O mistério sobre o alto funcionário que diz em texto anônimo proteger EUA das "piores inclinações" de Trump

Artigo publicado no The New York Times foi escrito por um alto funcionário da Casa Branca, que se identifica como 'parte da resistência dentro do governo'.

Por Anthony Zurcher - Repórter da BBC para a América do Norte

"Sou parte da resistência dentro do governo Trump."

Este é o título de um artigo anônimo publicado pelo jornal americano The New York Times, escrito por um alto funcionário da Casa Branca não identificado.

No texto, o autor afirma que membros do governo estão trabalhando para frustrar partes da agenda do presidente para proteger o país de suas "piores inclinações".

Segundo ele/ela, a "amoralidade" e "impulsividade" de Trump culminaram em decisões mal embasadas e irresponsáveis.

O presidente reagiu chamando o autor anônimo de "covarde" e o jornal de "farsante", enquanto a secretária de Imprensa da Casa Branca divulgou uma nota exortando o funcionário a pedir demissão.

Já o grupo The Times saiu em defesa do editorial: "Estamos incrivelmente orgulhosos de ter publicado este artigo, que agrega um valor significativo ao entendimento do público sobre o que está acontecendo no governo Trump".

O texto foi publicado um dia depois da divulgação de trechos do livro de Bob Woodward sobre a gestão de Trump à frente da Casa Branca, sugerindo que funcionários do alto escalão estavam envolvidos em um "golpe de Estado administrativo" para proteger a nação do presidente.

Entre as ações em andamento, segundo o livro, estariam a retirada de documentos importantes da mesa de Trump, antes que ele tivesse a chance de assiná-los.

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O artigo se apresenta como uma confirmação em primeira mão de que o golpe é real.

O autor diz concordar com muitos dos objetivos políticos do governo, mas afirma que essas metas estão sendo alcançadas apesar – e não por causa – do presidente.

O que o alto funcionário diz sobre Trump?

A longa lista de críticas cita reuniões desorganizadas, comportamento mesquinho e impetuoso, incapacidade de se ater a decisões, antipatia pela imprensa livre e instintos "antidemocráticos".

Ele/ela descreve uma "presidência de duas vias", onde as ações do presidente – como sua atitude conciliatória em relação a "autocratas e ditadores", incluindo Kim Jong-un e Vladimir Putin – são restringidas e redirecionadas pelos "adultos na sala".

"Este não é o trabalho do chamado Estado profundo", escreveu. "É o trabalho do Estado estacionário".

Além disso, o autor diz que alguns membros do governo chegaram a conversar sobre a ideia de acionar a Emenda 25, dispositivo constitucional que permite que o vice-presidente e a maioria dos secretários do gabinete votem pela destituição de um presidente "incapacitado de exercer os poderes e deveres do cargo".

A manobra tem sido, até agora, em grande parte, deixada à margem do discurso político americano e dos sonhos dos oponentes mais fervorosos de Trump.

"Ninguém queria precipitar uma crise constitucional", escreveu. "Então faremos o que pudermos para orientar o governo na direção certa até que – de uma forma ou de outra – termine."

Como a Casa Branca respondeu?

Já havia uma forte pressão dentro da Casa Branca para descobrir a identidade das fontes do livro Fear: Trump in the White House (Medo: Trump na Casa Branca, em tradução livre), de Woodward. E o artigo do New York Times jogou ainda mais lenha na fogueira.

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Trump foi ao Twitter, onde escreveu: "TRAIÇÃO?"

Na sequência, ele publicou outro tuíte perguntando se o funcionário realmente existia ou se fora inventado pelo Times.

E acrescentou: "Se o covarde anônimo realmente existe, o Times deve, por questões de Segurança Nacional, entregar ele/ela ao governo imediatamente!"

A secretária de Imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, divulgou uma nota em resposta ao artigo:

"O indivíduo por trás deste texto optou por enganar, em vez de apoiar, o presidente devidamente eleito dos Estados Unidos", disse. "Ele não está colocando o país em primeiro lugar, mas colocando a si mesmo e a seu ego à frente da vontade do povo americano."

Trump acrescentou que "todos esses veículos de imprensa farsantes vão à falência", uma vez que ele deixe a presidência, já que eles não terão mais nada sobre o que escrever.

Quem é a fonte anônima?

Fora do governo, o artigo vai desencadear um dos jogos favoritos de Washington – adivinhar a identidade de um autor desconhecido. Desde que "Anonymous" escreveu o romance Cores Primárias, um relato de ficção disfarçado sobre a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, não há um mistério desse tipo.

Mais tarde, foi revelado que o autor do livro era o jornalista Joe Klein.

Dado que grande parte do foco do artigo do New York Times está na condução dos assuntos internacionais, os holofotes provavelmente vão se voltar para a equipe de política externa do presidente – no Departamento de Estado, no Conselho de Segurança Nacional e no Departamento de Defesa.

Também haverá certamente uma solicitação para que o funcionário do governo se apresente por contra própria.

"A crise do nosso tempo é que as pessoas em posições de poder veem um presidente que mostra 'uma preferência por autocratas e ditadores' e 'impulsos antidemocráticos', mas não se posicionam publicamente contra eles, e, assim, permitem que isso continue", tuitou Don Beyer, congressista da Virgínia.

O fato é que uma confissão anônima que apenas confirma os temores dos críticos de Trump não é uma prova de coragem. Mas, ao ser publicada logo após os trechos do livro de Woodward, a coluna do New York Times é um golpe que dificilmente passará despercebido.

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