Musa trans do Carnaval carioca abre portas para diversidade e pede festa sem violência

Por Reuters
Pilar Olivares/Reuters
Musa trans do Carnaval carioca abre portas para diversidade e pede festa sem violência

Aos 14 anos, quando desfilou pela primeira vez em uma escola de samba, Wagner Carvalho não se reconhecia na imagem que via no espelho.

Hoje, depois de 16 anos, algumas cirurgias e um longo processo de autodescoberta, a agora Kamilla entrará para a história como a primeira musa transgênero da escola Acadêmicos do Salgueiro e, segundo a agremiação, a primeira de todo o Carnaval carioca.

“Ao mesmo tempo em que eu estou feliz eu também carrego uma grande responsabilidade”, disse a carioca de 30 anos, em entrevista à Reuters.

“Porque não tinha espaço, então você acaba agregando toda uma responsabilidade de um público, que te vê como exemplo, que torce.”

Nascida no Morro da Providência, Kamilla sempre foi apaixonada pelo Carnaval: desfilou pela primeira vez aos 14 anos, em uma pequena escola de seu bairro, e começou a sair em carros alegóricos no Salgueiro em 2008.

Entretanto, foi apenas no ano passado, quando conheceu a presidente do Salgueiro, Regina Celi, que recebeu o convite para atravessar a Marquês de Sapucaí em uma posição de destaque.

“O ápice da minha felicidade”, descreveu a carioca, que também trabalha como cabeleireira.

A preparação para o Carnaval exigiu uma mudança de dieta, rotina de exercícios diários e ensaios duas vezes por semana até o desfile.

Dez anos após desfilar no Salgueiro pela primeira vez, Kamilla representará uma rainha como parte do enredo “Senhoras do Ventre do Mundo”, que exalta a força da mulher negra. “O enredo fala de mulheres, dos primórdios, mulheres guerreiras… Fala de pessoas que possibilitaram que mulheres hoje se empoderassem. Eu acho o enredo super a minha cara”, disse.

A presidente do Salgueiro, Regina Celi, afirma que é natural ter uma representante trans na escola. “Uma vez que o ser humano se identifica com o gênero feminino e assim se sente e se comporta, num universo tão diverso, é natural que tenhamos essa bela representante trans”, disse à Reuters. “Kamilla vem somar-se a uma gama de mulheres que amam o samba e defendem a bandeira vermelho e branca.”

OBSTÁCULOS FORA DAS QUADRAS

A estreia de Kamilla acontece, entretanto, em um momento difícil para a diversidade no Brasil, onde, ao longo de 2017, mais de 170 pessoas trans foram assassinadas, segundo estudo divulgado em janeiro pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Os números, os maiores em 10 anos, fazem do Brasil o país com mais assassinatos de travestis e transexuais do mundo, seguido pelo México, com 56 mortes e os Estados Unidos, com 26, de acordo com a ONG internacional Transgender Europe (TGEU).

Kamilla reconhece que, fora das quadras, a situação nem sempre é fácil.

“A resistência para quem é trans tem em tudo. Se você entrar em uma padaria comigo, as pessoas já vão olhar. Se eu for em uma balada que não tem costume. Tudo que é diferente vai ter resistência”, disse.

“As pessoas vão apontar, sendo que não é um apontar com educação ou então falar com discrição, a pessoa vai falar para você ver. Isso que incomoda mais.”

Mesmo assim, Kamilla garante que progresso está sendo alcançado nas mais diversas áreas da sociedade. “As pessoas não entendem que trans já existe, a gente faz tudo igual a todo mundo. Eu vou ao mercado igual a você. Tem trans que é médica, tem trans que é enfermeira, tem trans que está indo para faculdade, que está iniciando, tem trans de tudo.”

Para o Carnaval deste ano, ela deixa uma mensagem.

“Acho que as pessoas têm que aproveitar o Carnaval de rua para se divertir sem violência, sem se alterar, com paz, sem segregar qualquer tipo de pessoa, qualquer tipo de raça. Abraçar as pessoas”, defendeu.

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