'A dor é algo natural para os alunos', diz professor da Maré

Por Carolina Santos

Na sexta-feira (16), dois dias após a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o professor Gabriel* não conseguiu dar aula em uma escola municipal no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. “Comecei a falar e caí no choro”, relatou. O docente havia pensado em algumas palavras de conforto para dizer a seus alunos, adolescentes do ensino fundamental. Em vez disso, ele quem foi consolado.

“Infelizmente, meus alunos encaram a violência de forma naturalizada, pois convivem ela diariamente. Muitos conhecem alguém que perdeu a vida; amigos, primos ou parentes próximos. Tenho alguns alunos que são órfãos. Dá para perceber a dor que eles sentem, mas, da mesma forma, eles mostram uma serenidade que surpreende quem é de fora.”

Gabriel dá aulas em comunidades do Rio há oito anos. Já são dois na Maré, comunidade de onde Marielle era “cria”. Mesmo com a falta de verba para a rede de ensino ou a estrutura precária para trabalhar, o professor acredita que a educação pode transformar a difícil realidade da comunidade. A começar pelo exemplo deixado pela vereadora.

“Marielle era uma pessoa saída da Maré, venceu as barreiras estruturais impostas a mulheres, negras e pobres. Ela conseguiu não apenas se formar [no pré-vestibular comunitário da Maré], mas atuar na vida pública, obter uma votação expressiva nas eleições [quinta vereadora mais votada do Rio em 2016] e se tornar um horizonte de possibilidades.”

Rotina de medo

Assim como Marielle em sua época de escola, os alunos do professor Gabriel precisam enfrentar uma rotina de medo para realizar coisas simples do dia a dia, como ir estudar. “Afeta totalmente a rotina escolar. Desde aulas suspensas até baixa frequência de alunos por causa de confrontos entre policiais e traficantes”, conta com exclusividade ao Portal da Band. “

A região, segundo o professor, é disputada por duas facções rivais: o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV). Além disso, a repressão policial piorou e trouxe mais insegurança para o cotidiano dos moradores da Maré.

Ciente desses problemas, Gabriel sempre pede a seus estudantes para avisarem quando tem tiroteio no caminho até a escola. “Às vezes tem conflito às 6h, no momento em que eles estão se arrumando para sair de casa. A minha orientação é sempre pedir que eles permaneçam onde estão e não venham para a escola, que depois eu abono a falta. Tento deixá-los tranquilos, porque eles sabem o quanto é perigoso”, lamentou.

Velhos preconceitos

A tragédia envolvendo a vereadora Marielle Franco foi potencializada, na opinião do docente, por uma onda de ódio, vista principalmente nas redes sociais, que tenta diminuir a trajetória da parlamentar por meio das chamadas fake news, as notícias falsas. “Não adianta matar Marielle fisicamente, é preciso apagar o que ela representa.”

Gabriel cita duas mentiras que circularam pela internet para reforçar seu ponto. Em um dos boatos, a vereadora foi associada a uma facção criminosa. Em outro, dizia-se que Marielle era companheira do traficante Marcinho VP. “É do senso comum associar a mulher negra favelada ao tráfico, ao bandido. É um preconceito histórico que vem à tona com a morte da Marielle. A mulher negra chegar onde chegou desperta nosso racismo, nossa misoginia”, diz.

“Além disso, a morte da Marielle trouxe visibilidade para tantos anônimos que sofrem e morrem todos os dias nas favelas do Rio.”

Marielle presente

O lema que surgiu após o assassinato da vereadora ilustra bem, na visão de Gabriel, o que Marielle representa não só para a Maré, mas para todas as comunidades do Rio e para quem luta pelas mesmas demandas da vereadora do PSOL.

“O slogan ‘Marielle presente’ é exatamente isso. As ideias dela continuam presentes e vão germinar. Eu sinto na molecada da Maré que a Marielle deixou uma semente. Para mim, ela foi além do exemplo de emancipação individual. Ela era, e ainda é, uma esperança coletiva de mudança.”

* Nome fictício

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