A faxineira de universidade britânica submetida à escravidão pelo marido

Sara chegou a trabalhar até 20 horas por dia como faxineira, sem pausa. Não ganhava pelo serviço - era o marido que recebia o salário - e vivia sob a ameaça de que seus filhos seriam mortos se ela falasse sobre sua situação.

Por Anna Collinson - Repórter do programa Victoria Derbyshire

Uma linha telefônica do governo britânico criada para receber denúncias de trabalho escravo contemporâneo tratou de casos envolvendo 5 mil potenciais vítimas em seu primeiro ano de operação.

Sara* – que temia por sua vida – trabalhava até 20 horas por dia como faxineira em uma universidade no Reino Unido, sem que ninguém percebesse. A história, exibida no programa Victoria Derbyshire, da BBC, é contada a seguir:


São 9h e Sara esfrega os corredores da faculdade onde trabalha, enquanto os alunos chegam.

Ela olha a cena desejando poder, assim como eles, estudar um dia, ou usar roupas boas e maquiagem.

Mas parece uma realidade distante.

Ela já está no trabalho há seis horas e seu dia pode não terminar até as 23h – sem intervalo.

E ela não receberá um só centavo por isso.

Porque é vítima da chamada escravidão moderna, expressão usada para identificar as situações em que alguém é submetido a trabalho forçado, tem a liberdade restrita e não recebe pagamento.

Todos os dias, Sara trabalha sob o olhar de professores, alunos e de outros membros da equipe, mas ninguém está a par da sua situação. Eles não perceberam que há algo de errado.

E ela não vai dizer nada.

Ela foi avisada que seus filhos – que não vê desde que foi traficada de seu país de origem – serão mortos se ela contar a alguém.

"Como mãe, como eu poderia me perdoar se visse meus filhos serem mortos?", pensa ela, sentindo-se aprisionada.

É difícil ver uma saída.

Tornando-se 'livre'

É assim que Sara se lembra do tempo em que foi submetida a trabalho escravo, que acabou somente poucos anos atrás.

Não estamos usando o nome verdadeiro dela nesta reportagem pois seus traficantes ainda estão foragidos, possivelmente no Reino Unido.

Sara foi escravizada aos 16 anos por seu marido, poucos dias depois do casamento, e forçada a trabalhar primeiro em seu país de origem e, depois, no Reino Unido.

Ela viveu nessa situação por mais de 20 anos.

Estava constantemente cansada e deprimida. Seus pés, sempre inchados, sangravam. Depois de anos de trabalho, ela desenvolveu artrite.

No chão do depósito frio e vazio que dividia com outras pessoas, em sua maioria mulheres, ela dificilmente conseguia dormir por causa dos pesadelos.

Mas, temendo a morte de seus filhos, aguentou a situação – e só decidiu fugir quando sentiu que não tinha outra escolha.

Àquela altura, ela havia se tornado incapaz de andar – com as pernas escuras de hematomas após cair no trabalho – e tinha, efetivamente, sido deixada para morrer por seus traficantes.

Com a ajuda de uma amiga, entretanto, conseguiu escapar.

Fez contato com o Home Office, o Ministério do Interior britânico, e foi imediatamente transferida para um abrigo com a ajuda do Exército da Salvação e, em um primeiro momento, da Black Country Women's Aid, uma instituição de caridade independente que apoia sobreviventes de violência doméstica ou sexual.

Foi o começo de uma vida nova, embora ainda tivesse muitos obstáculos a serem superados.

'Como um dia de Natal'

Sara, compreensivelmente, estava relutante em deixar o esconderijo, com medo de que os traficantes de alguma forma a encontrassem.

"Eu não saía havia três dias. Estava apavorada", diz ela.

"Mas então alguém disse que eu não estaria sozinha, então eu decidi sair. E então fiz isso de novo e de novo."

E depois de anos em um estado perpétuo de medo, ela diz que "lentamente voltou a respirar".

Também foi a primeira vez que ela pode gastar seu próprio dinheiro no Reino Unido.

Antes, o marido, que foi quem arrumou o emprego para ela na faculdade, era quem recebia seu salário.

"A primeira coisa que comprei foram absorventes", lembra Sara. "Foi muito especial, porque, antes, quando eu menstruava, tinha que usar minhas roupas como proteção, e elas ficavam muito sujas".

"Foi como um dia de Natal", descreve ela.

Sara é uma pessoa calorosa e divertida.

Ela se lembra de ter visto a série de TV britânica Downton Abbey para aprender a falar inglês – e diz que uma das primeiras palavras que aprendeu foi "realmente".

Foco no problema

Sara está compartilhando sua experiência para chamar a atenção para a escravidão moderna.

Anne Read, do Exército da Salvação, diz que a história dela "mostra, de forma poderosa, a terrível realidade de que a escravidão moderna está acontecendo debaixo dos nossos narizes em todos os cantos do país".

Estima-se que pelo menos 13 mil vítimas vivam hoje em cidades da Grã-Bretanha.

"As formas pelas quais pessoas vulneráveis são exploradas para lucros de terceiros são limitadas somente pela imaginação do traficante", diz Anne.

O sentimento é compartilhado pela Agência Nacional do Crime, segundo a qual o público "muitas vezes verá potenciais vítimas da escravidão moderna" trabalhando em lava jatos, fábricas, como manicures, em zonas agrícolas e de pescaria, entre outros lugares.

A Unseen, linha telefônica do Reino Unido que trata de denúncias de escravidão moderna, disse ao programa Victoria Derbyshire que recebeu 3.710 chamadas em seu primeiro ano – com casos envolvendo 4.886 potenciais vítimas de 94 países diferentes.

'Há sempre esperança'

Apesar de tudo o que passou, Sara está determinada a aproveitar ao máximo sua liberdade.

Mas ela ainda está separada de seus filhos – agora já adultos.

Sempre que fala sobre eles, ela chora.

"Quando não estou pensando sobre o que aconteceu, me sinto livre. Mas, de alguma forma, não sou livre. O medo ainda está no meu coração", diz ela.

"Eu quero voltar para o meu país e ficar com meus filhos. Mas, se fizesse isso, colocaria tudo em risco", diz ela. Acredita-se que seu marido esteja em seu país de origem.

Alguns aspectos da vida dela tiveram grande melhora.

Depois de anos vendo os outros estudarem, Sara obteve algumas qualificações e espera ir para a universidade.

"Eu quero mostrar às pessoas que há sempre esperança", diz ela.

"Você só precisa de uma chance – e a ajuda vai te encontrar."

*Nome fictício

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