Tensão marca primeiro mês de Lula na cadeia

Por Rafael Neves - Metro Curitiba

O entorno da sede da PF (Polícia Federal) em Curitiba, onde o ex-presidente Lula completa nesta segunda-feira (7) um mês encarcerado, emanava calmaria na tarde última sexta-feira. Apoiadores do petista conversavam, reunidos em pequenas rodas, e ouviam uma apresentação de violão sob um sol ameno.

Nem parecia o lugar onde, poucas horas antes, um morador – que também é delegado da PF – derrubou uma caixa de som na hora do “bom dia, Lula”, ruidosa saudação diária ao ex-presidente. O episódio, que não teve maiores consequências, é uma amostra dos últimos 30 dias: apesar dos sinais de acomodação à presença de Lula, a rotina é constantemente quebrada por momentos de tensão ou violência explícita.

A PF já deixou claro que não quer o ex-presidente e pediu oficialmente, à Justiça, a transferência do petista. O motivo alegado são as altas despesas – cerca de R$ 300 mil por mês com a manutenção de servidores extras e outros custos operacionais – e a perturbação do trabalho no prédio, que a população frequenta por serviços como emissão de passaportes.

Enquanto isso não ocorre, porém, a própria PF deu por encerrado o “período de adaptação” de Lula, que agora pode receber mais visitantes além da família. A senadora Gleisi Hoffmann e o ex-ministro Jaques Wagner foram os primeiros a usufruir do benefício, na última quinta-feira. Os demais presos da Lava Jato encontram os parentes às quartas.

Ao sair da cela de Lula – um espaço de 15 metros quadrados no último andar do prédio, com cama de solteiro, mesa, banheiro e uma televisão – os aliados costumam dizer que o ex-presidente “está bem, mas indignado”. Lula tem se dedicado à leitura, segundo os petistas, e manda recados à sociedade através de cartas assinadas por ele.

O entorno

Se a PF reclama que a prisão atrapalha o cotidiano do prédio, pior é a situação do lado de fora. A maioria dos moradores do bairro Santa Cândida repudia a convivência com os manifestantes.

A situação era pior nos primeiros dias, quando o acampamento estava instalado em meio às casas. Após um acordo com as autoridades, a estrutura de pernoite foi levada para um terreno privado nas proximidades, mas as manifestações seguem ocorrendo na praça Olga Benário, como foi batizado um espaço com tendas e equipamentos de som a um quarteirão da PF. Mas as queixas continuam.

“A gente perdeu toda a liberdade. Tem que fazer voltas e voltas para sair. Barulho e incômodo o dia inteiro”, afirma o aposentado Nilton Bauer, morador do bairro há 15 anos, que vive em uma casa a poucos metros da ‘praça’. O barulho é a maior reclamação da vizinhança.

O movimento nega que a relação esteja tão conturbada. “No cotidiano as pessoas foram se adaptando à atividade nossa aqui. Nós temos um respeito imenso pela vizinhança”, garante Celso Ribeiro Barbosa, representante da Frente Brasil Popular.

Os militantes encontraram apoio com um pequeno número de vizinhos, não mais do que quatro ou cinco. Uma casa, cuja proprietária começou oferecendo água e refrescos, tornou-se um quartel-general onde alguns acampados preparam refeições e tomam banho.

A dona da casa não quis se identificar: “Já vieram ameaçar por causa do nosso apoio, falaram que iam botar fogo aqui”. Ela cobra pelo uso do chuveiro e por outras facilidades, mas abriu a casa para circulação dos lulistas, que encheram a fachada da casa com faixas e bandeiras.

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