A cor tóxica proveniente dos vulcões que mudou a história da arte

Por séculos, a origem do pigmento laranja era um mineral tóxico. Alquimistas acreditavam que a tonalidade era essencial para criar a Pedra Filosofal, enquanto artistas a usaram para expressar as mais diferentes sensações.

Por Kelly Grovier - Da BBC Culture

Se você tirar o laranja da história da arte, tudo desaba. O céu na obra O Grito, de Edwaed Munch, se desfaz, e o grande fogo que acende o famoso Junho Flamejante, de Frederic Leighton, se apaga.

Se você tirar o laranja, tudo some, desde o brilho eterno e quente das pinturas das tumbas egípcias até a barba ruiva e flamejante dos autorretratos de Vincent van Gogh. Um árbitro sagaz entre o decisivo vermelho e o implacável amarelo, o laranja é um pigmento com um papel pivô. É a dobradura de uma tonalidade que permite que uma obra de arte oscile entre estados contraditórios da existência – este mundo e outro, vida e morte.

Além da moldura da história da arte, o laranja se mostrou um símbolo elástico pouco comum, florescendo em um espectro de formas e significados culturais. Apesar da influente Casa Real Orange ("laranja", em inglês) dizer que seu nome vem muito antes daquele dado à cor em 1540, seu ilustre filho William 3º (mais conhecido como William de Orange) rapidamente abraçou a coincidência linguística em 1570.

Sua rebelde obra laranja, azul e branca acabou sendo a vencedora do concurso da bandeira moderna da Holanda. A partir daí, o laranja tomou as cores de tudo desde os motores suíços até as roupas usadas pelos astronautas na Estação Espacial Internacional. Mas foi no reino da arte e da estética que a cor deu mais frutos.

Desde a antiguidade até o fim do século 19, um mineral vulcânico encontrado em fumarolas sulfúricas (gases que saem da crosta terrestre) era uma fonte importante para a composição do pigmento laranja.

O ouro-pigmento é altamente tóxico, rico em arsênio letal e passa de um suave amarelo para um laranja vivo quando submetido ao calor do fogo.

Convencido de que o brilho luminoso do ouro-pigmento (seu nome é uma contração da palavra em latim aurum, que significa ouro, e pigmentum, que significa cor, e também é chamada de auripigmento) deveria ser um ingrediente chave no preparo da Pedra Filosofal, durante séculos alquimistas arriscaram a vida se expondo à substância nociva. Assim como os artistas.

Explorar o oculto do laranja significava flertar com a mortalidade e a imortalidade na mesma medida.

Da faísca à chama

Intencionalmente ou não, essa aura ambígua é irrepreensível quando quer que o laranja seja usado na arte.

Por exemplo, o pintor francês rococó Jean-Honoré Fragonard e seu retrato de um escritor genérico em um momento de visão intensa: Inspiração, pintada em cerca de 1769. O casaco de veludo laranja – seus amassados vibrantes cintilando como chamas – ameaça engolfar a personagem alegórica de um poeta cuja imaginação acabou de ser acesa. Os sulcos de veludo se tornaram uma reflexão externa da mente do escritor.

Esse momento de devaneio que ilumina o indivíduo, como se fosse a partir de sua alma, vai ou garantir sua fama eterna como um trovador celebrado ou colocará seu próprio ser em chamas. Se você o vestir em qualquer outra cor senão o laranja, o poder da obra será perdido.

Nem é possível imaginar o Autorretrato com Auréola e Cobra, pintado pelo artista pós-impressionista Paul Gauguin mais de um século após o quadro de Fragonard, mergulhado em dois tons de laranja que dominam e dividem sua superfície radiante em territórios em competição de piedade e malevolência.

Criado por Gauguin enquanto ele vivia na vila de pescadores Le Pouldu, no noroeste da França, a obra traz na metade de cima uma indiferença sagrada às tentações humanas, simbolizada pelas frutas proibidas penduradas.

Para garantir que não perdêssemos o ponto imperdível, o artista se coroou nesse hemisfério da obra com uma auréola angelical. A parte de baixo desse painel de madeira, porém, revela uma suscetibilidade insustentável ao mal já que a cobra sedutora do Jardim do Éden está enrolada no dedo proverbial do artista.

Amarrar a obra em termos de tom envolve uma mudança dramática no equador das sombras de laranja – não diferentemente do próprio ouro-pimenta, antes e depois de seu batismo purificador por meio do fogo.

E assim vai, obra por obra, século atrás de século: onde quer que a cor laranja dite a temperatura de uma obra de arte, sabemos que estamos diante de um sertão entre um universo que podemos ver e um desconhecido misterioso que sentimos com cautela.

Como mais você caracterizaria o reino onde a fase liquefeita do herói de Munch grita sob um céu estranho cor de canela no trabalho O Grito? De que outra maneira você descreveria o espaço eterno das mulheres da obra icônica A Dança, de Henri Matisse?

1004537493858af0dfbee41bbb353e7bca09edbbd-930ba768034c32f9548ddb7271a5b60e.jpg A pintura A Dança de Henri Matisse foi encomendada por um empresário russo em 1990 para enfeitar a escada de sua mansão / Getty Images

Encomendada em 1909 por um empresário russo muito rico para enfeitar as escadas de sua mansão, à primeira vista, A Dança pode parecer a apoteose do prazer rítmico e a leveza sincronizada.

Mas o toque inquietante de damasco dos cinco corpos nus em êxtase, que parecem ter sido integrados em sua essência pelo Armageddon laranja do trabalho de Munch, é uma dica de que algo mais complexo e perigoso está em ação. As duas dançarinas que se esticam no chão da obra soltaram as mãos umas das outras enquanto a mais perto de nós começa a cair. Seu pé esquerdo já está saindo do campo de visão.

Longe de mostrar uma alegria sem preocupação, Matisse coreografou com cuidado um balanço em um desastre cósmico. A própria rotação do mundo é colocada perigosamente em dúvida.

Alerta âmber

Munch e Matisse determinaram o tom, e assim foi para o temperamento portentoso do laranja na arte moderna e contemporânea.

Durante o século 20, o esplendor do laranja foi refletido de várias maneiras nos trabalhos de todo mundo, desde Francis Bacon, no qual ele cria o cenário sinistro para o perturbador Três Estudos para Figuras na Base de uma Crucificação (1944) até a Arte de Estar (1967) de Rene Magritte, no qual a cor se infla ao ponto de desabrochar em um crânio surreal.

Os pigmentos sincopados de Ritmo, Alegria da Vida, pintado em 1931, são característicos de quão crucial o laranja é para o trabalho e a imaginação da artista ucraniana nascida na França Sonia Delauney, que uma vez protestou: "você sabe que eu não gosto de laranja".

Gostando ou não, o laranja é frequentemente o calor que mantém unida – enquanto ameaça soltar tudo – a música visual de seus sinuosos mosaicos.

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Por ter sido tão crucial para a história da arte no final do século passado, o laranja foi tingido inesquecivelmente no tecido da consciência artística contemporânea.

Entre os trabalhos mais celebrados do novo milênio, Portões, do casal de artistas Christo Yavacheff e Jeanne-Claude (conhecidos como Christo e Jeanne-Claude), colonizaram o Central Park de Nova York em fevereiro de 2005 com mais de 7,5 mil passagens com tecido de nylon.

A sucessão lírica de umbrais, que trazia um sentido poético do ir e vir infinito da vida – nascimento e renascimento, mortalidade e eternidade – só poderiam, como um reflexo, ter sido tingidos em um açafrão ativo.

Para alguns, a cor ecoa as roupas dos monges budistas. Mas, na minha cabeça, Christo e Jeanne-Claude (que morreram quatro anos depois) estavam reanimando uma chama sagrada, convidando aqueles que quiserem trazer suas almas cansadas ao poder transformador da tintura mais antiga e mística: o laranja.

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