"Nem deu tempo de lamentar derrota na Copa", diz brasileiro em cidade inundada no Japão

Chuvas torrenciais deixaram mais de 120 mortos, e número deve aumentar; regiões de Hiroshima e Okayama são as mais atingidas.

Por Fatima Kamata - De Tóquio para a BBC Brasil

Shun Tan, de 44 anos, é o único funcionário público brasileiro da prefeitura de Soja, em Okayama, no sudoeste do país. Ele tem dormido no máximo duas horas por dia desde que as águas do rio Takahashi inundaram as duas margens.

O estrago maior ocorreu no distrito de Mabi, que pertence à cidade de Kurashiki. Na margem oposta fica Soja, que se mobilizou para receber os desabrigados da cidade vizinha.

"Nem deu tempo de lamentar a derrota brasileira na Copa da Rússia. A chuva torrencial pegou todo mundo de surpresa e trouxe muita tristeza", diz Shun.

Entre suas várias tarefas, está a assistência aos mais de 300 brasileiros residentes na cidade de 68 mil habitantes, especialmente as duas famílias de conterrâneos que foram levadas ao refúgio municipal depois de terem o lar destruído pelas águas.

Em dez províncias, mais de 10 mil pessoas tiveram de deixar suas casas devido às inundações e aos deslizamentos causados por uma chuva recorde. Até a segunda-feira (hora local), o total de mortos tinha chegado a 123, número que pode aumentar porque as autoridades ainda desconhecem a extensão dos estragos.

Um grupo do governo responsável pelo levantamento de danos irá determinar quais são as necessidades nas províncias de Hiroshima e Okayama, as duas áreas mais gravemente atingidas.

Resquício de um tufão

Shun não foi uma vítima direta. Ele mora na cidade de Okayama, capital da província, e levava meia hora de carro todos os dias para ir ao trabalho em Soja. Agora, após as inundações, precisa dirigir uma hora para chegar à prefeitura, driblando a lama e um cenário de tristeza.

"Duas semanas atrás, a prefeitura tinha dado treinamento aos funcionários para lidar com um possível grande terremoto. Só que veio a chuva torrencial, que é rara por aqui porque sempre fomos protegidos pelas montanhas."

Segundo a Agência de Meteorologia do Japão, uma combinação de fatores foi responsável pelas precipitações recordes. A passagem do tufão Prapiroom sobre o Mar do Japão alguns dias antes deixou para trás uma massa de ar quente e uma enorme faixa de nuvens densas.

A força das chuvas normalmente diminui após o deslocamento do tufão, mas desta vez foi diferente. A entrada de ar extremamente úmido é apontada como o principal fator dos recentes temporais.

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Na segunda-feira, o gabinete japonês informou que 70 helicópteros e 73 mil membros das Forças de Autodefesa e da Guarda Costeira estão envolvidos nas operações de resgate e na distribuição de alimentos nos abrigos.

Para poder lidar com os estragos causados pela chuva, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, decidiu cancelar a viagem que faria a partir desta quarta-feira a Bélgica, França, Arábia Saudita e Egito. O premiê declarou que o governo vai providenciar assistência às vítimas e ajuda financeira para a reconstrução das áreas afetadas.

Banho gratuito

Grupos de voluntários também se organizam para dar assistência às vítimas. Alguns brasileiros de Soja trabalharam no fim de semana recolhendo donativos, como alimentos, roupas e fraldas.

Eles também têm se mobilizado para repassar informações em português sobre a situação na cidade e outros avisos, como um alerta da polícia para a presença de ladrões disfarçados de socorristas que estariam invadindo casas inundadas.

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"Soja tem uma tradição de estender as mãos a quem precisa. No passado, chegamos a fazer uma campanha para arrecadar fundos às vítimas das enchentes e deslizamentos em Petrópolis (em janeiro de 2011)", lembra Shun.

Desde o dia 7, o Hotel Cent Inn Kurashiki colocou seus chuveiros e banheiras à disposição dos desabrigados. O estabelecimento tinha preparado kits de xampu, sabonete e 200 toalhas, mas em três dias cerca de 400 pessoas foram atrás do banho gratuito.

"Pode parecer pouco, mas é o que podemos fazer no momento. Muita gente veio até aqui porque não se sentia bem com tanta sujeira", diz uma funcionária.

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