da coleção de itens extraídos dos sambaquis, também conhecidos como concheiros. Tratam-se de estruturas construídas em boa parte da costa brasileira, a partir de 6 mil anos atrás até mais ou menos os anos 500, por caçadores-coletores que vivam no litoral.

Segundo o site do Museu Nacional, esses sambaquis, encontrados no litoral desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, eram compostos por restos de animais (conchas, ossos de peixes, aves, mamíferos e répteis) e dispostos junto com esqueletos humanos e artefatos de caça e pesca.

Os sambaquis também revelam que esses grupos produziram objetos cerimoniais em pedra e osso muito elaborados, os chamados zoólitos. A semelhança entre estatuetas, em geral reproduzindo animais, encontradas em sítios distantes sugerem ainda que estes grupos trocavam informações entre si.

"Foi uma população que ocupou um vasto território e tinha um modo de vida parecido, com uso intenso de recursos marinhos. Nos anos 500 eles começam a ser substituídos por outra população porque os (índios) tupis estavam chegando à costa. Nós não sabemos o que aconteceu, se foram incorporados aos tupis, se foram mortos, e sem as evidências empíricas fica difícil de responder", nota Fausto.

Maior acervo do mundo

"Nosso acervo de sambaquis era o maior do mundo e mais antigo que outros que estão sendo formados, como o da USP (Universidade de São Paulo). Ainda há importantes concheiros a serem estudados, por exemplo em Santa Catarina, mas outros, como os do litoral do Rio de Janeiro, já foram destruídos pelo avanço do turismo a especulação imobiliária", acrescenta.

Outra coleção importante, destaca o antropólogo, era a de cerâmicas marajoaras, cultura que alcançou o maior nível de complexidade no período pré-colonial brasileiro e que esteve presente na calha do rio Amazonas, na região do Pará, entre os séculos 5 e 14. Esse povo acabou dizimado, provavelmente por epidemias, após o contato com os colonizadores e, devido ao clima tropical da região, as cerâmicas são sua principal herança que resistiu ao tempo para ser estudada hoje.

"Como era a Amazônia em 1500? Essas cerâmicas eram nossas pistas fundamentais, nosso microscópio para olhar o passado", afirma.

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"Há também um acervo importante no Museu Emílio Goeldi, em Belém, mas cada coleção é singular, uma complementa a outra. São peças de um quebra cabeça. Com apenas uma peça, descobrir como era a cabeça é impossível", reforça.

O professor ressalta que o desenvolvimento de novas técnicas científicas também permitiria aprofundar o estudo do acervo do museu que já era conhecido. A expectativa, por exemplo, é que métodos inovadores de extração de DNA criados na Europa nos últimos quatro anos poderiam viabilizar novas análises de fósseis, como as ossadas dos sambaquis e esqueletos ainda mais antigos da região de Minas Gerais, inclusive o crânio batizado de Luzia, de 11.300 anos, o mais antigo localizado no Brasil.

Luzia tinha traços semelhantes aos dos atuais negros africanos e aborígenes australianos. Uma análise do seu DNA permitiria testar a hipótese do pesquisador Walter Neves de que houve uma migração para a América do Sul anterior a dos ascendentes dos índios brasileiros, que acredita-se terem vindo da Ásia há 12 mil anos. "Poderia mudar história do continente", resume Fausto.

História indígena

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Segundo o antropólogo, o Museu Nacional abrigava também um acervo de 22 mil artefatos indígenas – itens frágeis como adornos de plumas, asas de besouros, sementes, materiais de palha que, na hipótese de não terem sido atingidos pelo fogo, dificilmente resistiram ao calor gerado pelo incêndio.

Essa coleção permitia a povos indígenas, que perderam parte das suas tradições culturais e hoje passam por um processo de fortalecimento, terem contato com técnicas usadas por seus antepassados. Fausto destaca, em especial, duas grandes coleções de plumárias – uma dos índios Munduruku, que habitam as margens do Rio Tapajós, no norte do país, e outro dos Urubu-Ka'apor, que vivem no Maranhão. Ressalta também as cerâmicas do início do século passado dos Kadiwéu (grupo do Mato Grosso do Sul) e dos Shipibo-Conibo (povo da Amazônia peruana).

"As cerâmicas continuam sendo feitas pelos Kadiwéu, mas sem os mesmos padrões e sofisticação do passado. O acervo do museu era um referência importante para grupos que estão recuperando técnicas, recuperando memória", lamentou.

Ele explica que esse acervo começou a ser construído a partir do interesse do imperador Dom Pedro II e passou a ser alimentada também por pesquisadores internacionais, graças à lei da duplicata. Essa regra só permitia que estudiosos estrangeiros levassem itens brasileiros para o exterior se coletassem um item similar para ser deixado no Museu Nacional.

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O renomado antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, por exemplo, foi acompanhado por Luiz de Castro Faria, então funcionário do museu, durante a expedição que realizou no fim dos anos 1930 à Serra do Norte (entre Mato Grosso e Rondônia). A missão do acompanhante, que depois se tornou professor da instituição, era justamente vigiar o que saía do país. Parte do material coletado estava no palácio que ardeu em chamas.

"Você pode encontrar nos museus europeus várias peças de povos indígenas brasileiros, mas o conjunto desse processo de colecionismo (frutos das diferentes expedições) que estava no Museu Nacional era único. Era uma história super importante para as populações indígenas e que simplesmente virou pó", constatou.

Cabeças encolhidas

Por ser uma acervo antigo, construído em dois séculos, ele também permitia estudar como eram as coleções museológicas do passado, revelando que interesse os europeus tinham sobre povos indígenas, muitas vezes calcadas em uma curiosidade pelo que consideram exótico.

Um item muito procurado na época, por exemplo, e que integrava o acervo do Museu Nacional, eram as cabeças encolhidas da tribo Jivaro (da Amazônia peruana e equatoriana) – crânios decapitados de inimigos que passavam por um processo de redução do seu tamanho.

"O acervo do museu contava a história de uma relação entre índios e brancos das quais nos envergonhamos. Para a gente poder contar a história de outra perspectiva a gente tem que entender qual era a perspectiva dos não indígenas quando faziam essas coleções", acredita Fausto.

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