O que pode pesar na decisão de Luciano Huck sobre candidatura a presidente

Apresentador deve decidir nos próximos dias se vai disputar a Presidência; se for lançado pelo PPS, como aventado, terá pouco financiamento público e tempo de TV, mas os fatos de ser conhecido da população e bom comunicador ajudam.

Por Nathalia Passarinho - Da BBC Brasil em Londres

A especulação sobre a possível candidatura de Luciano Huck à Presidência da República já dura meses.

Em novembro, o apresentador da TV Globo chegou a dizer, em artigo no jornal Folha de S.Paulo, que não se candidataria. Mas seu nome voltou a ganhar força com a confirmação da condenação do atual líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pode ser barrado pela Lei da Filha Limpa. E na semana passada, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elogiou o apresentador e sua possível entrada na disputa, dizendo ainda que ele tem o "estilo do PSDB".

A expectativa é que uma decisão definitiva seja anunciada nos próximos dias.

Mas o que pode pesar na decisão de Huck? De um lado estão as vantagens de poder vender a ideia de renovação na política e de ser conhecido pela população, e de outro, eventual pouco tempo de TV e fatores como impacto financeiro e em sua carreira no mundo do entretenimento. Confira a análise de cientistas políticos.

O QUE PODE PESAR A FAVOR

1. Não ser do meio político

Com os desdobramentos da operação Lava Jato e a investigação e prisão de diversos políticos, a avaliação geral é que o clima não está muito favorável aos "políticos profissionais". Algo que não é exclusividade brasileira.

Em vários países do mundo, há o fenômeno da ascensão dos chamados "outsiders"- figuras que se apresentam como "de fora da política". É o caso, por exemplo, do presidente norte-americano, Donald Trump, eleito em 2016.

Luciano Huck pode se beneficiar dessa atmosfera de repulsa a partidos e políticos, adotando o discurso da mudança e do "novo". E é isso que ele vem fazendo em entrevistas, artigos e discursos.

"Na minha geração, eu consigo enxergar competência, gente engajada e que eu admiro em vários setores. Na política é muito difícil conseguir encontrar muita gente da nossa geração que está a fim de servir de fato e que esteja fazendo um bom trabalho. Então, o que a gente precisa no Brasil é renovação", disse ele em mensagem gravada em vídeo e divulgada no dia 3 de fevereiro em um evento em São Paulo.

100028532tvglobodivulgacao-d8d5a80a103bbb7616249031818f47e2.jpg Luciano Huck pode se beneficiar de clima desfavorável a "políticos profissionais" | Foto: Divulgação/TV Globo / BBC

Para o cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), dos atuais potenciais candidatos, o apresentador de TV é o que mais "explicitamente" representa a ideia de alguém que não integra o mundo político. "É óbvio que o que está movimentando as pessoas em torno dele e está fazendo essa candidatura plausível é o desgaste da classe politica tradicional", diz.

"Essa questão dele ser externo à política, um outsider, com certeza é um ponto positivo. É algo muito buscado pelos eleitores. Ele é economicamente independente, então não depende de um grupo especifico. E tem liberdade para escolher o vice-presidente", completa o professor de Ciência Política Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB).

2. Capacidade de comunicação e visibilidade

Um ponto que reduz custos da campanha e facilita a captação de votos é o fato de Huck já ser amplamente conhecido entre a população. Seu "Caldeirão do Huck" é o programa de maior audiência da TV brasileira na tarde de sábado.

Além disso, o apresentador é, obviamente, um comunicador de talento, o que pode facilitar o contato com eleitores e a conquista do voto dos indecisos.

"O fato de ele ser bom comunicador traz uma vantagem. E ele é muito conhecido. O tempo que um partido precisaria para apresentar o candidato não vai ser necessário para o Luciano Huck", avalia Couto.

"Um caso parecido é o do ator Arnold Schwarzenegger, eleito governador da Califórnia, em 2003. Ele teve que convencer eleitores numa campanha curta, mas era uma cara conhecida, o que facilitou a vitória", completa o cientista político e professor Lúcio Rennó, da UnB.

3. Uso da internet

Se Huck se filiar a um partido pequeno – segundo os relatos na imprensa, ele estaria conversando com o PPS – e não tiver muito tempo de propaganda na TV, ele pode aproveitar a internet para difundir suas ideias e dar gás à campanha.

É o que tem feito, por exemplo, o deputado fluminense Jair Bolsonaro, segundo colocado nas pesquisas e que deve concorrer pelo nanico PSL.

"A grande questão é saber articular a campanha. A internet, que é potencialmente mais barata, tem um alcance muito grande. O Bolsonaro não tem muito dinheiro, mas está fazendo um barulho danado porque ele conseguiu montar um pequeno exército na internet", destaca Couto, da FGV.

A página de Huck no Facebook tem atualmente 17,6 milhões de seguidores. Bolsonaro é seguido por 5,2 milhões de perfis e Lula, por 3,2 milhões.

4. Capacidade de captar votos de Lula e Bolsonaro

Com a polarização entre eleitores de Bolsonaro e Lula, há um movimento em busca de candidatos "moderados".

"Existe um grande grupo heterogêneo na população que pode ser visto como de centro. Essas pessoas não têm uma adesão ideológica específica e costumam votar de forma pragmática", explica Rennó.

Com um discurso de defesa do liberalismo econômico, mas sem abrir mão de políticas sociais, Huck pode vir a captar eleitores "de centro" e conquistar votos de adeptos menos ferrenhos de Lula e Bolsonaro, segundo os especialistas ouvidos pela BBC.

"Ele captura votos dos dois. Certamente se posiciona como um candidato de centro. Agora, a quantidade de votos vai depender do tempo que Lula vai se manter na campanha e da capacidade do PT de apresentar um candidato viável para eventualmente substituir o ex-presidente", pondera Caldas.

Segundo Couto, essa postura "moderada" atribuída a Huck causa desconforto a outros pré-candidatos com perfil semelhante, como o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB).

O QUE PODE PESAR CONTRA

1. Tempo de propaganda na TV e fundo partidário

Até agora, apenas o PPS se ofereceu oficialmente para "abrigar" a candidatura de Huck, caso ele decida concorrer na eleição de outubro. O partido elegeu dez deputados federais em 2014 e terá pouco tempo de propaganda eleitoral na TV caso não se una a outras legendas para somar os minutos das inserções.

A distribuição do tempo é proporcional ao tamanho das bancadas da Câmara. O cálculo final vai depender do número de candidatos e da aliança que os partidos formarão na disputa. No entanto, siglas como PSDB e PT, que pretendem lançar nomes próprios, terão muito mais tempo de propaganda que o PPS, por causa do tamanho superior de suas bancadas – o PT tem 57 deputados, e o PSDB, 46.

Os recursos do fundo partidário também são distribuídos proporcionalmente à quantidade de parlamentares eleitos por cada partido. Em janeiro, o PPS recebeu apenas R$ 734 mil dos R$ 62,9 milhões distribuídos às legendas. Enquanto isso, o PT obteve R$ 8,4 milhões e o PSDB, R$ 7,1 milhões.

"Se tiver só o tempo (de TV) do PPS isso torna muito complicada a chanca de vitória da campanha. É importante que eles consigam alianças para aumentar o tempo de TV e o financiamento", diz Couto.

100028535elzafizaagenciabrasil-b307779984d224523e2a69f48a2bff78.jpg Tempo de propaganda na TV e financiamento têm impacto relevante no resultado eleitoral | Foto: Elza Fiúza/Ag. Brasil / BBC

Ricardo Caldas destaca, porém, que, se Huck começasse a se sair bem em pesquisas de intenção de voto antes do início oficial da campanha, ele poderia atrair outros partidos.

Na última pesquisa Datafolha, o apresentador aparece com 6% das intenções de voto, o mesmo percentual de Alckmin, em um cenário com Lula como candidato. Sem o petista na disputa, esse percentual sobe para 8%.

"O fundo partidário não é decisivo. O ponto principal é o índice de intenções de voto. Se a pessoa não decola, ninguém quer saber dela e ela não consegue financiamento. Se ele conseguir ultrapassar a barreira dos 10%, os partidos vão começar a aderir", avalia o professor da UnB.

2. Carreira na TV e vida pessoal

Uma das principais perguntas do momento é: será que Huck vai querer deixar para trás a carreira como apresentador – e os milhões que recebe em salário e publicidade?

"Ele vai perder muito dinheiro, ganha mais de US$ 10 milhões (R$ 32 milhões) por ano", afirma Caldas.

"A TV Globo já ameaçou que, se ele concorrer, também tirariam o programa da esposa dele, Angélica. Se multiplicarmos a perda de dinheiro por dois, é muita coisa. Podem começar a especular qual a contrapartida esperada na intenção de ser presidente", acrescenta.

Segundo o noticiário, a ideia de uma candidatura também enfrentava resistência em sua família.

3. Inexperiência

Ao mesmo tempo em que ser uma figura "de fora da política" pode beneficiar Huck na campanha, a inexperiência política pode prejudicá-lo caso eleito. Isso porque, para governar, um presidente precisa ser capaz de compor maioria no Congresso Nacional para aprovar propostas.

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva formaram alianças com partidos e distribuíram cargos, para conseguir votos no Legislativo. Dilma Rousseff também formou uma coligação ampla, mas não tinha a mesma habilidade para negociar com o Legislativo – dificuldade que se tornou evidente durante o processo de impeachment que a retirou do cargo.

"O Brasil é um país difícil de governar. É difícil construir maioria. Alguém sem experiência vai encontrar uma desvantagem na hora de montar o governo. Principalmente se ele for candidato por um partido pequeno", afirma Lúcio Rennó.

E, apesar do clamor por renovação, especialistas avaliam que o perfil do Congresso brasileiro não vai mudar muito na eleição de 2018.

"Lidar com o Congresso não é uma tarefa para amadores. Que o diga a Dilma. É difícil que o próximo Legislativo seja muito diferente, tendo em vista os candidatos que se despontam. Para lidar com um Congresso como esse é preciso ter afinidade com o modo de fazer política", afirma Couto.

Dilma Rousseff BBC

A inexperiência também pode estar influenciando o índice de rejeição de Huck entre eleitores da elite brasileira. Pesquisas de opinião mostram que ele encontra resistência, sobretudo, entre homens com maior escolaridade e renda.

Para os especialistas ouvidos pela BBC Brasil, isso se explica, em parte, pelo temor de que o apresentador não tenha capacidade técnica para governar o país.

"Entendo que existe um questionamento sobre a competência dele como gestor público entre esses eleitores", avalia Rennó.

"Ser apresentador de TV e trabalhar na iniciativa privada é uma coisa. Querer ser presidente sem ter tido experiência e sem saber montar uma base de apoio é outra. A população que tem nível de escolaridade mais elevado e conhece o sistema político pode questionar isso. Esses eleitores também são mais avessos ao risco, porque, de uma forma ou de outra, estão envolvidos no sistema atual."

Rennó destaca que, se o PSDB decidir lançar Huck candidato, essa resistência do segmento da população com maior escolaridade pode ser contornada. Mas, embora FHC tenha demonstrado simpatia pelo apresentador, a chance de seu partido abrir mão da candidatura de Alckmin atualmente é considerada pequena.

alckmin Leonardo Benassato/Reuters

4. Pouca capacidade de captar votos nos 'extremos'

Huck pode ter dificuldade em captar os votos nos extremos, ou seja dos eleitores mais "à esquerda" e mais "à direita", dizem os especialistas.

Por um lado, o discurso mais "progressista" de Huck em questões "morais" ou de "costumes" pode afastar eleitores mais conservadores e religiosos.

"Ele integra um grupo de pessoas associado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que defende a liberação de drogas, o aborto, e o casamento homoafetivo. Se ele vier a defender isso publicamente, pode ter problemas", diz Caldas.

"Estamos no meio de uma onda conservadora. Saímos de um governo de centro-esquerda, estamos num governo de centro-direita e há a expectativa de uma guinada à direita. Se ele se posicionar mais como centro-esquerda, ele vai perder essa onda", completa.

Por outro lado, a defesa do liberalismo econômico deve afastar eleitores mais à esquerda, que defendem uma participação maior do Estado na economia.

"Acho que ele tende a ter mais sucesso entre o eleitorado antipetista, principalmente entre os mais antenados, que acompanham a situação econômica do pais", afirma Rennó.

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