O que mudou na Cracolândia um ano após a megaoperação

Por Tercio Braga

Um ano depois da operação policial que prendeu traficantes e levou outro tipo de atendimento aos usuários de droga que ficam na Cracolândia, na Luz (centro), mirando acabar com o fluxo, a sensação de moradores, comerciantes e especialistas é que está tudo como antes.

A ação, deflagrada na manhã do dia 21 de maio de 2017, dispersou os usuários de droga que ocupavam ruas próximas da estação Julio Prestes. Boa parte foi para a praça Princesa Isabel. Depois, expulsos do local, foram para vias próximas às que ficavam antes, como a Helvetia –mas em menor número.

Colocado em prática, o programa Redenção proporcionou mais de 5 mil internações para desintoxicação. “Mas ter essas internações não significa que eles vão se recuperar. Porque, sem ter o que fazer na vida, a pessoa  vai cair no crack novamente”, afirmou  Guaracy Mingardi, consultor sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para Carlos Weis, coordenador do núcleo de Direitos Humanos da Defensoria, não ter ações de começo, meio e fim, faz com que tudo “continue como era”.

E essa é a sensação também de moradores e comerciantes.  “Continua tudo a mesma coisa”, disse o comerciante Carlos Farias, 57 anos, que mora e tem uma loja na região. “Estou com quatro meses de aluguel atrasados porque a loja não tem movimento, as pessoas passam correndo com medo e não entram para comprar.”

Também moradora da região, Elielta Araujo, 21 anos, disse que segue com o mesmo medo de um ano atrás. “Não ando por aqui à noite.”  Ela observa que as ações de segurança até pioram a situação. “Quando a polícia e a GCM ‘atacam’,  eles ficam mais revoltados e saem correndo, invadem as lojas, quebram os carros.”

Para Mauricio Pacheco, 64 anos, que tem loja na avenida Duque de Caxias, a situação melhorou com o dia claro. “Eles quase não circulam por aqui”, afirmou. Mas, à noite,  o medo permanece. “Aqui na avenida depois das 22h eles estão usando droga em todo o canto, andar a pé não dá.”

Na avaliação de Mingardi, do Fórum, é necessário ter uma política de médio prazo para que as mudanças comecem a surtir efeito.

A coordenadora geral do Instituto Pólis, Danielle Klintowitz, disse que um efeito da ação foi espalhar os usuários de drogas pelo centro, criando o que ela chamou de “minifluxos” em outras regiões.

Carlos Weis, da Defensoria Pública, disse que observou que houve aumento das ações da GCM (Guarda Civil Metropolitana), com um “uso de força bastante considerável”. Para ele, o número de pessoas circulando na região diminuiu. “ Mas a prefeitura não sabe para onde elas foram”, finalizou.  

Porta de saída começa a ser implantada

Em entrevista ao Metro nesta terça-feira, Julio Semeghini, secretário municipal de Governo e coordenador do programa Redenção, disse que o desafio do projeto é aumentar a escala da chamada “porta de saída” – o que fazer com o usuário de crack quando ele termina a desintoxicação.

“Todos os pacientes, sem exceção, saem do hospital com o contato do Caps [Centro de Atenção Psicossocial] de referência que vai acompanhá-los”, afirmou. Segundo o secretário, eles são encaminhados para repúblicas –moradias oferecidas para esses pacientes. Mas ele reconhece que há poucas vagas para essa fase.

Sobre as ações da GCM, Semeghini disse que serão verificadas.  

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