PCC "batiza" estrangeiros no grupo de olho na expansão do tráfico de drogas na Europa

Investigadores e pesquisadores acreditam que organização quer 'cortar intermediários', mas, por ora, ainda depende de associações e parcerias com grupos internacionais.

Por Fernanda Odilla - Da BBC News Brasil em Londres

Parecia uma conversa comum entre importantes funcionários de uma empresa, com reclamações sobre excesso de trabalho e assuntos diversos como remanejamento de quadros, planos de expansão dos negócios e casos de inadimplência. Não fosse um detalhe: também se discutiu, com naturalidade, mais uma execução.

Esse diálogo, travado entre Tiaguinho e Gilmar, apelidos dos integrantes da chamada célula "Resumo Disciplinar dos Estados" da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, foi gravado com autorização judicial em outubro do ano passado. As circunstâncias da gravação não foram reveladas. Segundo o Ministério Público de São Paulo, Tiaguinho e Gilmar fazem parte do grupo responsável por observar o comportamento dos integrantes e monitorar se as regras do que "é certo e errado" para o PCC estão sendo cumpridas, além de julgar ofensas e definir punições de membros da organização criminosa fora de São Paulo.

Na conversa, Gilmar fala de um grupo "criado recentemente que tem mais de 90 PCC, inclusive irmão de outro país". Para o Ministério Público de São Paulo, "o irmão de outro país" é da Espanha, país que só fica atrás da Bélgica na lista dos países com as maiores apreensões de cocaína despachadas do Brasil em navios.

Segundo investigações policiais, tanto a cúpula do PCC quanto membros da organização que atuam de forma autônoma estão envolvidos em remessas de droga para a Europa, seja garantindo o embarque e transporte ou organizando a venda a intermediários em operações feitas, principalmente, a partir de portos brasileiros.

Investigadores e pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil sugerem que, após ter consolidado o acesso aos canais de produção em países vizinhos e a distribuição no Brasil, a organização agora quer expandir suas operações de "exportação" pelos portos e se aproximar do lucrativo mercado consumidor europeu.

Parte do diálogo da dupla Gilmar e Tiaguinho, que o Ministério Público vê como prova de planos do PCC de expansão para o exterior, foi reproduzido na denúncia da Operação Echelon, do Ministério Público Estadual de São Paulo.

Assinada pelo promotor Lincoln Gakiyya, do Núcleo de Presidente Prudente (SP) do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), a denúncia detalha o funcionamento da organização e identifica integrantes da chamada "Sintonia dos Outros Estados e Países" – segmento que cuida do PCC no Norte, Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil, além de Bolívia e Paraguai.

Mas, na denúncia, o promotor indica que a organização tem interesse em enviar "fartas remessas de drogas para a Europa através de contêineres".

Evidências contra o PCC coletadas no esgoto

A identificação de 75 pessoas do PCC bem como de suas funções e níveis hierárquicos distintos só foi possível porque uma das penitenciárias em Presidente Venceslau instalou telas de contenção nos dutos da rede de esgoto que retiveram fragmentos de cartas jogadas na privada pelos presos.

Depois de coletados, secados e desinfetados, os manuscritos foram remontados de acordo com a semelhança da letra e, em seguida, submetidos a exames grafotécnicos.

"Da análise dos documentos foi possível identificar a participação dos réus na organização e execução de homicídios, rebeliões, ataques a fóruns, distribuição de armamento e drogas, atentados contra agentes públicos e órgãos do Estado e também no fomento da guerra entre facções nos Estados brasileiros", escreveu o promotor na denúncia.

PCC rumo à Europa

Em entrevista à BBC News Brasil, o promotor Lincoln Gakiyya diz que há suspeita de que pelo menos dois espanhóis e um suíço tenham, recentemente, sido "batizados", jargão usado para os que se associam ao PCC e passam a seguir as rígidas regras do grupo, que tem "código penal" próprio. Ele diz ainda que já há portugueses "batizados" também.

Para Gakiyya, esse recrutamento é um sinal claro de que o PCC está de olho na Europa por uma "questão de oportunidade".

"Nos EUA, o buraco é mais embaixo. Eles (o PCC) não têm o acesso que mexicanos e colombianos têm. É uma questão de oportunidade mesmo. As pessoas conseguiram esse canal para a Europa, o canal está estabelecido e para eles é mais interessante", afirma Gakiyya.

Segundo investigadores ouvidos pela BBC News Brasil, a expectativa é que, se não for contido, o PCC tentará se aproximar do mercado consumidor europeu fazendo o que fez nos principais países produtores de drogas da América Latina: cortando intermediários.

Em países vizinhos como Paraguai, Bolívia e Colômbia, o PCC praticamente eliminou intermediários para aumentar a margem de lucro, de acordo com investigadores.

Para Camila Nunes Dias, autora do livro PCC – Hegemonia nas prisões e monopólio da violência e professora da Universidade Federal do ABC, há no Paraguai cerca de 500 batizados, entre brasileiros e paraguaios, em sua maioria em prisões no país vizinho. Ela observa que, desde o fim dos anos 1990, várias organizações criminosas brasileiras migraram para países vizinhos, em especial o Paraguai, não só por uma estratégia comercial, mas também por acreditarem que eram lugares seguros.

"Juntou a fome com a vontade de comer", observa a professora, dizendo que a partir de 2000, essa migração se intensificou e somente há dois anos o Paraguai passou a reagir expulsando imediatamente brasileiros associados ao PCC presos naquele país.

Hegemonia

Apesar de não ser a única organização a atuar no tráfico de drogas e a ter expandido suas ações também para outros países da América do Sul, o PCC tem, segundo a professora, hegemonia no mercado brasileiro.

Atualmente, o PCC e pessoas filiadas à organização já vendem e participam da remessa, em especial a partir de portos, de uma porcentagem expressiva da cocaína que sai do Brasil. Mas, segundo Gakiyya e investigadores ouvidos pela BBC, o objetivo é avançar para lucrar mais.

Os investigadores dizem que o quilo de cocaína é vendido nos países produtores – Colômbia, Peru e Bolívia – por cerca de US$ 2 mil e chega ao Brasil custando aproximadamente US$ 6 mil. Depois de atravessar o Atlântico, é vendido na Europa por US$ 35 mil a US$ 40 mil.

O delegado da Polícia Federal Júlio Cesar Baida Filho, ex-diretor da delegacia de Santos (SP) e atual chefe da Coordenação Geral de Repressão a Drogas e Facções Criminosas, diz que o Brasil é peça essencial na rota da cocaína que sai da América do Sul e vai, principalmente, para a Europa.

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Baida Filho diz que, a partir de 2013, o país incrementou a coleta de inteligência e as ações preventivas para combater o despacho de cocaína que sai dos portos brasileiros. Os esforços, segundo ele, são refletidos no aumento das toneladas apreendidas, em especial as que saíram do Brasil e foram retidas no exterior.

As estatísticas também sugerem que o Brasil está melhorando a troca de informações com autoridades internacionais.

Em 2016, por exemplo, foi apreendido um total de 12,9 toneladas de cocaína no exterior. Desse total, apenas 33% – ou 4,1 toneladas – foram apreendidos por autoridades estrangeiras sem auxílio ou interferência do Brasil. Neste ano, até julho, foram apreendidos 10,3 mil quilos fora do Brasil, sendo que 5,5 mil quilos em decorrência de informação ou pedidos de autoridades brasileiras.

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Adulteração

O delegado da PF explica que os contêineres a caminho do exterior são adulterados com drogas em portos como os de Santos (SP), Itajaí (SC) e Salvador (BA).

Segundo Baida Filho, a droga tem sido colocada nos navios de carga de três formas distintas.

Uma das técnicas é chamada de "RipOn/RipOff": cargas de produtos lícitos são desviados para galpões da quadrilha, onde os lacres são violados e a droga é inserida junto à mercadoria a ser despachada. Em seguida, os lacres são clonados, substituídos por falsos, e a carga é levada ao porto.

A outra forma consiste na ocultação antes de os contêineres serem lacrados, a droga é misturada em cargas lícitas, tais como frutas, açúcar orgânico, soja.

A terceira estratégia identificada consiste em levar a droga ao navio já depois do embarque, por meio de barcos.

Segundo estimativas da PF, em 45% dos casos, a adulteração de contêineres se dá antes dele chegar ao porto. Essa cadeia logística envolve a cooptação de caminhoneiros ou portuários.

Rastreador na Itália e aulas de inglês em Londres

Outro sinal de que o PCC busca aumentar sua participação nos canais de exportação está nos resultados de operações recentes da PF, que prenderam várias pessoas acusadas de envolvimento no tráfico a partir dos portos.

As investigações indicam que o PCC ou associados à organização atuam em diferentes frentes. Muitas vezes, eles são os donos da droga vendida a europeus. Mas também podem atuar garantindo apenas o transporte, carregamento e embarque para grupos criminosos europeus.

Em uma investigação ligada à Operação Oversea, da PF, foi possível ter uma ideia dessas ramificações comerciais internacionais.

Foi quando agentes, após monitorarem mensagens trocadas por traficantes, interceptaram uma mala com 29 tabletes de cocaína em um contêiner que seguiria do porto de Santos para a Itália. Em vez de apreenderem a droga, eles instalaram um emissor de sinais no interior de um dos tabletes para rastreá-lo até o destino final, em Nápoles, onde a droga foi, finalmente, apreendida.

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Além da conexão com a máfia napolitana, investigadores já tinham identificado ligações entre o PCC e a máfia calabresa, Ndrangheta. E, em setembro do ano passado, a Operação Brabo, também da PF, prendeu 80 pessoas num esquema que envolvia o PCC e um grupo da Sérvia, que distribuía a droga na Europa.

"Eles atuam associados (com criminosos europeus), por enquanto pelo menos", afirma o promotor Gakiyya.

Além do monitoramento de cargas, a polícia também tem monitorado, com ajuda de autoridades estrangeiras, suspeitos no exterior. Um deles foi o filho de Fabiano Alves de Souza, o Paca, de 38 anos. Paca era integrante da alta cúpula do PCC e foi morto junto com Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, em uma clareira no meio da reserva indígena de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza no início de 2018.

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Antes da morte de Paca, um dos filhos dele tinha ido estudar inglês em Londres. Ficou na capital inglesa entre junho e dezembro do ano passado. Pelo que a BBC News Brasil apurou, a movimentação do rapaz, à época com cerca de 20 anos, chamou a atenção de investigadores, que chegaram a monitorar alguns de seus passos – contudo, não ficou comprovada nenhuma negociação dele com criminosos locais. Segundo informações do Ministério Público, é esse o filho que ganhou um carro Porsche, no valor de mais de R$ 300 mil, antes da morte do pai.

A professora Camila Nunes Dias lembra que Paca e Gegê do Mangue, integrantes da Sintonia Geral Fina – nome da cúpula do PCC – deram início ao projeto de dar um "passo adiante, de construir um canal de exportação da família (PCC) para a Europa".

O promotor Lincoln Gakiyya diz que o plano de expansão começou no começo do ano passado, quando Gegê saiu da prisão, comprou fazendas, se aproximou de produtores no Paraguai e na Bolívia e se apropriou do canal no Porto de Santos. Mas Gegê e Paca começaram a ostentar ganhos acima da média e levantaram a suspeita de que não estavam atuando em nome da organização, mas para benefício próprio. A morte da dupla, contudo, ainda está nebulosa e os assassinos também tiveram a morte decretada, abrindo uma disputa no PCC.

Gakiyya, contudo, diz que essa disputa não interfere nos canais já estabelecidos de tráfico.

Anseios e limitações

"O PCC gostaria sim de expandir, tem essa ideia, esse projeto na cabeça dos líderes. É um plano, mas o PCC ainda é um jogador com muitas limitações", avalia a professora Camila Nunes Dias, que lança em agosto o livro A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, no qual ela e Bruno Paes Manso falam também da atuação da organização no Paraguai.

Para Camila, "o PCC continua sendo uma associação de bandidos comuns" com base no sistema prisional. Ela vê essas características como fragilidades que dificultam a expansão do grupo a ponto de competir com, por exemplo, as bem estruturadas máfias italianas. Ela observa ainda que subir na estrutura da organização e partir para a ostentação de uma vida luxuosa coloca os integrantes do PCC em situação de vulnerabilidade.

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"Não é fácil para eles crescer internacionalmente a partir das prisões", avalia a professora, que vê na busca por cooperação em vez de confronto as ações estratégicas mais inteligentes do PCC.

A professora salienta que isolar líderes do PCC, prender em flagrante pequenos traficantes e construir mais prisões são medidas que se provam inócuas para conter os avanços da organização, que tem seu ponto mais forte justamente dentro dos presídios. Para ela, é preciso reorganizar todo o sistema de segurança e justiça criminal.

"Só prender não resolve o problema, só agrava. Quanto mais se prende, mais o PCC se fortalece porque se facilita o recrutamento e as redes", observa Camila Nunes Dias.

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