Fragmentos achados podem ser de Luzia

Museu Nacional. Partes do crânio estavam perto do local onde a peça era exposta no Rio de Janeiro; fóssil mais antigo das Américas foi descoberto por missão franco-brasileira em sítio arqueológico de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais

Por Metro Jornal BH com TV Band MG

Em meio às cinzas que transformaram mais de 200 anos de registros da história brasileira em pó, uma esperança. Depois de quase dois dias de trabalhos, os bombeiros localizaram ontem partes de um crânio nos escombros do Museu Nacional do Rio de Janeiro. A peça, que será analisada por especialistas, pode ser de Luzia. Descoberto na década de 1970 em uma gruta em Pedro Leopoldo, na região metropolitana de Belo Horizonte, o fóssil humano mais antigo das Américas fazia parte do acervo da instituição há mais de 20 anos.

De acordo com a vice-diretora do Museu Nacional, Cristiane Serejo, só foram encontrados fragmentos da peça. “Ainda não sabemos se o material é de Luzia, ele está sendo analisado. Alguns fragmentos foram encontrados próximos ao local onde o crânio ficava exposto”, explicou a dirigente.

Uma réplica da imagem está guardada na sede da Prefeitura de Pedro Leopoldo – recebido como forma de agradecimento do Museu Nacional, o material fará parte do acervo de um novo centro cultural. Desde 2016, a cidade comemora o Dia de Luzia em julho. “Luzia é uma das peças-chave de um intrincado quebra-cabeças que dá conta da história da vida na América. É por esta razão que celebramos a figura ilustre de Luzia e reconhecemos os esforços do professor Walter Neves, que, há 20 anos, a apresentou à comunidade científica e ao mundo”, enfatizou o prefeito Cristiano Marião.

Importância histórica

Batizado de Luzia na década de 1990, o material foi encontrado pela missão arqueológica franco-brasileira, chefiada por Annette Laming-Emperaire, na gruta conhecida como Lapa Vermelha. “O grupo fez uma escavação de grande profundidade. À medida que começava a descer o nível, eram descobertas novas pinturas e na parte mais baixa achou um esqueleto feminino, batizado posteriormente de Luzia”, contou o arqueólogo Leandro Vieira da Silva.

De acordo com o especialista, o fóssil mostra que os primeiros habitantes do continente apresentavam morfologia craniana diferente dos atuais índios presentes nas Américas. “Desde a época de Peter Lund, famoso naturalista dinamarquês, notou-se que realmente o formato dos crânios do Homem de Lagoa Santa era bem diferente. E a Luzia confirmou essa hipótese. Ao que tudo indica, esses primeiros homens de Minas Gerais teriam a forma do crânio pouco mais parecida com os atuais africanos e aborígenes australianos”, enfatizou.

Após uma série de estudos, os pesquisadores ainda constataram que a peça possui cerca de 12 mil anos. Nômade, Luzia vivia em um pequeno grupo de pelo menos 20 pessoas e tirava o sustento da caça. “A possível perda desse material é inestimável para a arqueologia mundial, não apenas brasileira. A Luzia é um testemunho, uma evidência das nossas raízes mais profundas, de quando o ser humano já estava no nosso continente. O nosso passado está além dos 500 anos, que é mostrado nos livros didáticos”, concluiu o arqueólogo. 

Vigia pega documento e vizinho encontra besouro

Ao encontrar documentos e alguns besouros na rua perto de casa, o estudante João Lucas Souza Araújo da Silva, 11 anos, sabia que tinha algo muito importante em mãos. “Uma pessoa me disse que era da princesa Leopoldina [1797-1826]. Fiquei feliz, porque estou ajudando a reconstruir a nossa história”, relata, orgulhoso.

Desde o incêndio, vizinhos do Museu Nacional passaram a encontrar itens do acervo pela região. O vigia Felipe Farias da Silva, 29 anos, achou a página de um documento quando andava por uma calçada da Quinta da Boa Vista: “Vi no chão e achei que era algo importante. O papel estava queimado, então envelopei. Era o mínimo que eu podia fazer após essa tragédia.”

Todas as peças e documentos achados têm um significado único nos 200 anos da história do museu, o maior de história natural do país. O espaço reunia coleções importantes da zoologia, botânica e arqueologia. A biblioteca de antropologia era a mais importante da América Latina.

O museu era expressivo em marcas. O primeiro dinossauro montado no país estava lá. Assim como o primeiro esqueleto de uma baleia jubarte e a primeira coleção de múmias egípcias da América Latina. Mas as estimativas de funcionários é que ela tenha sido destruída.

Em prédio próximo à Quinta da Boa Vista, uma moradora também achou outros besouros que podem ser da coleção de entomologia. Eles também serão entregues para pesquisadores avaliarem se são do acervo.  

Resistiram ao fogo

Vice-diretora do Museu Nacional, Cristiane Serejo citou alguns dos itens e coleções que foram recuperados durante e após o incêndio. Todo material está sendo catalogado:

  • Laboratório de Conservação intacto
  • Coleções de invertebrados intactas
  • 500 mil exemplares de herbários
  • Alguns meteoritos, incluindo o Bendegó
  • Algumas cerâmicas pré-colombianas
  • Uma tela do Marechal Rondon
  • Algumas rochas da Coleção Werner
  • Fragmentos de crânios em uma área próxima ao local onde Luzia ficava exposta
  • Quase 500 mil exemplares de livros
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