Projeto de memorial inédito aos negros escravizados expõe tabu do passado colonial de Portugal

'Queremos que este monumento traga vida ao debate em torno do racismo hoje', diz autora de projeto polêmico, o 1º monumento que o país construirá para marcar vítimas de passado colonial.

Por James Badcock - Lisboa

A primeira tentativa de Portugal de marcar sua longa história de escravidão com um monumento inflamou um debate sobre como o país deveria confrontar seu passado colonial – e seu presente multirracial.

Em novembro passado, como parte da votação anual que escolhe as propostas do orçamento participativo da cidade, os moradores apoiaram a ideia da criação de um memorial dedicado às milhões de vítimas da escravidão.

Portugal teve um papel central, durante quatro séculos, no tráfico de milhões de pessoas escravizadas. O projeto escolhido, proposto por uma associação de afrodescendentes chamada Djass, previa a construção de um monumento na Ribeira das Naus para "homenagear as vítimas da escravatura e celebrar a abolição da escravatura e o tráfico de pessoas escravizadas".

Era nesse ponto da cidade que os navios de transporte de escravos descarregavam sua carga humana como parte de um comércio que marcou o passado colonial do país. Não muito distante dele, está a prefeitura de Lisboa, onde existiu uma cadeia de escravos – nela, os africanos eram mantidos até seus donos pagarem os impostos que incidiam sobre sua mercadoria humana.

Para uma nação que glorifica seus exploradores e navegadores, examinar esse passado colonial não tem sido uma tarefa fácil e tem gerado polarizações.

Passados oito meses, o monumento ainda não saiu do papel.

Da escravidão ao racismo moderno

"Queremos que este monumento traga vida ao debate em torno do racismo hoje", diz Beatriz Gomes Dias, presidente da Djass.

"Portugal precisa reconhecer que a escravidão não é algo que foi esclarecido no passado. Há uma linha clara entre a escravidão, o trabalho forçado que continuou depois e o racismo que está passando agora pela sociedade."

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Muitos portugueses relutam em aceitar que haja um "problema de racismo" no país.

"Qualquer um que tenha algum conhecimento da Europa tem que concordar conosco: Portugal é provavelmente, se não certamente, o país menos racista da Europa", escreveu no ano passado o acadêmico e fundador do Movimento Internacional Lusófono, Renato Epifânio.

O escritor e historiador João Pedro Marques diz que os descendentes de africanos têm o direito de lembrar o sofrimento do seu povo, mas acha que ativistas estão exagerando quanto ao papel de Portugal no tráfico de escravos e distorcendo sua história colonial para fins políticos.

"Eu acho que aqueles que estão fazendo campanha contra o racismo querem substituir uma visão tendenciosa dos eventos por uma ainda mais tendenciosa", disse ele.

'Orgulho no colonialismo'

Beatriz Gomes Dias diz que ativistas portugueses negros estão tentando "desafiar a narrativa dominante da identidade portuguesa".

"Não há lugar no imaginário português para os negros. As pessoas de origem africana não são reconhecidas como parte da sociedade portuguesa", disse ela.

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Ela vê como equivocada a exaltação, nas escolas, da "era dos descobrimentos" de Portugal, que, para ela, fomenta um orgulho do colonialismo.

"Nós queremos confrontar essa ideia de descoberta e ampliá-la para incluir as histórias de todas as pessoas. Não podemos dizer que a violência, a opressão e o genocídio são uma coisa positiva. Precisamos de um debate real sobre nosso passado comum", disse ela.


Era de opressão – e descoberta

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Até a abolição do tráfico de escravos, em 1836, navios portugueses e brasileiros transportaram perto de seis milhões de escravos – por 400 anos -, quase metade do total de negros escravizados levadas através do Atlântico.

A maioria dos escravos foi capturada na África, mas entre eles também estavam chineses de Macau, antiga colônia portuguesa.

A controvérsia também atrasou os planos de um museu em Lisboa dedicado ao período de expansão internacional de Portugal. Batizado inicialmente de Museu da Descoberta, trocou de nome algumas vezes, para Museu das Descobertas, da Interculturalidade e, mais recentemente, da Viagem.

Em junho, mais de 100 ativistas e intelectuais negros apelaram ao governo para não confundir escravidão e invasão com descobertas ou expansão marítima.


De acordo com a lei portuguesa, é ilegal recolher informações relacionadas a raça, o que torna difícil obter dados sobre a dimensão de negros e pardos na sociedade portuguesa e sua colocação no estrato social do país.

Mas Cristina Roldão, socióloga da Universidade de Lisboa, diz que cidadãos portugueses ou moradores negros não desfrutam de igualdade.

Jovens negros com idades entre 18 e 25 anos têm apenas metade da probabilidade de portugueses brancos de irem para a universidade, de acordo com pesquisa em que ela trabalhou. E a taxa de encarceramento em Portugal é 15 vezes maior para pessoas de origem africana.

Sendo negro e português

Nascida de pais de Cabo Verde, antiga colônia de Portugal, Roldão, que tem cidadania portuguesa, cita como injusta uma lei de 1981 que impede que alguns afrodescendentes sejam considerados portugueses, apesar de terem nascido no país.

"Portugal continua a ver as pessoas não brancas como separadas da sua identidade nacional", diz Mamadou Ba, da SOS Racismo Portugal, associação sem fins lucrativos que faz parte de uma rede antirracista envolvendo vários países da Europa.

Ele nasceu no Senegal e mora em Portugal há mais de 20 anos. Ba diz que a lei significa que "crianças nascidas em Portugal são consideradas estrangeiras em seu próprio país".

"Ser negro em Portugal significa vivenciar subordinação econômica, cultural, social e política. Ser negro em Portugal é ser confrontado permanentemente com a violência simbólica e física na vida cotidiana", diz ele.

O escritor João Pedro Marques admite que existam pessoas racistas em Portugal, mas ele insiste que o país não tem um problema com racismo.

Ele diz que, enquanto figuras históricas de oposição à ditadura de Antonio de Oliveira Salazar são vistas como "heróis sem defeitos ou marcas", agora, a "extrema-esquerda politicamente correta nos levou ao extremo oposto e nossos ancestrais se tornaram os piores do mundo".

A questão tornou-se um debate sobre muito mais que um monumento às vítimas da escravidão.

Para a ativista Beatriz Gomes Dias, é a prova de que o monumento é necessário.

Ela e seus colegas ativistas estão agora procurando um artista que possa capturar o sofrimento histórico e as questões de raça no Portugal de hoje.

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