‘Meu conceito é o de gerar oportunidade’, diz Márcio França

Em entrevista ao Metro Jornal, pré-candidato do PSB afirma que São Paulo tem serviços de qualidade, mas que sofre instabilidades pelo desequilíbrio político-econômico do Brasil

Por Metro Jornal

Governador e pré-candidato à reeleição, Márcio França (PSB) diz que aumentar a resolução de crimes em São Paulo passa por tirar a Polícia Civil da secretaria da Segurança Pública e que o ensino universitário à distância é saída para manter nos estudos os jovens formados na escola pública. Leia trechos de sua entrevista ao Metro Jornal.

Qual é hoje o maior problema do estado?

O maior problema de São Paulo é que os padrões de estabilidade econômica, jurídica e política não são os padrões do Brasil. Por exemplo, quando se avalia rating, para efeito de empréstimo, a gente paga o preço da instabilidade do Brasil, mesmo não tendo a instabilidade do Brasil. Digo isso não com aquela teoria que se ouve falar de separar São Paulo. Não é isso. Precisamos é consertar o Brasil.

Qual será a marca da sua gestão?

Meu conceito de administração é geração de oportunidade. São Paulo é fantástico em muitas áreas, mas tem muita gente excluída. Temos mais de 400 mil alunos na rede universitária da USP, Unicamp, Unesp e Fatec. Mas, ainda assim, absorve pouco. Na USP, Unicamp e Unesp são 20 mil ingressos por ano, mas só metade que entra é da escola pública. Nós formamos 450 mil alunos do ensino médio e damos 10 mil vagas: 2%. O segundo é garantir oportunidade para a pessoa que não trabalha. Para isso, temos dois programas. Pegamos as aulas da USP, Unicamp, Unesp e Paula Souza (as Fatecs) em algumas disciplinas. Sete cursos, que tinham 3 mil vagas na Univesp, que é uma outra universidade de São Paulo, virtual. Hoje, estamos com 300 e poucos polos e 50 mil vagas, em um ano. Como as aulas são gravadas, temos condições de replicar: uma aula a cada 15 dias, presencial, e o resto à distância, no computador. O município faz o convênio e nós abrimos os polos. O rapaz faz engenharia no padrão da USP, mas em Cananeia, em Sertãozinho. Dá para ir duplicando e, ao final do ano que vem, todo aluno formado no ensino médio terá vaga garantida na faculdade pública. Isso é uma solução de tecnologia, uma revolução. Em relação ao primeiro emprego, quando fui prefeito em São Vicente, a cidade era a mais violenta. Identificamos que a violência vinha de rapazes com 18 anos: 56% dos presos cometeram crimes nessa idade. Criamos o Alistamento Civil. Você recruta o rapaz quando ele é dispensado do Exército e o remunera para que trabalhe por quatro horas. Nesse período ele é obrigado a fazer curso técnico e sai com uma profissão. Vamos começar em agosto em 16 cidades. Se tudo correr bem, em 2019, temos condição de colocar 100 mil jovens. Em São Vicente, saímos de primeiro lugar em violência para abaixo dos 100.

Como espera que ocorrerão essas eleições, em meio à polarização política e o avanço das fake news?

O paulista, de maneira geral, acha que o governo é mais seguro e equilibrado que o restante do Brasil e não quer perder isso. Mas ele quer uma coisa a mais. Tenho 35 anos de vida pública. Nunca renunciei, cumpri meus mandatos. Há um desânimo das pessoas em relação à política, como se fosse possível encontrar solução não política. Não tenho nada na minha vida que me envergonhe para dizer que não sou político.

A resolução de crimes ainda é pequena no estado. O que pretende fazer para melhorar esse índice?

A Polícia Civil de São Paulo tem a melhor taxa de resolução do Brasil, mas isso não é suficiente. Eu acho que o principal da Polícia Civil é que há um desânimo coletivo por estar vinculada a uma secretaria que tem duas forças desproporcionais: a Polícia Militar, com 80 mil homens, fardados, ostensivos, com um tipo de comportamento totalmente diferente da Polícia Civil, que é investigativa, judiciária, tem que usar estratégia, inteligência, e se sente inferiorizada. Eu proponho que a Polícia Civil vá para a Secretaria da Justiça. Para você ter resolutividade, você tem que ter tecnologia avançada. Nós temos índices bons, por exemplo, em homicídios. São 7 mortes a cada 100 mil habitantes. É um índice muito melhor do que o do Brasil – média de 25.

Como combater o PCC?

Tem que estrangular o alimento que ela [a facção] usa. Ela coopta o rapaz que é vulnerável, que acha que se estudar não vai melhorar a vida dele. Você tem que fechar a torneira de ingresso.

Como fazer que as obras do Metrô não atrasem?

Nós poderíamos ter uma criatividade melhor na parte da composição financeira. Determinei que os órgãos competentes avaliassem uma novidade tributária, que eu usei muito quando prefeito. É uma contribuição de melhoria. Quando você faz o metrô, os imóveis paralelos ficam valendo mais. Se a gente fizer um acordo com as prefeituras e elas ajudarem a fazer a contribuição de melhoria nas áreas atingidas, você cria a equação que falta. A gente fez uma conta outro dia, para fazer o Metrô do ABC, que é um sonho antigo, teria que acrescentar uma contribuição de melhoria da ordem de R$ 120 por unidade habitacional nos primeiros 500 metros da linha atingida, por mês, durante um período. Você viabiliza o Metrô, mas precisa ter a vontade política e das prefeituras. O que não tem condição é fazer todo o investimento de Metrô, que é caro, com o recurso das outras pessoas. Quem é de Matão usa o metrô uma vez a cada sei lá quanto tempo. Ele fala :“Por que eu tenho que pagar o Metrô de São Paulo?”. Quando asfaltei minha cidade, eu asfaltei com contribuição de melhoria. Foi um parto no começo, porque todo mundo falava: “Como vou pagar de novo? Já pago IPTU”. Eu falava: eu sei, mas se a sua propriedade for valorizada, você pode contribuir. Se a maioria concorda, você faz.

Qual o maior gargalo da saúde no Estado?

São Paulo tem hoje 98 hospitais – mais do que no Brasil inteiro, público, gratuito. A alta resolução nossa é top. A gente responde por 80% dos transplantes, coisas mais graves, mais pesadas. O problema está na média, na baixa complexidade. Precisa que governo federal reajuste a tabela do SUS. Estamos trabalhando com a tabela de 13 anos atrás. Como que você pode ter uma conta fechada? O repasse é insignificante. Em vez de ficar montando hospitais, eles (governo federal) têm que passar dinheiro para quem está na ponta. O atendimento, quanto mais descentralizado, melhor.

São Paulo voltou a subir no Ideb, mas ainda está abaixo da meta. Como melhorar a educação básica?

Temos salas de aula sem a modernidade que precisaria ter: lousa digital, wi-fi, coisas que os jovens já têm hoje. Eles são digitais e a sala de aula, não. Precisa ter professores mais bem pagos e um aluno incentivado. Saber que tem vaga na universidade garantida muda a vida dele. Mas em quantos anos? Quatro anos. É questão de priorizar. Se você decidir que isso é importante, você faz. A decisão do dinheiro é sempre política. Não falta recurso quando a decisão política está tomada. Você vai tirar de outro lugar, claro, mas eu acho que isso é essencial.

Assista à íntegra da entrevista:

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